‘Jogo eleitoral não está totalmente jogado’, diz Paulo Kramer

Professor licenciado da Universidade de Brasília (UnB) e doutor em Ciência Política pela UFRJ, Paulo Kramer observa há mais de 30 anos o cenário político no Brasil. Nesta entrevista ao Jornal do Brasil, ele diz que o país nunca viveu situação semelhante à que se dá agora, de total indefinição e desesperança quanto ao futuro. Diz que o Centrão ainda pode “neutralizar” a candidatura de Alckmin, desfazendo a prometida aliança, caso perceba que o candidato não vai deslanchar no que chama de “campanha analógica” - no rádio, na TV e no corpo a corpo.

Estamos a pouco mais de dois meses das eleições e o cenário ainda é confuso, especialmente na campanha para presidente. A que o senhor atribui isso? 

Concordo com a avaliação de que nunca vivemos essa situação. Existe hoje a intercessão de duas crises tremendas. De um lado uma crise econômica, na qual o Brasil atravessa a pior recessão da sua história. Por outro lado, estamos vivendo uma crise ético-política e o eleitor brasileiro nunca antes tinha sido confrontado com volume tão grande de informações sobre corrupção e sobre os mal-feitos dos políticos. Esse eleitor, que está machucado pela recessão e por essa avalanche de revelações, é a grande incógnita desta eleição. 

Os partidos do chamado Centrão decidiram manter a tradição e apoiar o candidato tucano. Como o senhor avalia, primeiro, a indecisão inicial do centro, e depois, a escolha de Alckmin? 

Esse conflito está  ligado ao fato de a nossa política nunca ter clareza programática ou ideológica. O que importa é apostar no cavalo vencedor. O Alckmin parece, aos políticos tradicionais que formam o Centrão, um parceiro político mais previsível ou um ser humano mais normal. O PSDB tem capilaridade e tem recursos financeiros. Os partidos do Centrão querem economizar os recursos para suas campanhas proporcionais. É o número de deputados que define o valor dos fundos partidário e eleitoral e define também o tempo de televisão. Por isso é importante ampliar a bancada. O PSDB tem um tempo de TV razoável e tem o candidato que é politicamente mais palatável. Isso influenciou decisivamente a opção deles pelo Alckmin. Mas, mesmo hipotecando apoio oficial ao Alckmin - o que ainda não aconteceu -, esses políticos não terão a menor cerimônia em neutralizar a sua candidatura, dependendo do seu desempenho no decorrer da campanha.

Quando o senhor diz que Alckmin é um ser humano normal, considera que Ciro Gomes não é? 

Ciro é o seu pior adversário. O seu temperamento explosivo e as ameaças veladas ou não veladas que ele faz aos representantes das classes políticas tradicionais, como o MDB, assustam a classe política no contexto eleitoral. Esta pré-campanha está marcada por uma inaudita agressividade de todos os lados. Ciro consegue ser mais agressivo que o Bolsonaro.

Mas ele não reagiu agressivamente à decisão do Centrão... 

O jogo eleitoral não está totalmente jogado.  Alckmin está fazendo o máximo de propaganda para colher os resultados do que os militares chamam de operação psicológica, em que antes de entrar na batalha se procura enfraquecer o moral do adversário, mas Ciro soube se comportar, até porque o apoio não foi oficializado.

O temperamento explosivo também está sendo usado pela própria campanha dele para mostrar que se trata da indignação e intransigência com o que está errado no país. O senhor acha que essa estratégia é válida? 

É a mesma estratégia usada pelo Bolsonaro. A diferença é que Bolsonaro projeta a raiva e indignação de maneira mais estilizada e mais teatral para agradar ao eleitorado. Tanto Ciro quanto Bolsonaro ainda estão tentando levar o Centrão para eles. Mas, como esses partidos de centro são universalmente repudiados pelo eleitorado, para qualquer um dos dois que não conseguir o apoio deles, a estratégia será estigmatizar e carimbar a aliança com Alckmin como a aliança com os herdeiros de Eduardo Cunha (ex-deputado, preso por corrupção), que é outro nome universalmente repudiado. 

O senhor está entre os que acreditam na polarização, novamente, entre o PT e o PSDB no segundo turno? 

Não. Acho que essa eleição vai enterrar definitivamente a polaridade PT e PSDB. É mas provável que o candidato do PSDB vá ao segundo turno contra alguém que não seja o candidato do PT. O herdeiro de Lula, seja ele quem for, não consegue ampliar para fora do lulismo a busca de outros apoios em função do apoio de Lula. A ciência política diz que o político que procura transferir votos para terceiros só consegue transferir 60% dos votos de quem considera esse político transferidor ótimo ou bom. Além disso, a eleição de 2016 foi muito adversa para o PT. Foi devastadora. O partido perdeu 60% da sua estrutura municipal, e se considerarmos que perdeu a Prefeitura de São Paulo, será muito mais que isso. Tradicionalmente, a eleição municipal monta o palanque para eleição presidencial e para governadores.

O senhor acredita, então, que Alckmin estará no segundo turno? 

Tudo vai depender de como Alckmin vai se conduzir neste “momento analógico” da campanha - com os programas de rádio e TV e no corpo a corpo. Ele tem condições de se sair melhor do que tem saído até agora no que chamo de “momento digital”, que é a pré-campanha, feita nas redes sociais e na internet.

Com o ?cam as esquerdas, agora, nesse cenário? 

As esquerdas agregam muito pouco. O Ciro é mais viável do que um candidato puramente lulista. Na hipótese de obter o apoio do PT, o que acho pouco provável, porque o PT não é capaz de abrir mão da cabeça de chapa, mas se ele conseguir esse apoio do Lula, paralelamente, ele já tem alianças colocadas ao centro mais à direita, que pode perder.