Europa: pandemia impõe limite à gastança no futebol

Clubes diminuíram gastos e adotaram novas estratégias

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A pandemia do novo coronavírus atingiu em cheio o mundo do futebol em 2020, provocando dificuldades financeiras para clubes e federações, deixando estádios vazios e forçando mudanças nas regras e no calendário, já que diversas competições foram canceladas ou adiadas em decorrência da emergência.

Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia do Sars-CoV-2, em 11 de março, quase todas as ligas de futebol foram adiadas ou até canceladas. A Premier League, principal campeonato nacional do planeta, parou no dia 13 do mesmo mês e só retornou em 17 de junho, enquanto a Ligue 1 decidiu não voltar a campo e concedeu o título ao Paris Saint-Germain (PSG).

O novo coronavírus também adiou a Eurocopa, a Copa América e a Copa Africana de Nações, todas reagendadas para 2021. A Liga dos Campeões e a Liga Europa foram paralisadas, mas conseguiram chegar ao fim sem público nos estádios e com um formato modificado para minimizar o risco de contágios.
Apesar da retomada das partidas no segundo semestre, os clubes e federações sentiram os reflexos negativos da pandemia em suas finanças. A Fifa, entidade máxima do futebol, calculou que a crise sanitária pode causar prejuízos de até US$ 14 bilhões e disponibilizou US$ 1,5 bilhão para ajudar federações.

Apenas o futebol europeu pode perder até 4 bilhões de euros (cerca de US$ 4,9 bilhões) nos próximos dois anos, segundo estimativa do presidente da Associação Europeia de Clubes (ECA), Andrea Agnelli.
O Wigan, da rica Inglaterra, já entrou em processo de falência em decorrência da pandemia. O Tottenham, que convive com um estádio novo em folha e sem torcedores, fez um empréstimo de 175 milhões de libras (por volta de US$ 236 milhões) para enfrentar os efeitos da pandemia.

"Houve uma urgência na redução de custos como forma de acompanhar a forte queda nas receitas. Com perda de receitas comerciais e bilheteria, os clubes tiveram de recorrer a fortes ajustes de custos para diminuir os prejuízos. Ainda assim, a capacidade de ajuste é limitada, porque os contratos com os atletas, que representam a maior parte dos custos, são de longo prazo", explica o economista Cesar Grafietti, em entrevista à agência Ansa.

Por conta da crise, os clubes das cinco principais ligas da Europa desembolsaram 2,2 bilhões de euros a menos em novas contratações na última janela de transferências de meio de ano em relação ao recorde de 5,5 bilhões de euros registrado em 2019, segundo o site Transfermarkt.

Já pensando no pós-pandemia, o CEO da Inter de Milão, Alessandro Antonello, declarou recentemente que será "fundamental" a introdução de um teto salarial para jogadores para garantir a "sobrevivência" e a "continuidade" do sistema.

Fora da elite Se clubes poderosos como Inter e Tottenham já sentiram os impactos da crise, times de divisões inferiores têm de se desdobrar para seguir de pé.

Massimiliano Calzolari, diretor esportivo do Mezzolara, clube da Série D da Itália, diz que a gestão tem sido "muito complicada" nos últimos meses, principalmente por causa dos jogos sem público, e que é difícil enxergar um futuro promissor no horizonte.

"Tenho dificuldades em ver um futuro próspero em curto prazo para o futebol amador, pois os recursos são cada vez menores e não vemos ajudas de instituições federais ou governamentais no horizonte. Esperamos que, pelo menos do ponto de vista da saúde, em breve tenhamos uma vacina para todos para o futebol recomeçar com mais confiança e segurança", afirma Calzolari.

Os jogadores e membros de comissões técnicas também sentiram de perto as mudanças causadas pela Covid-19. Além de precisar atuar em estádios vazios, os atletas passam por diversas baterias de exames, enquanto treinadores muitas vezes enfrentam dificuldades para escalar os times durante surtos do novo coronavírus.

Na Itália, mais de 120 jogadores da elite já testaram positivo, e somente um clube da Série A, a Udinese não registrou nenhum caso.

O goleiro brasileiro Gabriel, do Lecce, que disputa a segunda divisão, afirma que o futuro da categoria é "incerto" e admite sentir falta do público nos estádios.

"Mudaram várias coisas, como a falta dos torcedores, porque a atmosfera do estádio ficou diferente. O futuro é incerto, porque os times podem estar inseguros em investir e gastar por não saber como vai ser o amanhã. Mas acredito que, assim que as coisas voltarem ao normal, a tendência é que volte tudo a ser como antes", conclui.(com agência Ansa)