Na guerra comercial, China é mais frágil

O Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco (DEPEC) divulgou uma análise sobre a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, desencadeada pelas medidas protecionistas de Donald Trump, todas rapidamente retaliadas pelo governo chinês. Caso as medidas continuem no ritmo atual, o banco estima uma perda de até 0,4 pontos percentuais no crescimento do PIB mundial. Além disso, a instituição afirma que “a China parece mais dependente dos EUA que o contrário”, ainda que a parcela chinesa em alguns grupos da pauta americana chegue a quase 60% e os valores das importações americanas na relação bilateral sejam muito maiores. Os americanos importam US$ 523 bilhões  por ano da China, enquanto as compras chinesas nos EUA estão orçadas em US$ 162 bilhões. 

Isso se deve ao fato da pauta chinesa, concentrada em veículos, aviões e soja, ser mais difícil de ser substituída. De fato, 27,6% dos aviões, carros, ônibus e caminhões importados pela China são americanos. Essa porcentagem só se equipara à registrada para o grupo produtos vegetais (27,4%), o terceiro mais importado pelo país de Xi Jinping. Aí se destacam o milho e, sobretudo, a soja. 

Do lado americano, equipamentos de telecomunicação lideram a lista das importações vindas da China: 57,5% do que os americanos compram nesse segmento vêm daquele país. Em seguida, vêm Máquinas e equipamentos de processamento de dados, cuja participação chinesa é ainda maior, 58,6%; produtos manufaturados vêm em terceiro lugar (46,2%), sendo o último em que os chineses controlam cerca da metade do total importado. Se  a demanda sobreviver ao choque, a consequência é um aumento da participação do conteúdo nacional no consumo norte-americano. 

Do ponto de vista das vendas, segundo o Bradesco, os EUA exportam muitas commodities cujo consumo pode ser parcialmente compensado por outros mercados, como o Brasil na soja. Além disso, o espaço para as retaliações chinesas via aumento de tarifas é menor do que o americano. É que o montante importado dos EUA é inferior aos US$ 250 bilhões que Trump já sobretaxou. Até agora foram três grandes movimentos de Washington: US$ 34 bilhões e US$ 16 bilhões com tarifa adicional de 25% e US$ 200 bilhões anunciados com sobretaxa de 10%.

O relatório do Bradesco faz uma recapitulação dos fatos. Primeiro observa que os movimentos começaram unilateralmente por parte dos EUA e têm avançado especialmente no caso chinês já que o país foi impactado por quase todas as medidas do governo Trump, inicialmente focadas na proteção do mercado de artigos como máquinas de lavar roupa, painéis solares e aço/ alumínio, estratégicos para os chineses. 

O documento também afirma que a escalada de tensões ultrapassa o desequilíbrio comercial, sempre alegado pelo governo americano. O déficit ianque vem crescendo nos últimos anos. Em 12 meses, chegou a US$ 389 bilhões com a China. 

Os americanos têm superávit em serviços, uma das áreas protegidas pela Organização Mundial do Comércio, que Trump considera pequena para o tamanho do contencioso. “Em 12 meses, esse montante chegou a US$ 38 bilhões, puxado principalmente pelas contas de turismo, serviços financeiros e direitos de propriedade intelectual. Além disso, existe um desencontro com relação aos principais investimentos de um país no outro. Nos EUA, os chineses têm presença significativa nos segmentos tecnológicos (29%), imobiliário (13%), financeiro (11%). Com alto valor agregado, esses investimentos são bem menores em sentido contrário. No grupo de eletrônicos a participação americana na China é de apenas 8%, só 5%, em bancos e 3% no setor financeiro. Independente do volume, por ora, a China, que tem as maiores reservas cambiais do mundo é mais vulnerável nesta guerra.