Bolsonaro quer ser presidente para 'resgatar' o Brasil

O deputado de extrema direita Jair Bolsonaro levantou as bandeiras da honestidade e da moralidade para "resgatar" um Brasil mergulhado na corrupção, ao lançar neste domingo (22) a sua candidatura para as eleições de outubro, nas quais as pesquisas indicam que chegará ao segundo turno.

"Minha candidatura é uma missão. Se estou aqui é porque acredito em vocês e se vocês estão aqui é porque acreditam no Brasil", proclamou Bolsonaro durante a convenção do Partido Social Liberal (PSL), no Rio de Janeiro, onde cerca de 3.000 apoiadores lhe receberam aos gritos de "mito, mito!".

Este capitão da reserva e nostálgico da ditadura militar (1964-1985) se apresenta como uma opção de renovação, um político sincero, presente nas redes sociais e distante da velha forma de fazer política.

Segundo Bolsonaro, ele está causando incômodo ao establishment. "Eu sou o patinho feio nessa história, mas tenho certeza: seremos bonitos brevemente", proclamou o político de 63 anos, acompanhado por sua esposa e seus filhos.

Conhecido por suas declarações racistas, misóginas e homofóbicas, Bolsonaro mostrou neste domingo um tom mais conciliador e falou a favor das mulheres e da "igualdade", que, para ele, não passa por cotas ou por um tratamento diferenciado à comunidade LGBT.

Apelando à linha dura, com a intenção de legalizar o porte de armas para fazer frente à violência e de nomear militares para seu governo, Bolsonaro também falou de sua "honestidade" ao confessar que não entende de "muitas coisas".

Ele se comprometeu a impulsionar uma economia aberta ao mercado e a promover privatizações - inclusive de setores da Petrobras - sob a condução de seu assessor, o economista ultraliberal Paulo Guedes, também presente no ato.

No entanto, uma dúvida pairava neste domingo na oficialização do segundo candidato com mais intenções de voto, atrás somente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está preso: Bolsonaro ainda não tem vice-presidente.

O deputado cristão já recebeu dois "não" dos candidatos que ele queria. E, embora neste domingo estivesse sentado junto à advogada Janaína Paschoal, uma das impulsionadoras do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, ela disse que ainda está refletindo sobre o convite.

O discurso de Paschoal, muito crítico com os governos de esquerda de Lula e Dilma, esfriou o ambiente ao apelar ao movimento liderado por Bolsonaro: "Não se ganha uma eleição com pensamento único, nem se governa com pensamento único".

- 'Ficha limpa' -

"Do jeito que está o nosso país, o Bolsonaro pode fazer a diferença. Não chega a ser um salvador, porque só Deus é, mas é a nossa esperança porque não está envolvido em corrupção", dizia à AFP Gilmar Jasset, um motorista de ônibus de 35 anos.

O público que compareceu neste domingo para ver Bolsonaro na convenção era heterodoxo: desde conservadores evangélicos, pessoas de classe média, policiais e militares, até moradores de comunidades cansados dos tiroteios.

Muitos veem em Bolsonaro o homem forte "ficha limpa" capaz de resgatar um país afundado na crise política, econômica e social, e abalado por escândalos de corrupção que nos últimos anos colocou no banco dos réus dezenas de dirigentes de partidos de esquerda e direita.

Cristiano Pereira, 32 anos e morador da Baixada Fluminense, acredita que o Brasil precisa de um homem com o "punho firme"; Sueli Bonavita, dentista de 64 anos, que faz falta uma pessoa "de direita, que defende a família, a democracia e a igualdade".

- As pesquisas e Trump -

O certo é que Bolsonaro tem mais votos hoje do que qualquer outro candidato, exceto Lula, preso por corrupção há quatro meses e cuja candidatura deve ser impugnada.

Mas isso não é suficiente para vencer as eleições mais imprevisíveis da história moderna do Brasil.

Bolsonaro parece ter atingido o teto, apesar de ter conseguido vencer as reservas de vários setores sociais, incluindo os meios empresariais.

O candidato nunca conseguiu chegar a 20% das intenções de voto, inclusive nos cenários sem Lula. Em simulações do segundo turno, o deputado seria derrotado pelos principais candidatos, segundo as pesquisas do Datafolha.

E embora este inimigo da imprensa tradicional e de suas supostas "fake news" assegure que não está preocupado, sem um vice-presidente de outro partido, teria somente 8 segundos em cada bloco de propaganda gratuita de rádio e televisão na campanha.

À espera de que se verifique a veracidade das pesquisas na prática, o "fenômeno" Bolsonaro mantém o Brasil em suspense, após a experiência de Donald Trump.

De fato, a figura do presidente americano "esteve" hoje no evento, já que um apoiador usando terno colocou uma máscara com seu rosto e passeou entre o público, que o aplaudiu.