Nação apática

Observação, no mínimo instigante, tem sido revelada por deputados já engajados na garimpagem dos votos de outubro. Nas andanças que praticam pelo interior, o que têm visto não é, propriamente, antes de tudo, ser a favor ou contra o governo. Como também menosprezam-se conceitos de esquerda e direita. O que se percebe, de acordo com os que testemunham, é certa tendência a encarar a próxima eleição com espírito de profunda apatia; gente que chega à triste conclusão de que nada vale a pena; que os políticos se igualam no mesmo baixo nível de escassez de competência ou fartura de imoralidade. Portanto, tanto faz, como tanto se fará, votando-se em qualquer um. 

A se confirmar semelhante situação, as coisas andarão piores, muito além da imaginação dos pessimistas. O cidadão apático é capaz de conduzir malefícios superiores àquele que se vai praticar com um voto inconsciente. Outra conclusão lamentável é que esse quadro de desânimo significa que o brasileiro manda, para o mesmo cadafalso, sem distinção e injustamente, os bons e os maus; e nisso acaba enforcando a própria política, a instituição sagrada, vítima dos que dela se aproveitam para praticar crimes. Nivelar bons e maus políticos, como se nada os  diferenciasse, é péssimo; a começar pelo fato de os bons se envergonharem da comparação e se ausentam. Recolhem-se, sob os aplausos dos maus, que calçam a cara e vão em frente; na verdade, os  indesejáveis acabam contemplados e favorecidos, pois já não têm gente séria a enfrentar. 

Isso posto, há que se considerar que, à frente dos desafios que nos reserva a campanha eleitoral, segue, como bandeira descorada e sinistra, essa apatia endêmica. Haverá tempo para abatê-la, impedindo que influencie e comprometa a eleição? Teriam os candidatos fôlego e disposição para sacudir o que resta de ânimo na alma da sociedade brasileira?  Está longe de ser fácil a tarefa a enfrentar, se, no descortinar dos fatos de agora, o que se vê são tropeços, crises dentro e fora do governo. 

O estado de desânimo, a bem da verdade, não é de hoje; vem prosperando há algum tempo, principalmente quando ganharam publicidade os ensaios de analistas que se debruçavam sobre consultas à opinião pública, que pretenderam aferir o grau de confiabilidade das instituições. Ocorreu há menos de duas décadas: observou-se que a quebra de credibilidade, consequentemente, da admiração e do respeito, acabaria por conduzir, em futuro não muito distante, a um quadro coletivo de esmaecimento e indiferença em relação a elas e aos que as dirigem. Não seria mera coincidência se comparadas antigas previsões com a realidade que se projeta sobre nossos dias. 

Naquele passado a que se referem essas linhas, o respeito e a admiração populares contemplavam, entre os primeiros, a Igreja, o Exército e a Justiça. Corroeram-se, em parte, os números simpáticos à religião, que paga pelas indefinições e pelos pecados de uma minoria  praticante de abusos sexuais, além da hipertrofia que sofreu, resultando na migração que levou milhões a seitas exóticas. Dos ombros dos militares ainda não foi possível remover o ônus do fatídico 64.

A Justiça consta como o mais recente prestígio a capitular, por conviver com o elitismo que tolera os poderosos, eterniza recursos protelatórios e festeja caríssimos causídicos, absolutamente inacessíveis aos não milionários. Nos tribunais nem falta o cenário de pugilatos verbais, quando esquentam as divergências. 

Pergunta-se, então, ao fim e ao cabo, o que dizer ao eleitor para automedicar-se contra o mal-estar da apatia. Outro remédio inexiste, a não ser aplicar, quando chegar a hora, o voto rigorosamente consciente. Pode ser até que depois sobrevenha a decepção, mas, antes, convém saber que, se o Estado está enfermo, quem pode curá-lo é a nação. Ninguém mais.