NAS QUADRAS

Fracasso perpetuado

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Por PEDRO RODRIGUES
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Publicado em 29/06/2026 às 10:12

Alterado em 29/08/2026 às 13:28

A seleção de basquete feminino se esvai a olhos vistos Imagem: Pedro Rodrigues/feita com IA

Enquanto a nossa seleção masculina parece ter encontrado um caminho para sair do buraco, apesar da derrota de quinta-feira (27) para a República Dominicana, 94 a 90, pela segunda fase das eliminatórias da Fiba World Cup 2027, a feminina, infelizmente, parece ter entrado em uma espiral de queda complicada.

As derrotas recentes da seleção brasileira feminina no qualificatório do Pré-Olímpico, realizado no México, diante de Sudão do Sul e México, são mais um capítulo de uma crise que parece se prolongar no basquete feminino brasileiro. Conversei com Bert, editor do Painel do Basquete Feminino, sobre o estado atual da modalidade.

 

Nas Quadras: No final da Olimpíada do Rio, em 2016, o basquete brasileiro vivia o seu momento mais complicado. As duas seleções, masculina e feminina, eliminadas — a masculina depois de uma derrota duríssima para a Argentina, e a feminina, eliminada na primeira fase sem vencer um jogo —, a Confederação sucateada e uma entressafra de jogadores e jogadoras. Avançamos dez anos e encontramos uma CBB mais estruturada, enquanto a seleção masculina voltou a apresentar resultados importantes, como a classificação para os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024. Quais são os principais fatores que fizeram com que a nossa seleção feminina não conseguisse melhores resultados durante essa década de reconstrução?

Bert: A seleção feminina, em 2016, já vinha de dois ciclos olímpicos bastante confusos, com incontáveis trocas de treinadores e problemas internos. Além disso, foi se despedindo progressivamente, nesse período, dos nomes que a carregaram em quadra nas conquistas do Mundial (1994) e das medalhas de prata e bronze olímpicas (1996 e 2000). Esses dois processos foram determinantes para a péssima campanha nos Jogos Olímpicos do Rio. De lá para cá, o basquete feminino se apequenou mais e mais no Brasil. Os centros tradicionais de formação de jogadoras no país foram deixando de existir. As seleções de base tiveram participação medíocre em torneios internacionais e uma condução errática pela CBB. A Liga de Basquete Feminino (LBF) não conseguiu avançar nem fortalecer seu campeonato. Tudo isso tem colaborado para perpetuar o fracasso na seleção feminina.

 

Nas Quadras: Até que ponto a troca de comando técnico atrapalha a continuidade do trabalho? Em relação a essa última mudança — Pokey Chatman saiu para a chegada de Léo Figueiró —, existe uma continuidade do ciclo anterior, ou zeramos tudo de novo?

Bert: No basquete feminino, infelizmente, tem faltado um projeto. As mudanças de treinador têm sido constantes e a improvisação tem sido regra. A passagem de Pokey Chatman foi rápida, por isso é difícil falar em continuidade. O treinador Léo Figueiró já vinha fazendo parte da comissão técnica mesmo antes da contratação de Pokey, e assumiu o time às vésperas de duas competições (Sul-Americano e Qualificatório para o Pré-Mundial), acumulando derrotas históricas para rivais como Venezuela e México. Caso a CBB confirme a efetivação dele, me parece uma insistência na receita que não funcionou no ciclo olímpico anterior: a contratação de um profissional que se destacou no basquete masculino dentro do ambiente do NBB para comandar a seleção feminina.

 

Nas Quadras: O Brasil hoje tem jogadoras como Kamilla Cardoso, Damiris Dantas e Sassá. Ou seja, estamos com boas opções nas posições 4 e 5. Existe mesmo uma entressafra em posições como a 1 (armador principal)?

Bert: Kamilla Cardoso e Damiris Dantas são hoje as melhores jogadoras de basquete do Brasil e as únicas representantes do país na WNBA. Como as duas são pivôs e funcionam como a reserva técnica da seleção, acredito que isso aumenta a cobrança por uma armadora de qualidade e que as envolva adequadamente no jogo. Essa discussão sobre a falta de uma armadora já ocorre há mais de uma década, com menções até sobre a possibilidade de naturalização de uma atleta estrangeira para a posição. Realmente há poucos nomes para a posição e tem faltado critério na gestão dessas escolhas. Alguma esperança surgiu nesses dois últimos torneios com a estreia de Aaliyah Guyton na seleção adulta, filha da ex-armadora Adrianinha, bronze na Olimpíada de Sydney (2000), e que está na NCAA.

 


Nas Quadras: A LBF sempre teve uma relação bem mais amistosa com a CBB. A seleção é fundamental para o nosso campeonato local, principalmente pela visibilidade que proporciona às atletas. Isso ocorre até mais do que no NBB. Valeria a pena trazer a seleção mais para dentro da LBF, com uma participação no jogo principal do Jogo das Estrelas? É possível mensurar o estrago para a modalidade caso o Brasil fique fora da próxima Olimpíada?

Bert: A LBF mantém uma relação amistosa com a CBB e uma proximidade com a seleção, inclusive no seu Jogo das Estrelas, mas isso tem sido insuficiente. A liga não tem conseguido fortalecer seus clubes nem manter uma competição tecnicamente atrativa. Dos clubes que participaram da primeira edição da competição, em 2010, apenas um, o Santo André, esteve presente em todas as edições do torneio. A LBF também não conseguiu formatar uma Liga de Desenvolvimento.
São dois exemplos que, na comparação com o NBB, explicam o menor impacto da LBF sobre a modalidade nesse período. Diante desse cenário construído ao longo dos últimos dez anos, parece provável que o basquete feminino fique novamente fora da próxima Olimpíada, reforçando esse ciclo de menor atratividade e investimentos.

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