A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como forte a recomendação de atividade física para adultos com cognição normal reduzirem o risco de declínio cognitivo, com base em evidência de qualidade moderada. A orientação está nas diretrizes “Risk reduction of cognitive decline and dementia”, divulgadas pela OMS na terça-feira, 14 de maio de 2019, e continua sendo a referência da entidade sobre o tema.
A mesma diretriz é mais cautelosa com quem já tem comprometimento cognitivo leve: nesse grupo, a atividade física aparece como recomendação condicional, sustentada por evidência de qualidade baixa.
A recomendação muda de força conforme o estado da memória
O resumo executivo da diretriz, disponível na biblioteca da National Library of Medicine dos Estados Unidos, separa dois públicos:
- Adultos com cognição normal: a atividade física “should be recommended” (deve ser recomendada) para reduzir o risco de declínio cognitivo. Qualidade da evidência: moderada. Força da recomendação: forte.
- Adultos com comprometimento cognitivo leve: a atividade física “may be recommended” (pode ser recomendada) com o mesmo objetivo. Qualidade da evidência: baixa. Força da recomendação: condicional.
Na prática, “forte” significa que os autores consideram que os benefícios superam claramente os riscos para a maioria das pessoas. “Condicional” indica que a decisão depende mais do caso individual e que novos estudos podem mudar a avaliação.
O texto fala em reduzir o risco, e não em evitar a doença. Nenhuma das recomendações garante que uma pessoa ativa não terá declínio cognitivo ou demência.
A diretriz avaliou outros fatores, e nem todos passaram no teste
Além do exercício, a OMS analisou uma série de intervenções. As classificações publicadas no resumo executivo são estas:

- Parar de fumar: intervenções devem ser oferecidas a adultos que usam tabaco (evidência baixa, recomendação forte).
- Dieta de tipo mediterrâneo: pode ser recomendada a adultos com cognição normal ou comprometimento leve (evidência moderada, recomendação condicional).
- Alimentação saudável e equilibrada: deve ser recomendada a todos os adultos, segundo as orientações de dieta da OMS (evidência de baixa a alta, recomendação condicional).
- Vitaminas B e E, ácidos graxos poli-insaturados e suplementos multicomplexos: não devem ser recomendados para reduzir o risco de declínio cognitivo ou demência (evidência moderada, recomendação forte).
- Álcool: intervenções para reduzir ou interromper o consumo perigoso e nocivo devem ser oferecidas (evidência moderada, recomendação condicional).
- Treino cognitivo: pode ser oferecido a idosos com cognição normal ou comprometimento leve (evidência de muito baixa a baixa, recomendação condicional).
- Peso: intervenções para sobrepeso ou obesidade na meia-idade podem ser oferecidas (evidência de baixa a moderada, recomendação condicional).
- Pressão alta: o controle deve ser oferecido a adultos com hipertensão, conforme as diretrizes da OMS (evidência de baixa a alta, recomendação forte).
- Diabetes: o controle, com remédios ou mudanças de estilo de vida, deve ser oferecido a adultos com a doença (evidência de muito baixa a moderada, recomendação forte).
- Colesterol e gorduras no sangue: o controle da dislipidemia na meia-idade pode ser oferecido (evidência baixa, recomendação condicional).
Em três pontos a OMS concluiu que a evidência é insuficiente: atividade social, uso de antidepressivos e uso de aparelhos auditivos com o objetivo específico de reduzir o risco de declínio cognitivo. Isso não quer dizer que esses cuidados sejam inúteis para outras finalidades; depressão e perda auditiva continuam tendo tratamento indicado pelas diretrizes próprias de cada condição.
O que o coração e o cérebro têm em comum, segundo a OMS
No comunicado de lançamento, a OMS informou que cerca de 50 milhões de pessoas viviam com demência no mundo e que surgiam quase 10 milhões de casos novos por ano. O diretor-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou na ocasião que o número de pessoas com demência deve triplicar em 30 anos e resumiu a conclusão dos estudos reunidos: o que faz bem ao coração também faz bem ao cérebro.
A lista de recomendações reflete essa ideia. Exercício, controle da pressão, do diabetes e do peso, menos álcool e nada de cigarro são as mesmas medidas que a entidade já recomenda para reduzir o risco de doenças cardiovasculares.
A meta de exercício da OMS é de 150 a 300 minutos por semana
A diretriz de 2019 não fixa uma quantidade de exercício específica para a memória. A referência de volume vem das diretrizes da OMS sobre atividade física e comportamento sedentário, lançadas na quarta-feira, 25 de novembro de 2020. Para adultos de 18 a 64 anos, elas recomendam:
- de 150 a 300 minutos por semana de atividade aeróbica moderada, ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, ou uma combinação das duas;
- fortalecimento muscular de intensidade moderada ou maior, envolvendo os principais grupos musculares, em 2 ou mais dias por semana;
- menos tempo sentado, trocando esse tempo por atividade de qualquer intensidade, inclusive leve.
Para quem tem 65 anos ou mais, valem as mesmas metas, com um acréscimo: atividade física variada, que priorize equilíbrio funcional e treino de força, em 3 ou mais dias por semana. No anúncio das diretrizes de 2020, a OMS citou a redução do declínio cognitivo e a melhora da memória entre os benefícios da atividade regular.
Como começar sem exagerar
A própria OMS reforçou em 2020 que qualquer tipo e duração de atividade física pode melhorar a saúde. Para quem está parado, o caminho costuma ser aumentar aos poucos: caminhadas curtas, subir escadas, pausas para levantar durante o dia de trabalho. Quem tem doença crônica, dor nas articulações, problema cardíaco ou já percebe falhas de memória deve ajustar o tipo e a intensidade do exercício com acompanhamento.
Esquecimentos frequentes que atrapalham a rotina merecem avaliação, e não apenas mais exercício. Antes de mudar a rotina de atividades ou de investigar queixas de memória, procure um médico ou outro profissional de saúde para receber orientação individual.
Informações conferidas em 2 de outubro de 2026 nas fontes citadas.

