Adeus às armas?

O movimento de jovens e entidades de origens diversas, que nos Estados Unidos declararam guerra frontal às armas e à sua utilização banalizada, traz, como primeiro desafio, um sensível constrangimento ao governo Trump, que, sabidamente, deve sólidas simpatias à indústria do desarmamento, tal como a totalidade dos presidentes que o antecederam na Casa Branca. Se não se omitir, posicionando-se, seguramente vai ser exigido dele especial tato na condução do problema; tato que parece não ser uma de suas habilidades políticas. 

Paralelamente, quando os americanos e a opinião pública mundial condenam a facilidade na compra de armas de fogo, num mercado que anualmente opera 1,5 milhão de novos fuzis, o governo é chamado a considerar o risco de, em passo seguinte, as ações pacifistas afetarem o poderoso modelo bélico, que não apenas gera fabulosas somas de dólares, como também é instrumento com que Washington faz valer suas influências nos quatro cantos do mundo. Se os jovens que hoje  estão nas ruas passarem a exigir revisão do processo intervencionista e o fim da participação americana em todos os conflitos, os problemas do presidente poderiam assumir nível delicadíssimo.

As armas, em mãos de criminosos ou de um desses jovens psicopatas, que saem matando nas escolas e nos clubes, tornaram-se questão nevrálgica para a sociedade americana, posto que há uma legislação a admitir a liberdade absoluta na posse delas, para serem empregadas na defesa pessoal ou no extermínio de inocentes. 

Mas, no Brasil, o que temos  a ver com isso? Um detalhe que logo salta aos olhos é que, lá, as armas de fogo são produto exposto nas vitrines, sob total proteção da lei; aqui, elas só chegam quando as lojas estão fechadas, nos desvãos das madrugadas facilitadoras do tráfico. Clandestinas, mesmo sob o auxílio de alguns policiais corruptos, via estradas, portos ou aeroportos. Se, para o americano, o porte é patrocinado pela legalidade permissiva, no caso brasileiro o desafio está na ilegalidade, de difícil controle, sem embargo de todas as evidências projetadas na violência urbana.

As medidas restritivas, que no Brasil se revelam muito mais acentuadas, podem ter méritos, mas também ampliam a insegurança da população desarmada. Evitar os inconvenientes decorrentes disso só se o legislador conseguisse, num delírio, a adesão dos bandidos... Mas, para esses, o compromisso é violar a lei, não cumpri-la. A vítima, querendo, tem de recorrer à polícia e à Justiça, em  cujas portas o crime organizado não tem nenhum desejo de bater. 

Querem propor alguns que, a exemplo do que se adota em outros países, o cidadão, comprovadamente de bem, tenha direito de armar-se, como forma de escapar do crime, o que, lamentavelmente, não concorre para desestimular os assassinos, sejam eles profissionais ou eventuais. Os dois polos armados não levam, como em geral se vê, a um resultado tranquilizador, porque as sociedades humanas cresceram,  aperfeiçoaram-se, repudiam a herança da Idade Média, quando o cotidiano das pessoas era a contra-violência. O mundo progrediu, evoluindo para a antiviolência e sob tal visão, não há como aceitar a arma. 

O resto do mundo acompanha, com interesse voltado para algo aparentemente insolúvel: o caminho que os governantes de Washington terão de trilhar para o presente caso. Acatar a manifestação de uma juventude desanimada com a violência, ou fazer vistas grossas para o problema, que vai dominando o sentimento nacional? Seja como for, tamanhas as diferenças, é certo que pouco ou nada teremos a aprender com eles neste lado de baixo do Equador.