Mais de 100 vezes: essa foi a diferença de atração que o mosquito Aedes aegypti mostrou entre a pessoa mais visada e as duas menos visadas num estudo da Universidade Rockefeller, de Nova York, publicado em outubro de 2022 na revista científica Cell. Os pesquisadores ligaram essa preferência a um detalhe químico da pele: quem atraía mais mosquitos tinha níveis bem mais altos de ácidos carboxílicos, grupo químico que inclui os ácidos graxos da pele. E a preferência se manteve estável ao longo de anos.
O mosquito comparou pedaços de meia de náilon usados no braço
O trabalho, liderado pela pesquisadora Maria Elena De Obaldia no laboratório de Leslie Vosshall, não usou picadas em pessoas. Os voluntários lavavam o antebraço com sabonete sem perfume e vestiam mangas feitas de meia de náilon, do pulso ao cotovelo, por 6 horas. O tecido absorvia o cheiro da pele e depois era colocado em um aparelho em que os mosquitos escolhiam entre dois pedaços, de duas pessoas diferentes.
Ao todo, 64 pessoas participaram: um grupo inicial de oito, testado repetidamente durante anos, e outras 56 recrutadas depois para confirmar o resultado. Segundo o artigo, a pessoa identificada como Sujeito 33 teve uma pontuação de atração quatro vezes maior que a da segunda colocada e mais de 100 vezes maior que a dos dois menos atraentes, os Sujeitos 19 e 28.

“This is something real. This is not splitting hairs. This is a huge effect”, disse De Obaldia ao serviço de notícias da Universidade Rockefeller, em 18 de outubro de 2022. Em tradução livre: “Isso é real. Não é detalhe. É um efeito enorme”. Ela também contou que alguns participantes ficaram anos no estudo e que a atração se mostrou uma característica muito estável de cada pessoa.
Os mais procurados tinham mais ácidos carboxílicos na pele
Com análise química das meias, a equipe procurou compostos com grupo ácido carboxílico. Treze sinais apareceram em maior quantidade nos voluntários mais atraentes, e três foram identificados com certeza: os ácidos pentadecanoico, heptadecanoico e nonadecanoico. A associação se repetiu no grupo de validação.
Esses ácidos estão ligados ao sebo, a camada oleosa produzida pelas glândulas da pele. O artigo lembra que cerca de 25% dos lipídios da superfície da pele humana são ácidos graxos livres e que bactérias da pele conseguem liberar esses ácidos a partir do sebo. Como a flora de bactérias de cada pessoa costuma ser estável, os autores consideram razoável que ela contribua para a composição de ácidos, mas isso não foi testado diretamente.
Um resumo publicado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), que financiaram a pesquisa, destaca que os níveis desses ácidos ficaram estáveis na pele por um ano ou mais, apesar das mudanças no ambiente. Nenhum composto apareceu de forma consistente nos menos atraentes, o que, para os autores, é compatível com a ideia de que essas pessoas têm menos atrativos, e não um repelente comum a todas.
Mesmo com o olfato alterado, o mosquito ainda reconhecia os preferidos
A equipe também testou mosquitos modificados geneticamente para não ter receptores importantes do olfato. Sem os correceptores chamados Ir8a, Ir25a ou Ir76b, ligados à detecção de ácidos, os insetos ficaram bem menos atraídos pelo cheiro humano em geral, mas continuaram preferindo as mesmas pessoas “ímã de mosquito”. Sem o correceptor Orco, a preferência também se manteve.
Para Vosshall, o resultado mostra que a fêmea do Aedes tem vários planos de reserva para encontrar quem picar. A importância disso está no comportamento do inseto: segundo o artigo, cada fêmea pica várias pessoas ao longo de 3 a 6 semanas de vida, e a espécie transmite febre amarela, dengue, chikungunya e zika.
O estudo mostra associação e não ensina a mudar o próprio cheiro
Os próprios autores apontam os limites. O trabalho encontrou uma associação entre ácidos carboxílicos e atração, mas não prova que esses ácidos sejam a causa. A análise olhou só esse grupo de compostos, e outras substâncias da pele podem pesar. Houve exceções: um voluntário pouco atraente tinha níveis altos de todos os ácidos medidos, e a mistura exata variava entre os mais procurados.
Também não há receita para deixar de ser “ímã”. Vosshall afirmou que hipóteses como mudar a flora da pele ainda são especulação e que não foram testadas. Sobre as explicações populares, como tipo sanguíneo, taxa de açúcar no sangue ou comer alho e banana, ela disse que há poucos dados confiáveis. Outra pergunta em aberto é se o efeito vale para outras espécies de mosquito: “I think it would be really, really cool to figure out if this is a universal effect” (em tradução livre, “seria muito legal descobrir se esse é um efeito universal”).
Repelente registrado continua sendo a proteção indicada
Enquanto a ciência não transforma a descoberta em produto, a orientação no Brasil segue a mesma para todos. O Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) orientam:
- Use produto registrado: repelente para a pele é cosmético e precisa de registro na Anvisa, que mantém consulta pública dos produtos regularizados;
- Aplique nas áreas expostas e siga o rótulo, inclusive sobre quando reaplicar;
- Cuidado com crianças: o DEET não é permitido em menores de 2 anos; de 2 a 12 anos, a concentração máxima é de 10%, com até três aplicações por dia;
- Desconfie do “natural”: segundo o Ministério da Saúde, velas, incensos e outros produtos à base de citronela, andiroba ou óleo de cravo não têm eficácia comprovada.
Para gestantes, o Ministério da Saúde cita a Anvisa: não há impedimento ao uso de repelentes registrados. Em caso de dúvida sobre qual produto usar em bebês, gestantes ou pessoas com alergia, vale buscar orientação de um profissional de saúde.
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Informações conferidas em 19 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



