Partidos, eis a ?cção

Com a campanha eleitoral já batendo à porta, a primeira expectativa, inevitável, está no perfil dos candidatos, mesmo que entre os prováveis predominem escassas novidades e raras ameaças de renovação nos quadros cansados e ociosos. Em seguida, com algum esforço, é esperar para ver o que os partidos têm a dizer sobre o momento nacional, o que seriam capazes de oferecer como propostas concretas para corrigir os problemas que hoje afligem a sociedade, longe de meros falatórios. 

Não há milagres e ninguém acredita mais na mágica dos coelhos que saem de cartolas. Contudo, não é de se esperar, além do que eles podem, pois no largo painel em que se situam pouco se cuidou de construir ideias e elaborar projetos.

 Essas organizações, sobrenadando na maré alta de letrinhas emboladas, já nada significam; e pouco teriam a dizer, porque os programas a que se propuseram, jamais cobrados pela Justiça Eleitoral, estavam condenados ao esquecimento desde a formalidade de um mero registro nos tribunais. Quando são acusados desse desleixo, os dirigentes correm a dizer que não é bem assim; mas é exatamente assim que acontece.      

Aberta nova campanha na vida política nacional, confiada à tutela de dúzia e meia dessas instituições tornadas ficções, cada qual com seu estatuto carente de mínima autenticidade, vê-se que conservam um raquitismo que as impede até de reter os militantes, a começar por detentores de mandatos, o que explica a intensa revoada dos políticos que agora saem em voos de interesses circunstanciais, buscando novos ninhos para se apresentarem ao eleitorado.

O que leva o brasileiro a assistir, uma vez mais, ao enredo bizarro: trabalhistas mergulhando na seara dos conservadores; estes abandonando velhas casas para se “tucanizarem”, sem se vexarem com o neologismo; sociais-democratas avançando sobre hostes centristas; e estas, tendo de purgar debandadas, nem deixam de contribuir para enriquecer fileiras de comunistas saudosos e socialistas esperançosos. Há casos em que os saltos acrobáticos de deputados e senadores dispensam um mínimo de pudor.   

A bagunça generalizada certamente contribui, cada vez mais, para aprofundar o desencanto do eleitorado em relação à política; desânimo já nítido em relação aos que irão à televisão pedir o voto generoso. Nada mais que pessoas e personalismos, porque seus partidos não atraem, não justificam a existência. Como ursos polares, hibernam, para só sair das tocas ao alvorecer de campanhas eleitorais. Nem servem para momentos mais sensíveis do Congresso, porque nesse caso o que verdadeiramente dita as condutas são os chefes de grupos. 

Os caciques, eles sim, funcionam com precisão; sem surpresa, porque as legendas tornaram-se, de há muito, objetivamente, organizações oligárquicas fechadas. Fechadíssimas. Um grande mal, que, século passado, já havia sido condenado com vigor por Julien Bastide, ao concluir que, se religião aberta é partido, partido fechado é religião. Nenhum dos dois pode ter futuro, a não ser ao arrepio da legitimidade e do sacrifício de primados que inspiram a democracia representativa.  

Nesta semana, como homenagem ao ministro Celso de Mello, a OAB publicou, em livro, uma coletânea de ensaios sobre reforma política, cabendo ao conselheiro decano da Ordem, professor Paulo Roberto de Gouvêa Medina, uma reflexão sobre a história dos partidos políticos, sua passagem pela História, experiências, êxitos e desafios. 

Um belo trabalho, do qual é possível extrair observação judiciosa sobre a realidade partidária de nossos dias. Ensina o professor que, partindo da Constituição de 88, ”o quadro político-partidário revela, na sua complexidade, indisfarçável artificialismo”.  A vida ativa dos partidos “é sazonal ou adstrita à ocasião dos pleitos”. 

O autor, como todo brasileiro de bem, guarda a esperança de uma reforma capaz de fazer renascer os tempos em que se professava o credo político, como se via entre militantes dos velhos partidos, como PSD, UDN e PTB, que já não existem.