NAS QUADRAS
Uma NBA de símbolos
Por PEDRO RODRIGUES
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Publicado em 18/08/2026 às 13:24
Alterado em 18/08/2026 às 13:24
A pintura que Don Nelson que decorava a casa do ex-técnico, com seus amigos
Foto: reprodução/internet
A segunda semana de agosto da NBA foi carregada de simbologia. Encontramos símbolos desta era da NBA em duas despedidas e no perfil de quem está no comando dos times da liga. Vamos a eles.
Nellie
Um dos engenheiros da NBA de hoje nos deixou esta semana. Faleceu no dia 9 de agosto Don Nelson, cinco vezes campeão como jogador pelo Boston Celtics e dono de 1.335 vitórias como técnico — atualmente o segundo colocado no ranking de vitórias de treinadores — por times como Milwaukee Bucks, Golden State Warriors, New York Knicks e Dallas Mavericks. (Wikipedia)
Nellie, como era conhecido, fazia seus times jogarem um basquete rápido, privilegiando os arremessos de fora em uma tentativa de tirar o controle do jogo dos pivôs. Seus Bucks e Warriors corriam muito, mas nunca chegaram ao título em uma NBA do final dos anos 1980 e dos anos 1990 dominada por pivôs como Patrick Ewing, David Robinson e Hakeem Olajuwon.
Nelson foi também um dos pioneiros na aposta em jogadores europeus em uma NBA ainda bastante fechada para o basquete internacional. Em Golden State, transformou o lituano arnas Mariulionis em uma das principais armas vindas do banco no início dos anos 1990. (Star Tribune)
Para sorte do destino, foi justamente um ala-pivô gigante alemão que se tornou um dos jogadores mais identificados com Don Nelson. O eterno camisa 19 dos Celtics treinou jogadores como Chris Mullin, Tim Hardaway e Latrell Sprewell, mas seu nome estará para sempre ligado ao de Dirk Nowitzki — e vice-versa.
Nowitzki foi uma aposta decisiva da família Nelson no draft de 1998. O Dallas tinha a sexta escolha e fez uma troca com Milwaukee para chegar ao alemão na nona posição.
Donnie Nelson, filho de Don e então integrante da comissão técnica, havia acompanhado de perto o jogador no Nike Hoop Summit e foi fundamental para que Dallas apostasse naquele jovem desconhecido. (NBA.com)
A ousadia parecia ainda maior naquela época. Nowitzki era um jogador europeu de 20 anos, vindo da segunda divisão alemã, em uma liga que ainda olhava para estrangeiros com desconfiança. Don Nelson, porém, enxergava ali algo diferente.
A aposta deu resultado.
Depois de 21 temporadas jogando pelo Dallas Mavericks, com direito a um título da NBA em 2011, um prêmio de MVP da temporada e outro de MVP das Finais, Nowitzki calou os críticos e guardou seu lugar na história da NBA. Don Nelson tinha razão.
Nos últimos anos, Don Nelson viveu em Maui, no Havaí, onde passou grande parte do tempo entre o pôquer, o cultivo de maconha medicinal e a companhia de amigos como o cantor Willie Nelson e os atores Woody Harrelson e Owen Wilson. Era uma vida bastante diferente daquela do técnico que passava décadas brigando com árbitros, adversários e, eventualmente, com seus próprios jogadores. (Boston.com)
Sua influência, porém, foi muito maior do que a dos jogadores que treinou. Gregg Popovich, por exemplo, já reconheceu a influência de Nelson em sua visão sobre o basquete europeu. A filosofia de Nellie ajudou a abrir caminho para um jogo mais veloz, menos dependente de posições fixas e muito mais confortável com jogadores capazes de fazer várias coisas em quadra. (San Antonio Express-News)
Sem Don Nelson, provavelmente a NBA que conhecemos hoje seria diferente. E isso já é legado suficiente.
Paciente zero
Mais um capítulo importante da NBA se fechou nesta semana. Depois de 18 temporadas, o armador Russell Westbrook anunciou sua aposentadoria em 12 de agosto. Russ fez isso com um belíssimo vídeo de despedida, narrado pelo ator Michael B. Jordan — de Sinners, Creed e Pantera Negra —, que termina com sua frase mais conhecida: “Why Not?” (“Por que não?”). (Folha de S.Paulo)
Cabe aqui louvar o maior jogador da história do Oklahoma City Thunder por seus feitos e suas falhas.
Westbrook levou o Thunder às Finais da NBA em 2012, ao lado de Kevin Durant e James Harden. A vitória por 4 a 1 sobre o Los Angeles Lakers de Kobe Bryant, nas semifinais da Conferência Oeste, parecia representar uma passagem de geração. Não foi. O Thunder acabou perdendo as Finais para o Miami Heat por 4 a 1, e lesões, além das saídas de jogadores como Harden e, posteriormente, Durant, transformaram a equipe em um time competitivo, mas incapaz de superar o Warriors de Stephen Curry e companhia.
Nos 11 anos em Oklahoma City, Westbrook foi MVP da temporada 2016/17, quando teve a média de um triplo-duplo durante toda a temporada. Foi a primeira de quatro temporadas em que terminou com médias de triplo-duplo: 2016/17, 2017/18 e 2018/19 pelo Thunder e 2020/21 pelo Washington Wizards.
Em 2019, deixou Oklahoma City para jogar ao lado de James Harden no Houston Rockets, em uma passagem que terminou sem o sucesso esperado. Depois foi para Washington e, em 2021, cometeu o que considero o maior erro de sua carreira.
Westbrook era um jogador que arriscava muito, mas nenhum desperdício de bola ou arremesso de três errado chega perto do erro que foi aceitar ir para o Los Angeles Lakers de LeBron James e Anthony Davis.
O time vinha de uma eliminação na primeira rodada dos playoffs de 2021 para o Phoenix Suns e precisava de um fato novo. Russ era o jogador errado, na hora errada e, principalmente, na era errada.
O holofote do Lakers, somado a um time errático e a uma cobertura sem o menor filtro, transformou Westbrook no vilão de uma das temporadas mais fracassadas da história da franquia. O time ficou fora dos playoffs, e Russ foi eleito o culpado por praticamente tudo que deu errado.
Westbrook sempre foi um jogador divisivo por seu jeito explosivo e por decisões nem sempre corretas. Essa receita foi um presente dos deuses para as redes sociais e para a cobertura sensacionalista da NBA atual.
Ver um jogador All-Star, um dos maiores nomes da liga, dizer em rede nacional que seus filhos estavam sendo humilhados na escola é complicado. Mais complicado ainda é perceber como aquilo virou combustível para uma narrativa que transformou o jogador em personagem.
Outro fato importante foi a disposição de Russell em falar sobre os insultos que jogadores sofrem nas arquibancadas, especialmente em locais como Utah. Em 2019, após um episódio envolvendo um torcedor do Jazz, Westbrook afirmou que havia sido alvo de provocações raciais e que episódios de desrespeito contra jogadores em Salt Lake City eram recorrentes. O torcedor acabou banido permanentemente pela franquia. (NBA.com)
Russell Westbrook foi um dos grandes nomes da NBA da década de 2010. Competitividade, explosão, carisma e uma capacidade quase absurda de produzir números fizeram dele um personagem único.
Vai fazer falta.
Top 10 Russel Westbrook
Que batata com o pedido
O Los Angeles Lakers foi vendido pela segunda vez em pouco mais de um ano.
A primeira negociação foi anunciada em junho de 2025, quando a família Buss, que controlava o time desde 1979, acertou a venda da participação majoritária para o bilionário Mark Walter por US$ 10 bilhões. A operação foi aprovada pela NBA e concluída em outubro daquele ano. (NBA.com)
Agora, pouco mais de um ano depois, Walter vende a franquia para Josh Kushner — fundador do fundo de investimentos Thrive Capital — e Bob Iger — ex-CEO da Disney — por nada menos que US$ 12,5 bilhões.
Um “flip” de US$ 2,5 bilhões.
De acordo com as notícias que circularam na semana passada, Kushner e Iger avançaram rapidamente nas negociações: as conversas ganharam força no domingo, dia 9, e o acordo foi anunciado na quarta-feira, dia 12. A operação ainda depende da aprovação do Conselho de Governadores da NBA. (Reuters)
É uma venda impressionante por si só. Mas existe uma segunda história acontecendo ao mesmo tempo.
Mark Walter está no centro de uma investigação federal e de uma apuração da Securities and Exchange Commission envolvendo operações financeiras de suas empresas e empréstimos de aproximadamente US$ 16 bilhões que, segundo reportagens, não teriam sido devidamente classificados como transações com partes relacionadas. Walter e suas empresas negam irregularidades e afirmam estar colaborando com as autoridades. (Los Angeles Times)
É tentador ligar diretamente uma coisa à outra e dizer que Walter precisava vender os Lakers rapidamente por causa da investigação. Mas, até aqui, isso é uma interpretação, não um fato comprovado.
O que sabemos é que o negócio foi extraordinariamente rápido e extremamente lucrativo.
Iger foi o CEO da Disney durante a expansão da empresa que colocou Pixar, Marvel e Lucasfilm sob o guarda-chuva do conglomerado. A ironia é que o mesmo executivo que ajudou a construir um império de propriedade intelectual também participou de uma era em que a Disney foi acusada, por críticos, de transformar essas marcas em máquinas de produção de conteúdo em escala industrial.
Agora ele é dono do Lakers.
E essa talvez seja a melhor imagem da NBA atual.
Investidores para quem os times podem ser ativos financeiros, linhas em uma planilha, parte de um portfólio muito maior. Um número sem necessariamente carregar paixão, humanidade ou lastro emocional.
Pelo visto, Mat Ishbia foi um dos últimos dos bilionários que ainda atendiam à romântica noção de “vou ficar rico para ter um time da NBA”.
Hoje, a regra parece ser outra:
“Tem uma oportunidade de adquirir um sports entertainment asset.”
E isso, talvez, seja o maior símbolo de todos.