Tradicional clube do subúrbio carioca, Olaria precisa de R$ 150 mil mensais para viabilizar sua principal atividade

Quem entra na charmosa sede do Olaria Atlético Clube, na Rua Bariri, respira as raízes esportivas do Rio. Logo na entrada, uma lojinha com camisas do time é o cartão de visitas. As quatro piscinas ficam ocupadas, os campos de grama sintética estão repletos de crianças e adolescentes jogando, assim como o ginásio poliesportivo. A academia é bem equipada. E o campo principal, que já foi palco de gigantes, recebe o treino de jovens quase acostumados à rotina profissional. Sem falar dos troféus que rondam o local e abrilhantam o passeio pela história.

Nada parece fora do lugar no Olaria, à exceção do próprio time: jogará a Segunda Divisão estadual em 2019 pela sexta vez seguida, depois de quase cair para a Terceira. Como as atividades esportivas – e também sociais, conforme mostram os cartazes de shows e eventos na fachada – passam a impressão de um clube em ordem, o que falta para o Olaria, aos 103 anos, voltar à elite do futebol estadual? A resposta é tão simples quanto difícil: dinheiro.

O presidente, Augusto Pinto Monteiro (Pintinho), e o vice de futebol, Roberto Elustondo (Gaúcho), não escondem o cenário de preocupação ao comentar sobre as finanças: o clube gasta cerca de quatro vezes mais do que arrecada, e precisa terceirizar o futebol profissional para sobreviver. Enquanto as entradas variam entre R$ 50 mil e R$ 60 mil, as saídas chegam à casa dos R$ 200 mil.

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O campo principal do Olaria já foi palco de jogos estaduais. Hoje, recebe treinos de jovens aspirantes a um futuro melhor no futebol (Foto: Marcos Tristão)

O Olaria até tem fontes de renda que poderiam ajudar no equilíbrio das contas, como a parceria com a cervejaria Heineken e os eventos sediados na Rua Bariri. Mas o excesso de dívidas em causas trabalhistas interrompe o circuito da verba.

“A crise acabou comigo. Falo isso agoniado, não durmo. Antes de prepararem o dinheiro, já chega causa trabalhista. Se tiver alguma cota da federação, é penhorada também. E não é só o Olaria. Tem Campo Grande, São Cristóvão, Bonsucesso. É a realidade dos clubes do Rio. Quem ainda está resistindo sou eu porque tenho um quadro social forte, com cerca de 600 sócios. Mas já foram 16 mil”, recorda o presidente.

A história de Pintinho, por sinal, se confunde com a do Olaria. Um é tão intrínseco ao outro que o presidente se refere ao clube na primeira pessoa do singular. E cravou o escudo na pele quando a instituição completou 100 anos, em 2015. Aos 70 anos de idade, frequenta a Rua Bariri desde os dez, quando entrou como sócio, em 1958.

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O presidente Pintinho (E) tatuou seu amor ao Olaria na pele (Foto: Marcos Tristão)

Em 1975, Pintinho se tornou vice de futebol, e dali para a presidência, em 1996. “Conheço um pouco do Olaria”, brinca. Só se afastou do cargo por quatro anos, entre 2008 e 2012, porque precisou se tratar da miastenia gravis, doença neuromuscular que provoca fraqueza.

A nostalgia é inevitável quando ele lembra de jogadores como Romário, Ailton e Gonçalves, todos com passagem pela renomada base do clube, que briga em pé de igualdade com os grandes do Rio. O cenário nostálgico, no entanto, ganha ares de rancor ao reclamar da falta de auxílio de ex-atletas bem-sucedidos.

“Estou sentado na marquise, todo ferrado, comendo pão duro. Preciso pedir alguma coisa? Deveriam oferecer ajuda. Podiam botar alguma empresa na minha vida”, sugere Pintinho.

Drama na Segundona

Logo no começo da Série B1 do Campeonato Carioca deste ano, o Olaria perdeu três pontos por escalação irregular de 14 atletas. Foi a síntese da temporada do clube, marcada por desorganização e desespero. O drama só teve fim na última rodada do segundo turno, com a garantia da permanência na Segunda Divisão.

O desempenho abaixo da crítica não tem relação com a estrutura do Olaria, bastante superior a de muitas equipes da Série A. Sequer com a realidade financeira do clube, já que a terceirização do futebol repassou os gastos. O problema esteve no processo, sem planejamento. O acordo com a Fourteen, pouco antes do primeiro turno, foi feito às pressas.

“Quando alguém está se afogando, precisa se agarrar à primeira coisa que aparece. Na primeira rodada eles só tinham providenciado um jogo de uniformes, e o adversário também era azul”, explica Gaúcho, vice-presidente de futebol.

Para reverter o cenário, o Olaria promoveu intensa reformulação no meio do campeonato. Rescindiu com a Fourteen e transferiu o futebol para o empresário Jaider Moreira, além de ter trocado de técnico. A nova gestão contratou 13 jogadores, entre eles os experientes Rodrigo Souto e Leandro Chaves. “Teríamos ido melhor com garotos da base”, acredita Pintinho.



O presidente Pintinho (E) tatuou seu amor ao Olaria na pele
O campo principal do Olaria já foi palco de jogos estaduais. Hoje, recebe treinos de jovens aspirantes a um futuro melhor no futebol