Desa?o líquido e certo

Os bens da fartura, praticada inconscientemente, como ensinam as velhas lições bíblicas, costumam ser a véspera da escassez. Talvez se ajustem a isso os perigosos descuidos que as políticas públicas têm emprestado aos recursos hídricos, o que é conveniente lembrar justamente no Dia da Água. Há muito que governantes e governados se comprazem em ver pela TV a imensidão de um Amazonas, o jorrar incansável de Iguaçu, ou se encantam com o mar da Guanabara e imaginam que água é um préstimo da natureza que jamais faltará, por mais que se acumulem as irresponsabilidades. Nesse particular, a prudência dos povos indígenas tem algo a nos ensinar, porque sua água, quase sempre dada pelo pequeno rio que banha a aldeia, é tratada com amor e parcimônia. 

O perigo está exatamente em achar que nos basta o imenso volume para garantir o consumo diário, quando tão ou mais importante é praticar a racionalidade e a temperança, como forma de orientar o tratamento dessa grande riqueza. 

Em relação ao Brasil, além de lhe caber significativa cota na política internacional das águas, temos a considerar informação relevante que nos dá o diretor-presidente da Associação Pós-Gestão das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Agevap), André Luís de Paula Marques: na distribuição dos recursos hídricos, 70% ficam na Região Norte, onde estão 5% da população, enquanto os 30% restantes abastecem aproximadamente 95% dos brasileiros.  É uma desigualdade a mais, entre as muitas que temos, a  desafiar o exercício da criatividade dos governos. A essa diferença, diz ele, é preciso acrescentar que “historicamente, no Brasil, a gestão dos recursos hídricos esteve voltada para a geração de energia elétrica e, secundariamente, para a irrigação”. Para acentuar a preocupação: o abastecimento de água e esgotamento sanitário não eram e não são tidos como prioritários. 

Costuma-se creditar ao céu e às nuvens a culpa, quando a seca aperta e os reservatórios descem a baixos níveis. Ocorre que uma boa parte das consequências indesejáveis seria minorada com planejamentos adequados. Culpa maior será dos investimentos no setor não cumpridos. 

Os problemas brasileiros nesse campo acumulam-se há décadas, graças à mentalidade cristalizada no íntimo da sociedade e de seus representantes de que a água, exatamente por parecer farta, não precisa ser objeto de maiores preocupações das políticas públicas. Desnecessário lembrar que o descaso que prosperou na inépcia e na ignorância já tem produzido efeitos desagradáveis, e devem prosperar mais, à medida em que não se tome a decisão de dar o primeiro passo no sentido de inscrever os recursos hídricos entre prioridades intransferíveis dos governantes. Pergunta-se: como? 

A resposta está na síntese elaborada pelo diretor-presidente da Agevap, ao projetar para os estados e municípios um programa de ações que, começando agora, se estenderia pelos próximos 30 anos: 1- ampliação e implementação da coleta e tratamento de esgotos, que tenha como meta o atendimento de, no mínimo, 80% da população; 2- encerramento e remediação de 100% dos lixões; 3- redução ao nível de 25% de perdas nos sistemas de abastecimento público; 4- implantação de um programa de educação ambiental e sensibilização da população e dos setores usuários em 100% dos municípios abrangidos pela bacia para o uso racional da água.  

Ainda como parte dessas iniciativas, André Luís sugere proteção e recuperação de matas ciliares, nascente e mananciais, construção de represas e reservatórios em locais estratégicos e monitoramento da qualidade das águas. 

Pode ser muito o que fazer, mesmo com uma projeção de três décadas a cumprir. Mas importante é começar, e começar logo. A milenar sabedoria chinesa ensina que as longas caminhadas começam exatamente com um pequeno passo