Para presidente da AEB, Brasil tem muito a perder na guerra comercial de Trump

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, observa com “extrema preocupação” a guerra comercial entre Estados Unidos e China. Com quatro décadas de experiência no comércio exterior, usa uma expressão mineira para definir o quadro de incerteza no horizonte: “A situação está de vaca desconhecer bezerro”. Para ele, “foram dados os primeiros lances no xadrez do mercado mundial”. A Rússia, embora pequena no comércio mundial, já se posicionou ao lado da China, e a União Europeia, dependente do gás russo, e que sofreu muito com a guerra comercial que precedeu a 2ª Guerra Mundial, está ansiosa por “uma solução que breque os Estados Unidos de Donald Trump”. 

Em entrevista ao JORNAL DO BRASIL, ele vê com muita apreensão os efeitos sobre as exportações brasileiras da queda do ritmo de trocas entre as nações de maior mercado, a partir da imposições de barreiras tarifárias pelo presidente Trump. “O comércio exterior precisa de liberdade, para ser um jogo de ganha-ganha; quando se erguem barreiras intransponíveis, vira um jogo de perde-perde”. A AEB vai rever as projeções de exportações de 2018, no próximo dia 17. Mas José Augusto de Castro considera que o Brasil, com apenas 1,2% das exportações mundiais, pode ser muito prejudicado quando gigantes em conflito protegem suas alfândegas. As exportações em produtos básicos (commodities agrícolas e minerais) são suscetíveis à manipulação de preços nos mercados do Primeiro Mundo. Já os manufaturados vão se retrair com a crise da Argentina, que importa 25% dos manufaturados.  Nesse contexto, ele considera o acordo Boeing-Embraer uma ótima notícia, pois “resguarda a capacidade futura de exportação da única empresa brasileira na cadeia global de valor agregado”.

Como o senhor está vendo a guerra comercial entre Estados Unidos e China? Já há re?exos para as exportações brasileiras? 

Guerra comercial com imposição livres de barreiras tarifárias é o pior cenário possível para o comércio internacional numa economia mundial tão globalizada. As cadeias integradas de produção global ficam em risco, o que atinge em cheio os setores mais dinâmicos da economia mundial, ou seja, a produção de manufaturados de alta tecnologia, como automóveis, máquinas e materiais de transporte e eletroeletrônicos. Para o Brasil que é um mero coadjuvante nessa guerra guerra de gigantes, é um problema. Assistimos tudo, sem voz ativa, nem passiva. Aliás, nesse teatro de guerra, nem temos voz.

Sexta-feira a Rússia tomou partido ao lado da China, o senhor vê aí uma guerra ideológica? 

O comércio não pode ser regido por ideologias. Mas a decisão da Rússia de sobretaxar manufaturados, eletroeletrônicos e telecomunicações americanos é um lance de Putin nesse jogo de xadrez. Ele quer se posicionar e ganhar apoio da União Europeia, sobretudo dos países que dependem do gás natural russo. 

Há outros grandes atores que ainda não mostraram ao que vieram, como Japão e União Europeia? 

A Europa espera que Trump diminua seu ímpeto. No início desta guerra, havia expectativa de posicionamento mais forte dos chineses. Mas os chineses estão testando o terreno. Impuseram sexta-feira sobretaxa de 21 centavos de dólar à soja dos Estados Unidos, mas avisaram que vão manter algumas encomendas para 2019. Para o Brasil, o mercado de commodities é um mercado livre e solto, para os importadores do Primeiro Mundo, porque são eles que determinam as cotações das mercadorias nos mercados futuros e até o câmbio, como ficou provado nas manipulações de bancos internacionais [o suíço UBS confesssou manipulação às autoridades americanas em 2015]. No caso do minério de ferro, a China manipula o mercado.

O senhor considera grave essa questão da manipulação de mercados e até das taxas de câmbio pelos bancos? 

Aqui no Brasil nós entramos como primeira parte interessada no processo de investigação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) contra um suposto cartel de câmbio promovido pelos bancos que operam o câmbio futuro no mercado brasileiro (a então BM&F, atual B3). São valores astronônicos. Nas bolsa internacionais, as manipulações de commodities agrícolas prejudicam os grandes países exportadores, como o Brasil e Argentina.

A propósito de Argentina, como a crise econômica deles vai afetar o comércio entre os dois países? 

A Argentina sofreu forte desvalorização do peso. Cerca de 40% diante do dólar. O país já vem com déficits comerciais pesados para sua economia. Deve reduzir as importações com a retração do mercado interno. E isso vai afetar sobretudo as exportações de manufaturados pelo Brasil, pois os automóveis vão ficar 50% mais caros para os argentinos. E o mercado de lá representa 25% das exportações de manufaturados do Brasil. A América Latina, outros 15%. Assim, se as moedas locais perdem valor para o dólar, há perda do poder de compra em relação a bens manufaturados. E não há contrapartida no caso das commodities.

O senhor vê um quadro ruim para soja, milho, açúcar e as carnes de boi, suínos e frango, que respondem por 40% das receitas? 

No caso da soja, a safra deste ano já foi previamente vendida e está terminando de ser entregue. A de 2018-19, que vai ser plantada a partir de agosto-setembro, já vai ser comercializada nos próximos três meses. A soja vem caindo nos últimos 15 a 30 dias. A soja brasileira já ganha um bônus de valorização, por estar fora das restrições dos Estados Unidos. A China tem apetite enorme pela soja brasileira, argentina, de onde houver. Mas depende dos passos do Trump. Se ninguém colocar o “guiso no gato”, ele vai continuar semeando o caos nos mercados. No frango, depende da União Europeia.

Os impactos da greve dos caminhoneiros já passaram? 

Ainda não. Muitos estoques ficaram parados na cadeia de produção. Por isso, as importações tiveram uma queda que deve se prolongar até agosto-setembro. No lado das exportações, os fluxos dos embarques também foram interrompidos. O não cumprimento de prazos pode gerar problemas de credibilidade junto aos importadores.

Qual sua opinião sobre a passagem do controle da Embraer para a Boeing?

 Para mim, foi a salvação da Embraer. Depois da associação da canadense Bombardier, que era sua grande concorrente na aviação comercial de vôos executivos, com a europeia Airbus, a Embraer estava sem futuro. Com a parceria da Boeing, que tem tecnologia e pleno acesso ao mercado americano, o maior do mundo, a Embraer volta a ter condições de voar mais alto. Creio que vai ser um impulso bem maior que a injeção tecnológica promovida pela privatização nos anos 90. É importante que isso aconteça pois a Embraer, além de ser a terceira exportadora do Brasil, é a única empresa nacional de expressão na cadeia global de valor agregado na exportação. As demais são filiais de matrizes estrangeiras.