Na Flip, McEwan diz que espera criação de um gênero literário sólido no Brasil

Na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o premiado escritor britânico Ian McEwan se defendeu sobre a suposta manipulação de suas narrativas e disse esperar do Brasil a criação de um "gênero sólido" literário. Ao lado da renomada escritora norte-americana Jennifer Egan, os autores, que estiveram na mesa Pelos olhos do outro neste sábado (7), debateram sua relação com os personagens e o processo de realização de seus livros.

McEwan, que já havia participado da Flip em 2004, deixou escapar uma informação valiosa do romance, que conta a história de uma espiã inglesa:

“No meu novo livro, tenho um “truque”. Na verdade, é um homem, amante da protagonista, quem descreve as situações. Acho que não deveria ter revelado isso.”, afirmou sobre a obra, que foi lançada na Flip antes do que em qualquer outro lugar do mundo. 

O autor também foi sarcástico quanto à suposta manipulação em suas narrativas, que deixam o leitor imerso em dúvidas ao longo de suas obras. Citando o ator americano James Woods, ele refletiu sobre o ofício de um escritor.

“James Woods me acusou de ser manipulador na narração de meus livros. Para mim, ele me acusou de ser um escritor”, ironizou McEwan.

O inglês se utilizou de uma metáfora inusitada para descrever a relação que gosta de criar entre o leitor e o texto: a pesca de truta. Ele comparou que, no esporte, quando se retira o peixe da água e se faz cócegas em suas guelras, o animal entra em transe. McEwan considerou que a situação da narração com o leitor também se dá, em certo grau, da mesma forma.

Twitter

Ganhadora do Pulitzer por A Visit From the Goon Squad, Jennifer também analisou a literatura no cenário virtual que a Internet estabeleceu na vida pessoal dos indivíduos. Ela citou o conto de ficção científica sobre um espião que vivia no Mediterrâneo num futuro próximo, Black Box, que foi escrito no Twitter - cuja limitação é de 140 caracteres.

“Tive que utilizar bem o Twitter. Por isso, tive que esperar até encontrar a voz e a personagem exatas. Também, tinha que ser uma história que não pudesse ser contada de outra maneira”, disse, revelando que escreveu a obra à mão, usando um caderno japonês com oito retângulos por página.

McEwan também se mostrou otimista quanto ao futuro da literatura brasileira. Segundo ele, quando grandes potências disputam pelo espaço territorial do planeta, surgem bons "materiais", tanto literários como de outras naturezas.

“Com o Brasil crescendo como está, espero que consiga produzir um novo gênero literário sólido”, projetou.