Após debate, cenário ainda é de incertezas na eleição do Rio

Analistas divergem sobre desempenho de candidatos na noite de quinta-feira

No debate realizado na noite de quinta-feira (30), na TV Globo - último antes das eleições de domingo - as discussões acaloradas e os ataques acabaram ofuscando a apresentação de propostas. E estas, quando colocadas em pauta, pareciam contradizer a própria realidade do caixa da Prefeitura, apontada por estes mesmos candidatos como quebrada. Analistas ouvidos pelo Jornal do Brasil indicam cenários distintos após o embate, deixando ainda mais incerto o resultado das urnas neste domingo. Veja as considerações da professora de Estudos Políticos da Unirio Clarisse Gurgel, e o professor de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense Eurico Figueiredo.

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Qual sua opinião sobre o debate e qual candidato apresentou as propostas mais concretas e factíveis na atual conjuntura?

Eurico Figueiredo - Diferentemente do primeiro debate, os candidatos foram mais propositivos. Acho lamentável que aspectos pessoais e sensacionalistas envolvendo cada um tenham sido abordados. A população está mais interessada nas pessoas e suas propostas, e esses ataques são nefastos para a democracia. Todos foram bem, mas acho que o mais surpreendente foi o candidato Pedro Paulo. Havia um consenso entre os candidatos de atacá-lo, exceto o Marcelo Crivella. Dentre os candidatos, Crivella temia mais o Pedro Paulo. O candidato do PMDB se defendeu bem. Demonstrou conhecimento. Ele introduziu bem uma identidade com o povo, declarando suas origens humildes.

Clarisse Gurgel - Proposta concreta e factível depende da ousadia de cada um. Nesses termos, os melhores foram aqueles que romperam com a lógica de cidade turística implementado pelo PMDB. O Rio como um balneário, mas com valas negras e remoções disfarçadas de revitalização. O Rio com ausência completa de compromisso com os servidores. Os que romperam com essa lógica foram apenas dois: Marcelo Freixo e Jandira Feghali. Eles fizeram as propostas mais ousadas, o que não significa que não são propostas factíveis. Não foi de forma alguma o Pedro Paulo, ele não foi bem. E quem conseguiu identidade com o povo foi Marcelo Crivella.

Alguns candidatos que fizeram parte do atual governo, como Pedro Paulo e Carlos Osorio (ex-secretário de Transporte), fizeram propostas ousadas. Mas durante o debate, muitos afirmaram que o município está em dificuldade financeira. Alguns candidatos disseram inclusive que “a prefeitura está quebrada”. Qual sua opinião sobre isso?

EF - A situação no município é diferente do Estado. A cidade é rica.

CG - Essa história de a prefeitura estar quebrada é balela. A prefeitura não está falida. O orçamento do Rio, tanto no estado quanto no município, é um orçamento que, quando se põe necessário, está disponível para os megaeventos e para a Zona Portuária. Que história é essa de que não há dinheiro? Se você tem uma cidade transformada para o turismo e para o empresariado, como podemos dizer que não tem dinheiro para a merenda, para os professores? Como uma presidente é derrubada por pedaladas que é um hábito comum até entre banqueiros, enquanto o governador do estado não é derrubado por não pagar seus servidores?

Pedro Paulo e Freixo, ambos em segundo lugar, protagonizaram os embates, com trocas de acusações. Quem levou a melhor?

EF - Pedro Paulo. Com calma ele passou mais tranquilidade. O Freixo estava sério demais, estava tenso. O olhar dele em nenhum momento demonstrava simpatia, seu semblante estava muito fechado. O eleitor médio não quer ver isso. Talvez o eleitor de esquerda queira. Considerando todos esses aspectos, o Pedro Paulo foi melhor sucedido. Transmitiu tranquilidade, se defendeu quanto às questões pessoais e demonstrou conhecimento do cargo.

CG - Não tenho a menor dúvida de que foi o Freixo. Ele esteve muito bem no debate. Era um dos poucos que se dispuseram ao debate. Os candidatos estavam beirando uma postura cínica. Estão diante do candidato, fazem a pergunta sem olhar nos olhos. O “planeta de Pedro Paulo”, ao qual o Freixo se referiu, é lar de todos eles ali. Freixo esclareceu qualquer tentativa de provocação contra ele. Ele detinha muitas informações e tinha uma coragem que não é comum de se ver. Estava relaxado, o corpo dele falava. O Pedro Paulo ficou desnorteado. Às vezes gaguejou, e tentava fugir do tête-à-tête. Acho que ele pode ter perdido a escuta com a própria assessoria, principalmente quando começou a falar de questões de violência contra a mulher. Ele estava perdido.

O Crivella se demonstrou muito contido no debate? Acha que ele ousou pouco para manter a posição?

EF - Ele estava nervoso, não conseguiu passar a tranquilidade que passa nos programas políticos dele. Estava tenso e não foi capaz de responder o Pedro Paulo à altura, quando ele o perguntou sobre seu programa. Ele ficou acuado.

CG- Ele é um carismático. Inclusive, o Pedro Paulo erra quando o acusa de estar com o Garotinho, pois o ex-governador é popular. Crivella encarna o que é mais cru no populismo: o paternalismo. Ele se refere a Pedro Paulo como “meu garoto”. Crivella não se mostrou tão contido. Ele ousou até bastante para a posição dele. Quem não ousou foi a Jandira. No final do debate parecia cansada.

* do projeto de estágio do JB