NAS QUADRAS
Entrevista: Cris Dissat - Blog Fim de Jogo
Por PEDRO RODRIGUES
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Publicado em 02/08/2026 às 14:56
Alterado em 02/08/2026 às 15:08
Cris Dissat, do blog Fim de Jogo, cobre o NBB desde 2013 Foto: acervo pessoal
Uma das bandeiras que defendemos aqui Nas Quadras é a preservação da memória do basquete brasileiro. Registrar cada partida e guardar o dia a dia de um campeonato como o NBB ajuda o público, o mercado e todos os envolvidos a compreenderem qual é a identidade da competição.
Atualmente, é possível encontrar alguns registros de partidas no próprio site da Liga Nacional de Basquete e também na mídia alternativa. Um dos melhores destinos para acompanhar o registro jogo a jogo dos times cariocas no NBB é o Blog Fim de Jogo.
Nesta entrevista, converso com Cristina Dissat, fundadora e gestora do espaço.
Cris, como é conhecida nas redes sociais, é jornalista com 40 anos de carreira, carioquíssima, e iniciou sua trajetória cobrindo moda em revistas como "Desfile", "Amiga", "Manchete", "Fatos e Fotos".
Em 1989, migrou para o jornalismo científico, atuando como editora de livros de sociedades médicas, como a Sociedade Brasileira de Diabetes. Em 2004, criou uma das primeiras grandes iniciativas de jornalismo esportivo digital do Brasil, com a fundação do blog Fim de Jogo.
Ao longo de mais de duas décadas de existência, o blog acompanhou as transformações do jornalismo e soube utilizar muito bem a instantaneidade das redes sociais. Já virou hábito para o torcedor carioca conferir o X/Twitter do projeto antes, durante e depois dos jogos.
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Nas Quadras: A cobertura do Fim de Jogo começou muito ligada ao Maracanã, mas vamos conversar um pouco sobre a cobertura do basquete carioca. Como surgiu a ideia de acompanhar a modalidade?
Cris Dissat: Começamos em 2013, muito por conta da Olimpíada no Rio de Janeiro. O pensamento era: Olimpíada não é só futebol. Então eu queria fazer outras coisas. Foi quando começamos a acompanhar o Rio Open e também o basquete. O basquete acabou sendo mais fácil porque era algo que eu trazia da minha infância, principalmente pela influência do meu pai. Ele jogava basquete no Maran, em Marechal Hermes. Minha mãe, quando não aguentava mais a gente dentro de casa, dizia para ele: “Leva essas crianças para a rua, porque eu preciso fazer comida e arrumar a casa”. E ele levava a gente para o Maran. Nós sentávamos na beira da quadra de basquete e ficávamos ali, literalmente, assistindo aos jogos até a hora de ir embora para casa. Não me pergunte como ou por quê. Talvez fosse medo do meu pai, talvez porque a gente estivesse gostando, mas ficávamos ali o tempo inteiro com ele. Quando nos mudamos para o Maracanã, eu devia ter uns 13 ou 14 anos, e o Maracanãzinho passou a fazer parte da nossa rotina. Meu pai sempre foi muito envolvido com o esporte. Trabalhava na Petrobras e, quando chegava em casa, via movimento no Maracanãzinho e dizia: “Filhas, vamos embora para o jogo". Qual era o jogo? Eu não sabia. Quem ia jogar? Também não sabia. Mas tinha jogo lá e a gente ia. E tinha muito basquete, principalmente nos fins de semana.
Nessa época, em 2013 e 2014, tivemos uma grande fase do Flamengo, com títulos da Liga das Américas e da Copa Intercontinental. Esse momento ajudou a aproximar ainda mais o Fim de Jogo do basquete?
Sim. Começamos a acompanhar mais o basquete, e isso coincidiu com uma excelente fase de evolução do Flamengo. A partir daquele momento, a modalidade passou a fazer parte do projeto. Percebemos que era um universo muito diferente do futebol, principalmente no que diz respeito à cobrança. Era algo mais simples: jogou mal, perdeu; jogou bem, ganhou — com raras exceções. Lembro que tínhamos uma frase que até parei de usar tanto, mas era mais ou menos assim: “Se seu time perdeu, venha se confortar com a gente. Se seu time ganhou, venha comemorar com a gente”. A ideia era que a gente não fazia textos para massacrar ninguém. O torcedor já estava sendo provocado pelos amigos, pelas notícias e pelos colegas que queriam brincar com a derrota. Se tivesse mais alguém para criticar, a situação ficava ainda pior. Então a gente chegava com outra proposta: “Não, calma. Vamos respirar. Essas coisas acontecem”. Isso funciona muito bem no basquete. No futebol é mais difícil. Acho que também funciona no tênis, talvez até melhor, porque existe uma relação diferente com a derrota.
Qual foi o momento mais marcante dessa cobertura de basquete nesses 13 anos? E qual foi o momento mais doloroso que você vivenciou?
Olha, acho que existe uma cena que todo mundo comenta e que foi muito especial. Na verdade, são duas: uma mais recente e outra um pouco mais antiga. A mais recente foi a cesta de três pontos do Didi, quando ele ainda estava no Flamengo. Por causa daquela cesta, o time conseguiu avançar. E eu só filmei porque tinha certeza de que o Flamengo perderia, porque sou supersticiosa. Em algumas situações, prefiro não filmar para dar sorte. Mas naquele dia eu estava gravando de um ângulo em que aparecia a torcida atrás. A bola tinha saído pela lateral, foi para a mão do Didi e restavam apenas dois segundos. Ele fez a cesta de três pontos e foi uma loucura (Vídeo). E acabou ficando como um daqueles momentos especiais. Agora, curiosamente, quando penso em um momento doloroso, eu não consigo apontar nenhum. Você pode perguntar: “Mas o Flamengo, como aconteceu com os meninos"... Teve uma final, acho que da BCLA, no Maracanãzinho, em que o Flamengo perdeu no fim. Os meninos que estavam fazendo a cobertura ficaram arrasados. Eu falei: “Gente, não fiquem assim. É isso mesmo. Ano que vem tem outro. Vamos embora”. Eles perguntaram: “Mas Cris, você não está chateada"? E eu respondi: “Não, gente, não estou. Vamos embora. Essas coisas acontecem”. Eu não sei explicar exatamente o motivo, mas o basquete não me passa essa sensação de tristeza mesmo quando a situação é de derrota. Acho que ele quase prepara você para isso. É claro que existem aquelas cestas decisivas no último segundo, mas eu vibro muito mais com a vitória do que fico abatida com uma derrota. No futebol eu sofro mais. No basquete, não sei explicar, mas não consigo apontar um momento triste.
Essa é a psicologia do botequim: como você está acostumada a acompanhar um ambiente tão pesado como o futebol, o basquete acaba se tornando mais leve.
Exatamente. E acho que, nesse caso, também existe um ensinamento do meu pai. Ele sempre falava: “Torça pelo seu time, não contra os outros”. Era assim que ele pensava.
Então, quando alguém me pergunta: “Qual é o seu time?”, eu respondo: “Eu torço a favor do meu, não contra os outros”. É claro que existe uma dosezinha disso no futebol que, muitas vezes, não funciona exatamente assim. Mas no basquete essa filosofia combina muito. É um ambiente onde me sinto muito à vontade. Acho que é isso. A cobertura do basquete é um dos lugares em que mais me sinto confortável. Eu sou do futebol, mas quando chego no basquete penso: “Aqui é a minha praia.”
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Para acompanhar a Cris e o Fim de jogo:
Basquete no Fim de Jogo