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Aos 71 anos, Afonsinho mantém a alma libertadora que o transformou num símbolo dos anos 70

Jornal do Brasil MAURICIO FONSECA, mauricio.fonseca@jb.com.br

Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho, não se entrega. Aos 71 anos, médico aposentado, passa a maior parte do tempo em Paquetá, bucólica ilha na Baía de Guanabara. Mas segue atento a tudo. Mantém o espírito libertador que o caracterizou quando ainda era jogador profissional. Foi o primeiro atleta a conseguir passe livre na Justiça, isso em plena ditadura militar. Hoje, observa, incrédulo, a onda conservadora que varre o mundo e chegou ao futebol brasileiro. Mas não se dá por vencido. Ainda acredita que vale a pena lutar por seus ideais, mesmo reconhecendo que existe um preço a pagar.

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Silvio Berlusconi, que foi dono do Milan e ex-primeiro ministro italiano, acaba de comprar o Monza, time da terceira divisão. Ele impôs regras para os jogadores que irão atuar pela equipe, entre elas a proibição de usarem brincos, terem tatuagens ou barba. Você jogaria por esse time?
Jamais. Juro que achava que esta pessoa já tinha desaparecido do cenário, engano meu. Estamos vivendo tempos estranhos, e essa atmosfera esquisita, ao que parece, é mundial, para permitir esse tipo de postura. Berlusconi é um bobo, acima de tudo. Um clube, por princípio, é uma reunião de associados. Porém, quando tem dono, fica sujeito a esse tipo de coisa.

Jogador de futebol é alienado?
É um erro, ou pelo menos exagero, falar isso. O jogador não é tão alienado como dizem. Me lembro de conversar com Zizinho e ele me dizer que votava no Prestes. Eu lutei pelos meus direitos durante a ditadura. Sem falar na Democracia Corintiana e no Bom Senso. É quase um clichê falar que jogador, enquanto classe, é alienado. Muitos são, mas não todos.

Alguns jogadores têm se manifestado publicamente em relação à eleição presidencial, mas quase todos numa posição conservadora. Como você vê essa mudança de perfil em relação aos movimentos e posições que citou anteriormente?
Como disse antes, esta onda conservadora é mundial. O Trump, nos Estados Unidos, o Macri, na Argentina, são frutos deste momento. Aqui não é diferente. O Felipe Melo declarou voto no Bolsonaro. Acho coerente com a forma como ele se comporta, com o que prega.

Outros jogadores também estão apoiando o candidato do PSL.
É verdade. Estranhei o posicionamento do Ronaldinho, porque ele sempre passou a imagem de brasilidade, mais descontraído. Dentro e fora de campo. Também fiquei surpreso com o posicionamento do Rivaldo. Ele quase não se manifesta. Parece que o Barcelona não gostou muito da posição de seus ex-jogadores...

Mas tem também o Paulo André, do Atlético-PR, que se recusou a fazer campanha para o Bolsonaro como queria o Petraglia, mandachuva do Atlético-PR.
Não foi surpresa a atitude do Paulo André. Desde os tempos de Corinthians ele se posiciona dessa maneira. Há riscos, mas não se pode ter medo das próprias convicções. Não pode se curvar. A Jack Silva fez o mesmo, no vôlei. Pagou um preço, mas não recuou e acabou se impondo, apesar do boicote que sofreu, graças a seu talento.
O movimento Bom Senso, de jogadores e ex-jogadores, começou em 2013 mas não foi adiante. Jogador é uma classe desunida?
Acompanhei de perto o movimento e participei, a convite do Alex, de algumas reuniões. Realmente a coisa não foi adiante, como se esperava. Fiquei pensando a razão. Acho que o fato de o jogador estar sempre disputando tudo o leva a uma posição mais egoísta, mais passiva.

Mas você pagou um preço alto por ter lutado por seus direitos durante a ditadura militar.
Só que valeu a pena. Me lembro que quando o Botafogo me afastou por eu ter barba e cabelo grande, um dirigente do clube disse que ia ser bom para eu aprender, que eu seria enterrado vivo. Fui emprestado ao Olaria. Quando voltei, depois da Copa de 70, o Zagallo não me aceitou. Disse que era ordem da diretoria. Numa reunião um dirigente chegou a me dizer que eu parecia mais um guitarrista, por causa do cabelo e da barba.

Por isso você foi à Justiça pedir para ser dono de seu passe?
Eles me proibiram até de treinar. Fiquei impedido de trabalhar e corri atrás dos meus direitos. Isso, em 1971, no auge da ditadura.

Você acha que a bagunça que tomou conta da CBF, com presidentes presos ou impedidos de sair do país por causa de corrupção, se reflete na seleção brasileira dentro de campo?
Não tenho a menor dúvida. Tudo depende da cabeça, da direção. Se o comando é ruim, tudo fica contaminado. Após 1970, a ditadura tomou conta do futebol. Antes ela participava, depois tomou o negócio para ela. A CBD passou a ser comandada por um almirante. Ficamos 24 anos sem ganhar nada. Só voltamos a conquistar Copa em 1994, já na democracia.

Você acompanha o futebol hoje em dia?
Tinha me afastado, mas voltei a me interessar no ano passado. Acompanhei de perto o Botafogo na Libertadores. Foi muito bom ver aquela interação entre time e torcida. Mas aconteceu alguma coisa, pois depois da eliminação nas quartas o time desmoronou da noite para o dia. Achei muito estranho.

Como você viu a participação da seleção brasileira na Copa do Mundo da Rússia?
Decepcionante. Criaram um biombo e por trás não tinha nada. O Neymar, nosso único fora de série, tinha um projeto pessoal, algo que nunca dá certo num ambiente em que o coletivo tem que prevalecer. A Copa só serviu para escancarar nossas deficiências. Que são muitas, por sinal.

E da Copa em geral, você gostou?
Também não. Por culpa do calendário. Hoje, a Copa já não é a principal competição do futebol, e sim a Liga dos Campeões da Europa. Os jogadores são muito exigidos e cobrados na temporada. Quando ela termina, estão esgotados. E é justamente neste período que acontece o Mundial. Pode ser que em 2022, no Catar, por acontecer em novembro, o panorama melhore.

Tem algum plano em vista?
Tenho 71 anos, me aposentei e passo a maior parte do tempo em Paquetá. Mas quero fazer alguma coisa ligada ao futebol. Sinto que ainda preciso fazer algo. Se bem que outro dia, numa conversa com o Gilberto Gil, ele, com toda aquela sabedoria, disse que eu já tinha feito muita coisa da vida. Que posso descansar sem culpa.



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