O Brasil no acostamento

Como dizia a antiga sabedoria popular, de tudo é possível tirar alguma lição; realmente de tudo, pois até um coração empedernido serve para ensinar o que é mau. As crises – essas velhas serviçais da História – também haveriam de continuar revelando alguma utilidade. Está o Brasil agora em palpos de aranha, debatendo-se com uma das mais sérias crises desde o advento da V República; desabastecido; imobilizado por falta de combustíveis; desorientado, sem saber exatamente onde estão as soluções adequadas; desanimado, por tudo e por todos. O país já não pode andar, estacionado no acostamento do progresso. O que haveremos de aprender com tudo isso? 

Conhecidas as dificuldades que elas geram, é preciso saber exercitá-las, para que não nos vejamos sob o risco de assistir ao naufrágio da paz no seio das famílias brasileiras. Questão que de imediato se revela é uma coisa que não temos: estratégia de abastecimento, desafio que grandes países souberam vencer, escaldados pela mais dolorosa das lições, a guerra. Não temos postos para armazenamento capazes de servir à população, não apenas para enfrentar criminosos locautes de empresários ou greves de trabalhadores, mas até nos casos de desastres climáticos e ambientais. 

Porque, quando chega o imprevisto, as riquezas ficam no meio do caminho. Como hoje. Não há como compreender, por exemplo, que os nordestinos sejam forçados à dieta sem o arroz gaúcho, estacionado e distante, num país de dimensões continentais como o nosso. Há que se precaver para os desafios, entre os quais, e em primeiro lugar, o abastecimento de gêneros perecíveis de primeira necessidade e os insumos indispensáveis. 

Outra coisa para os governos aprenderem é que uma estatal, como a Petrobras, e principalmente ela, com atividades vitais em todo o organismo social, não pode cuidar, como primeira ou única preocupação, de abarrotar seus cofres com dólares, à custa de quem transporta e consome seus produtos. Nesse particular, o presidente Temer compraz-se em seguir pegadas de seus antecessores, contemplando a estatal num relicário, intocável, gestora insensível com os interesses do povo, depois de longo período de tolerância com os ladrões que a assaltaram. Nestes dias, o governo está aprendendo (pelo menos, é o que se deseja) que uma estatal não pode ser apenas do Estado; também tem de ser da Nação. 

Não menos importante – eis outro ângulo das lições do momento - é que a população vem experimentando, ainda que em modestíssima proporção, o que poderia ser a economia chamada “de guerra”, quando se desse um verdadeiro racionamento, que andamos conhecendo, levemente, nas aventuras de alguns planos econômicos. Pois as restrições daqueles tempos serviram também para mostrar, em pequenas doses, o que as donas de casa experimentavam ontem em muitos supermercados: tinham dinheiro para comprar, mas não havia tudo o que desejavam comprar. 

Temos de nos educar para as eventualidades, com melhor grau de previsibilidade. A escassez tem seu tempo para lecionar, e faz isto agora, sinalizando que o esbanjamento é desaconselhável. Malgastar é a imprudência que se pratica, tanto nos alimentos desservidos, como carnes churrasqueadas, que vão para o lixo de um país de milhões de famintos. Ou, ainda, o que se consome em demorados passeios de carro, já su?cientemente demonstrado que um terço das gasolinas se queima nas irrelevâncias. 

Não sabemos como imaginar o sofrimento causado pelo combustível racionado; mas testemunharão muitos, que ainda vivem do tempo da Segunda Guerra Mundial. Os carros não tinham gasolina, os motores silenciaram, a mesa era obrigada a adotar as broas, porque, sem o trigo parado na estradas e nos navios, não havia pão. Se as limitações, bem menores naqueles idos, se repetissem, estaríamos perdidos, pois as necessidades tornaram-se muito maiores. 

Aprendamos as lições. Com uma dose de humildade de quem tem muito o que aprender.