Uma eleição diferente

Não haverá de se queixar quem se der ao trabalho de colecionar peculiaridades em eleições brasileiras, porque a deste ano, já agora marcando os primeiros passos com as convenções que se processarão nas duas próximas semanas, é farta de situações incomuns, o que vai contribuindo, não em poucas doses, para confundir os cidadãos. Portanto, em se tratando do histórico das urnas, pode-se admitir que estamos em meado de um ano insólito, sem que faltem elementos para análises e reflexões num futuro próximo. Este 2018 certamente deixará ricos temas para conclusões sociais e estudos políticos, pleno de fatos pouco comuns. 

A primeira novidade é que, pela primeira vez, os brasileiros vão às urnas com um ex-presidente preso, o seu principal líder popular; exatamente quem, meses atrás, era dado como candidato natural a um novo mandato. Pode ser que, mesmo estando trancafiado, exerça influência, com prestígio potencial que pode credenciá-lo a influir no destino dos votos. Mas o painel de estranhezas se amplia, quando se dá fato inédito: ausente o candidato do PT, quem passa a liderar em todas as pesquisas, e que devia estar às voltas com o assédio dos pretendentes a vice, já fez convite a três, amargando igual número de recusas. Algo sem precedentes. Talvez por ser uma personalidade antípoda. 

Este é ano também diferente por assinalar um quadro de insegurança dos eleitores quanto aos melhores caminhos que possam levar à solução dos impasses nacionais. Qual o nosso projeto nacional? Quem o assina? E aqui há que se considerar o papel improdutivo dos partidos políticos, que nada ensinaram, nada orientaram. Solene omissão, certamente dividida com a classe política, de modo geral, que se desorientou frente à realidade nacional. Desinteressaram-se e deixaram de lado ideias que pudessem contribuir para a minimização de velhas dificuldades que, como sempre acontece, sangram as classes mais pobres da população. Houvesse um projeto factível, pelo menos discutível, talvez o eleitorado se revelasse mais animado. A bem dizer, o eleitor brasileiro está sem assunto.

Para alimentar mais ainda os temores, na hora em que o país será chamado a definir novos rumos, concorreria, igualmente, algo que também cabe na lista das novidades, surpreendendo o cidadão: o entrechoque provocado pela judicialização da política, paralelamente à politização da Justiça. Predomina um indesejável conflito na interpretação da lei. Oportuno, então, indagar: como fica o eleitor quando vê que à interdependência dos poderes sucedem muitas dúvidas e desarmonias? Confirma isso a prisão do ex-presidente, enquanto se aguarda, há meses, na Corte Maior, se ela podia ser decretada em segunda instância ou se devia esperar o terceiro e derradeiro estágio recursal. 

Coroando a série de constrangedoras situações que esperam a chegada das eleições, sobrenada o espectro do não-voto, essa preocupante soma dos votos nulos, dos brancos e a abstenção. Avaliações cuidadosas advertem que, não ocorrendo fenômeno que autorize a reversão, os futuros mandatos terão, para ampliar suas dificuldades, um sinal de inautenticidade, considerando-se que uma terça parte dos colégios votantes preferiu não tomar partido, ou, no dizer dos mais descontentes, não transformar seu voto em um aval comprometedor. Tudo, portanto, se ajustando como peças perigosas de uma engrenagem perturbadora. O que neste momento não é permitido prever, muito menos saber, é o preço da fatura que seremos chamados a pagar.