INFORME ESPORTIVO
Leandro: 'Nossos jogadores estão perdendo a identidade'
Por CAL GOMES
[email protected]
Publicado em 24/07/2026 às 15:25
Alterado em 24/07/2026 às 15:25
Leandro vestindo o seu manto rubro negro Foto: divulgação
Cena 1 – Petrópolis. 1981. No quarto dos meus pais. Em um domingo qualquer.
Deitado na cama ao lado do meu pai, ambos vascaínos, o rádio Philco, azul e prata, exibia a voz encorpada do locutor Waldir Amaral desafiando o ruído da estática na transmissão de um dos muitos Vasco x Flamengo que ouvi ao lado dele, nas vezes em que não estávamos juntos, presentes, in loco, no velho Maracanã.
E Waldir narrava: "Bola com Junior, Junior para Adílio, Adílio para Leandro, o 'Peixe Frito' passa para Andrade, que toca para Lico, Lico para Tita, Tita para Zico, lá vai o Galinho, atenção, pode marcar...". Seu Zé Carlos, tenso, preocupado, sofrido, olhando para o vazio, reclamou em um sonoro desabafo, cheio de vogais, quase onomatopaico: "Êeeeeeeeeeeeeeeee, time enjoooooooooooaaaaaado!". No quarto, assistindo a tudo, meus irmãos rubro-negros gargalhavam.
Cena 2 – Rio de Janeiro. 1985. No Maracanã. Em um outro domingo qualquer.
Jovens amigos, nos seus 20 e poucos anos, tricolores do Andaraí, Zona Norte do Rio, se espremiam na arquibancada do estádio, suando, aflitos, esperando o apito final do Fla-Flu que, até os 45 minutos do segundo tempo, apontava a vitória ao time das Laranjeiras, quando um chute violentíssimo, da intermediária, do lateral Leandro, empatou o clássico. Segundos depois, um dos amigos apaixonados pelo Fluminense, destruído, segundo me relataram, desabou em lágrimas. Na geral do Maraca, completamente lotado, um daqueles irmãos presentes, anos atrás, no quarto dos meus pais, corria alucinado entre um oceano revolto de torcedores vestindo vermelho e preto.
José Leandro de Souza Ferreira, nome composto, com sobrenomes iguais aos de tantos outros, seria mais um dos milhões de brasileiros, digamos, comuns — como americanos e ingleses definem os ordinary men — se o futebol não o elevasse a um dos maiores ídolos da riquíssima galeria de craques, não só da história do seu amado Flamengo, mas de todo o futebol brasileiro. Que tanto fez sorrir como sofrer os loucos pelo esporte que entorpece de paixão e esmaga de dor milhões, planeta afora.
O grande jogador rubro-negro, que fez parte de uma geração extremamente gloriosa do clube da Gávea como o seu maior lateral-direito da história e um dos melhores de todo o nosso futebol, se tornou um dos símbolos de uma era que o tempo, por mais que avance velozmente, não consegue apagar.
E, para reforçar essa necessidade de impedir que a memória seja ofuscada pelo passar dos dias, meses, anos e décadas, desde que os joelhos de Leandro, o "Peixe Frito", o obrigaram a parar de jogar, na metade da década de 1980, os jornalistas Sergio Pugliese e Marcos Vinicius Cabral decidiram escrever e publicar detalhes preciosos da vida pessoal e profissional, da história, dentro e fora dos gramados, do talentoso jogador.
Enquanto escrevia este texto de abertura para a entrevista que o craque me concedeu, com exclusividade, para o JORNAL DO BRASIL, durante a Copa do Mundo, olhei para uma das prateleiras da minha estante, dedicada a biografias de grandes personagens, sabendo que "Leandro - Meu Manto, Primeiro e Único", em breve, estará entre elas.

Leandro ao centro com as faixas de campeão. No alto, a esquerda, quando atuou como zagueiro no Flamengo. Abaixo, quando criança com a camisa da Cabofriense. No alto, à direita, ao lado de Renato Gaúcho, na Seleção. Abaixo, com com os jornalistas Sérgio Pugliese e Marcos Vinicius Fotos: divulgação, Placar e álbum de família
JORNAL DO BRASIL: Qual o seu sentimento em ver a sua vida sendo contada em um livro?
Leandro: Depois de muita insistência para que eu aceitasse que escrevessem o livro, acabei cedendo. Acho que é uma coisa bacana. Foram pedidos de muitas pessoas. Inclusive de familiares, jogadores, amigos... enfim, torcedores. Porque, assim, acabo deixando alguma coisa registrada para a garotada que não me viu jogar, que procura saber um pouco da minha história. Acho importante conhecerem mais os ex-jogadores que passaram pelo Flamengo. Sempre fui uma pessoa que procurou conhecer, ler, antes mesmo de jogar no Flamengo, a história do clube.
É mais uma coisa que a gente deixa para esses futuros rubro-negros. Estou supercontente e orgulhoso.
O que te fez optar por viver em uma cidade pequena, como Cabo Frio, após parar de jogar?
?Cabo Frio é a minha cidade, né? Muitas pessoas pensam que eu nasci aqui, mas, na verdade, nasci no Rio, na Casa de Saúde São José, no Humaitá. Mas, vamos dizer que sou um cabofriense nascido no Rio de Janeiro. Passei toda a minha infância aqui. Minha mãe é cabofriense. "Minhoca da terra" mesmo... Os meus amigos de infância, do colégio, também estão aqui. É a minha cidade. É onde os meus pais e as minhas irmãs moram. Enfim, estou em Cabo Frio com os meus filhos e netos. Então, está tudo em casa. E tenho o meu trabalho também aqui... a minha pousada. É uma vida muito mais tranquila do que a dessas cidades maiores.
O que distinguia aquele time do Flamengo dos outros e que o levou a conquistar tantas vitórias e títulos?
?Aquele time era fantástico! Era um time dos sonhos, né? Era um time "raiz" do Flamengo. Tirando o Raul e o Lico, que também se encaixaram perfeitamente nesse espírito rubro-negro. Algumas três gerações estiveram ali, assim como eu: Rondinelli, Júnior, Andrade, Adílio, Mozer, Figueiredo, Vitor... Enfim, era uma família. E ficamos juntos praticamente de 1978 até 1983, quando aquele time começou a se desfazer por alguns motivos. Mas, depois, fizemos outros grandes também: o de 87, que era "massa" também, pô! Aquele da Copa União! Mas acho que esse resultado foi por causa desse tempo que nós passávamos juntos. No dia a dia, na concentração, nos jogos... A gente já se conhecia. E isso, quando você tem qualidade no grupo, perseverança, vontade, entrega e muita união, não tem como dar errado, né?
Nesses times e em sua carreira, qual a vitória, em um jogo, ou a conquista de um título que mais te emocionaram?
?A vitória sempre é importante. Seja ela no início ou em uma final também... E a vitória acompanhada de uma conquista é algo maravilhoso, porque você recebe o título junto. Mas o que eu posso te dizer é que o título mais emocionante foi o da Libertadores, pelas dificuldades que nós enfrentamos até o terceiro jogo. O mais impactante foi o Mundial, que é o título máximo, mas o mais importante mesmo foi aquela vitória contra o Cobreloa, na final da Libertadores.
E a derrota que mais doeu?
?Toda derrota dói. Não é boa, mas sempre tiramos algo de positivo para crescermos e aprendermos. Mas, para mim, dentro da minha profissão, da minha carreira, a maior derrota foi contra a Itália, na Copa de 1982, sem dúvida nenhuma. Marcou e traumatizou.
Quais as diferenças que mais te chamam a atenção do futebol da época em que você atuava em relação ao praticado hoje?
?O futebol evoluiu muito na parte física, mas deixa muito a desejar na parte técnica, principalmente no nosso futebol brasileiro, onde, antigamente, nós tínhamos muitas safras. Safras de craques, de gênios. Acho que a qualidade técnica mudou muito porque nós esquecemos de trabalhar com a base, entendeu? Que é a área, o setor mais forte que se deve ter no clube. Porque, normalmente, os grandes times de hoje em dia trabalham com jogadores da base para serem vendidos, né? Não ficam muito tempo por aqui, em nossos clubes, e logo vão para outros no exterior. Estão perdendo essa identidade, ficando robotizados lá. Perdendo aquela "manha", o perfil dos nossos jogadores, aquela qualidade técnica... todos aqueles dribles. Virou muito comércio. O valor do dinheiro cresceu muito.
Dos treinadores com quem você trabalhou, qual foi aquele com quem mais se identificou?
?Eu trabalhei com muitos, muitos treinadores. Um dos mais importantes para mim foi o Américo Faria, que foi, na época do juvenil, quem me deu toda aquela base; quem trabalhou muito a parte técnica, a tática e muita conversa também. Me mostrando o quanto era importante aquela fase para que eu me tornasse um profissional preparado. Esse foi um dos pilares da minha formação. Trabalhei com o Joubert também, que era outro que insistia muito nos treinamentos técnicos. Procurava nos mostrar o futuro. Que, para termos um futuro melhor, tínhamos que fazer certas coisas. Tinha também o capitão (Cláudio) Coutinho, maravilhoso; o (Sebastião) Lazzaroni, que é meu irmão até hoje. Tinha muita identificação. E identificação é com ele mesmo, sabe? E o Telê Santana. O Zagallo, o grande Zagallo. Foram muitos treinadores que me ensinaram muitas coisas importantes na minha carreira.
Você se referiu muito à questão da base, da formação dos jovens jogadores. Na sua visão, quais os motivos para que, no futebol brasileiro, não estejam surgindo bons laterais como antes?
?Laterais nós temos. Agora, laterais como aqueles que nós tínhamos, aí é difícil. Nós tínhamos grandes laterais, tanto os direitos quanto os esquerdos. É safra, é safra, não tem jeito. E isso é dom. Se você tem um dom, você desenvolve e vai crescer, evoluir cada vez mais. Hoje nós temos muito mais laterais marcadores, que ficam presos lá atrás porque não têm a qualidade... É difícil. Eu acho que é questão da safra mesmo.
E nós tivemos problemas nesse setor durante a Copa. Quais os outros principais motivos do fracasso da Seleção na competição?
?Fracasso? Sim. Pode-se dizer que é um fracasso por se tratar da Seleção Brasileira, pentacampeã, né? Mas isso já é passado. Não foi surpresa nenhuma para mim. Acho que o Brasil hoje está entre a sexta e a sétima força do futebol mundial.
É o que vimos agora. Há seleções da África jogando mais futebol do que a nossa. As da Europa, então, nem se fala. Acho que tem que começar do zero. Dar mais valor e trabalhar os jovens da base para se ter um futuro melhor para essa garotada toda.
E identificação não temos mais com a camisa. E a camisa pesa em alguns jogadores também. Eles são bons nos clubes, mas, quando chegam à Seleção... Nós não temos mais aqueles jogadores que botavam a bola debaixo do braço e resolviam as paradas.
Você acha que o treinador Carlo Ancelotti deve permanecer como treinador da Seleção para a próxima Copa?
?Eu enxergo as qualidades do Ancelotti como treinador. Basta ver o currículo dele. Vai sofrer muitas críticas. Já até renovou, né?
O Brasil perdeu, mas tivemos outros treinadores que também perderam uma Copa e continuaram. Então, por que ele não pode continuar?
Pelo menos ele vai ter um ciclo de quatro anos para fazer um trabalho melhor. Terá mais tempo...
Poderia citar os 11 melhores jogadores do Flamengo com quem jogou? Tipo uma "SeleFla"...
Ah! Não pode ser só 11, não! São muitos... Não vou nem citar nomes.
Vou só lembrar do time do Flamengo campeão do mundo, mas tem muitos jogadores bons com quem participei, com quem joguei junto.
(O time do Flamengo campeão do mundo em 1981, derrotando o Liverpool por 3 x 0, citado por Leandro: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior / Andrade e Adílio / Zico (capitão) e Lico / Nunes e Tita / Treinador: Paulo César Carpegiani.)

Leandro na grande Seleção de 1982. Foto: divulgação

A capa da biografia do craque escrita pelos jornalistas Marcos Vinicius Cabral e Sergio Pugliese Foto: divulgação

O craque e a neta Illa na noite de autógrafos de sua biografia, na sede do Flamengo Foto: divulgação