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Dinheiro investido por Ronaldo no Valladolid financiaria 175 anos do São Cristóvão, clube que o revelou

Jornal do Brasil GUILHERME BIANCHINI, guilherme.bianchini@jb.com.br

Antes mesmo de avistar o muro interno que carrega o nome do filho mais ilustre, já é possível perceber um dos elementos mais fortes da tradição do clube que completará 120 anos o mês que vem. Embaixo da Linha Vermelha, na Rua Figueira de Melo, número 200, fica o São Cristóvão de Futebol e Regatas, campeão carioca de 1926. A maior glória, no entanto, aconteceu no início dos anos 1990, quando um dos grandes jogadores da história do futebol mundial deu seus primeiros passos no campo que fica debaixo do viaduto.

As histórias de São Cristóvão e de Ronaldo Fenômeno são indissociáveis. E todos que visitam o clube fazem a mesma pergunta: por acaso, ele está ajudando? No mesmo momento em que o ex-craque adquiriu 51% das ações do Valladolid, time da primeira divisão da Espanha, por 30 milhões de euros (cerca de R$ 140 milhões), a equipe que o revelou amarga o meio de tabela da Série B2 do Carioca, a terceira divisão estadual.

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Atrás de um dos gols, o São Cristóvão estampa seu maior orgulho: a revelação de Ronaldo Fenômeno, que dá nome ao estádio do clube (Foto: Marcos Tristão)

Nas finanças o cenário também é desanimador. Com um orçamento anual que oscila entre R$ 600 mil e R$ 800 mil, a receita fixa do clube gira em torno de R$ 144 mil graças às mensalidades de R$ 40 pagas por aproximadamente 300 sócios adimplentes.

Em rápidos cálculos, o valor gasto por Ronaldo nessa semana serviria para custear nada menos que 175 anos de operações do São Cristóvão. E uma porcentagem ínfima de 1% já aliviaria os cofres do clube por quase dois anos.

“Sobrevivemos por meio de doações. Tudo que está aqui foi doado por parceiros, comerciantes e sócios, pessoas que gostam do clube. Um vem e dá uma tinta, outro dá um piso. Para poder andar, tem que usar a imaginação. Se quiser só botar a mão no bolso, não consegue”, explica o presidente do clube, Anderson de Souza, conhecido pelo apelido de “Merrenga”. Ele se vangloria dos feitos de sua gestão. “Peguei o clube sem nada. Parecia filme de faroeste quando tem duelo de bang bang”.

Divergência interna

Iniciado em 2018, o mandato de dois anos de Merrenga tem como principal objetivo viabilizar a volta para casa. O São Cristóvão manda seus jogos na Rua Bariri, por meio de parceria com o Olaria, já que o estádio da Figueira de Melo não cumpre com as exigências da Vigilância Sanitária e do Corpo de Bombeiros. O presidente não descarta pedir ajuda a Ronaldo, com quem nunca conversou, mas vê o caminho contrário como solução.

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Anderson de Souza, o Merrenga, em sua sala. Presidente quer atrair investimentos de Ronaldo (Foto: Marcos Tristão)

“Não tenho que pedir, tenho que escutar o que ele pode nos oferecer. O que a gente quer dele é ajuda. Financeira seria bom, mas sua imagem também pode gerar esse financeiro facilmente. Com um milhão de reais eu subo de divisão. As pessoas até falam para eu ir atrás e me apresentar, mas primeiro tenho que trabalhar, para o vento soprar a favor. Porque as coisas só tendem a acontecer quando se está trabalhando”, analisa.

Merrenga não viu Ronaldo jogar com a camisa do São Cristóvão, mas Renato Campos, o gerente administrativo, sim. Aos 55 anos, ele frequenta o clube desde que nasceu e presta serviços a ele há quase três décadas, inclusive como atleta. Renato pensa diferente em relação a pedir ajuda a Ronaldo.

“A falha é nossa por não irmos atrás dele. Quem tem fome tem pressa. Se eu ficar esperando, vou morrer. Tenho que buscá-lo de qualquer forma. A soberba não pode ser maior do que a necessidade. Não falo como gerente, mas sim como torcedor”, alerta.

Os desencontros com Merrenga não param por aí, e até o apelido é motivo de discórdia. “Ele gosta dessa situação de ser chamado de Merrenga. Cada um com seu cada um, mas eu, como presidente de um clube que tem uma história como a nossa, não gostaria jamais que me chamassem pelo apelido”.

De acordo com Campos, a visita mais recente do Fenômeno ao clube se deu em 2014. Antes disso, somente em 2000, quando o então jogador da Internazionale fez sua última contribuição, no valor de R$ 500 mil. O dirigente sonha com recursos que cheguem por meio dos patrocinadores de Ronaldo:

“Melhor do que pedir dinheiro é indiretamente fazer com que ele traga dinheiro, nos ajude a atrair patrocínio. Seja uma empresa que estampe sua marca na camisa ou coloque uma placa publicitária no campo. Vai entrar recurso financeiro se explorar nossa imagem. Qualquer coisa que envolva o nome do Ronaldo é benéfica. Que ele fale: ‘Um por cento do que você me pagar, direciona para o São Cristóvão’. Ficaríamos ricos com qualquer migalha que sobrasse”, acredita Renato.

Jogadores são motoristas

De dia, atletas. À tarde e à noite, motoristas de Uber. Essa é a realidade da maior parte dos 26 jogadores do São Cristóvão, que já foi a casa de craques como Leônidas da Silva e Ronaldo Fenômeno. Depois do treino no gramado precário e do almoço, eles aproveitam as instalações centenárias para um cochilo entre as duas jornadas.

O acúmulo de empregos tem explicação: ninguém quer abandonar o sonho de criança, mas o salário mínimo pago pelo clube os obriga a procurarem outra fonte de renda. Nisso, muitos trocam as chuteiras pelo volante.

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Da esquerda para a direita: o meia Pedro, o técnico Joel Lopes e o atacante Erick (Foto: Marcos Tristão)

A duração do contrato é outro fator complicador. Todo o elenco tem vínculo de apenas quatro meses, período em que o São Cristóvão disputa a Série B2 do Carioca. “Quem não se encaixa em um clube de primeira divisão joga só quatro ou cinco meses e fica desempregado no resto”, revela Joel Lopes, técnico da equipe.

Além dos salários baixos e dos contratos curtos, os atletas de clubes como o São Cristóvão precisam lidar com o cenário de abandono da Ferj, que pouco faz para auxiliar equipes tradicionais do estado. “O que a federação do Rio faz com os clubes pequenos é sacanagem”, dispara o gerente administrativo Renato Campos.

O time adversário é apenas um dos obstáculos que precisam ser driblados nas partidas de divisões inferiores do estadual. “Temos uma equipe técnica, que gosta de tocar a bola, mas como atuamos quase sempre em gramados ruins, somos obrigados a jogar na ligação direta”, conta o meia Pedro, um dos atletas que se dividem entre o futebol e as corridas pelo aplicativo de celular.

Sem condições de receber jogos no estádio Ronaldo Nazário, o São Cristóvão exerce seu mando de campo na Rua Bariri. O estádio do Olaria, no entanto, também passa por fase crítica. “Na Bariri o gramado está ruim. Muitos times jogam nele a semana toda. Até alguns da quarta divisão. No primeiro jogo nosso até que ele estava bom, mas com tanta equipe jogando ficou horrível”, revolta-se o atacante Erick.



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