Fartura de candidatos

Há quem seja capaz de espantar-se, ao saber que pode chegar a treze o número de candidatos à presidência da República, com o risco de a lista se ampliar ainda mais, na onda das aventuras partidárias que ocorrerão. A preocupação faz sentido, até certo ponto, considerando-se que a fase pré-convencional é mesmo assim, capaz de assanhar postulações sem suficiente fôlego para se manterem. À dispneia inevitável estão condenados muitos sonhadores, que logo sairão de cena; ou, se persistirem, é porque a nada mais aspiram além de marcar posições, cacifando-se (como é usual no jargão político) para composições de consolo. Os inviáveis jamais acabam totalmente ao relento. 

Fora disso, o festival de candidatos tende, portanto, a encolher-se. 

Uma eleição instruída com as características de um presidencialismo permissivo e assistencialista, como o nosso, facilmente pode balançar o ego de aventureiros, que, cavalgando momentânea coragem, lançam-se, na tentativa de ocupar os espaços, por mais limitados que eles sejam. 

Exemplo maior tivemos em 1989. Recém-liberada da ditadura e já em curso a retomada das franquias democráticas, a classe política e os partidos correram, sedentos, às urnas para a luta presidencialista, nem todos preocupados com o vexame da escassez de votos que os aguardava. Naquele ano, foram 22 candidatos, o que constituiu recorde republicano, com votações que confirmaram, com nitidez, uma corrida sem convicções e nada além de obter um lugar à sombra da simpatia do eleitor no novo tempo da democracia em fase de reconstrução. Sem maiores lamúrias, pois aos concorrentes, em sua larga maioria, não preocupava o distante e modesto desempenho. Foram 2,2 milhões de votos separando Fernando Collor do último colocado, Armando Corrêa da Silva, que logrou 4,3 mil. 

É fato também que só especialistas alimentam a expectativa de desistências, antes dos atropelos da campanha que os candidatos terão de empreender. Mas, ainda que sobrevivessem a todas essas aventuras, ensejando perigosa pulverização do poder do voto, num passo seguinte a unidade e a governabilidade futuras estariam salvas, graças ao consagrado e irremovível instituto do segundo turno; esse filtro benéfico a que apenas dois se submetem, para a disputa final, sujeitos ao voto racional, cuja principal virtude está em dar ao eleito a legitimidade da maioria. 

Afasta-se o perigo de à primeira magistratura ascender um minoritário, com 25 ou 30 por cento, o que seria receita certa para a ingovernabilidade. Razão tinha De Gaulle, que inventou o sistema de duas rodadas. Dizia que no primeiro turno os franceses votavam com o coração; no segundo, com a razão. 

A experiência brasileira nesse campo enriqueceu-se, a despeito de as composições que se seguiam à primeira votação adotassem acertos nem sempre recomendáveis pelos padrões da ética e da moral. Mas as virtudes, em maior volume, passadas duas décadas, sobreviveram. Uma delas estava inscrita neste JB pelo notável Villas-Boas Corrêa, que viu no segundo turno algo capaz de arrumar a casa, “evitando a eleição de candidato carregado numa onda emocional ou na crista da vaga de popularidade súbita”. Disse-o e nada mais foi preciso dizer.