Foragido, Dario Messer, tem clientes investigados

O “sigilo absoluto” e a “garantia de rentabilidade” prometidos há décadas pelo doleiro carioca Dario Messer, caíram por terra com a Operação “Cambio, desligo”, deflagrada pela Força Tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro em 3 de maio. Ontem, a tensão aumentou para os 429 clientes de seu banco Evergreen (EVG), no paraíso fiscal de Antígua e Barbuda, no Caribe, e outros 300 de lista da Polícia Federal com nomes de empresários, socialites, políticos, artistas e jogadores de futebol que usavam seus serviços e perderam o sono. 

Dario Messer, que também tinha cidadania do Paraguai, desde 25 de abril de 2017, e desfrutava da amizade e proteção do presidente Horácio Cartes, de senadores, juízes e de uma teia de autoridades locais, foi oficialmente declarado foragido, ontem,pela Polícia paraguaia. Incluído no alerta vermelho da Interpol, suas chances de fuga se estreitaram.

Em comum com a lista dos 429 clientes do EVG, da qual fazem parte 119 das 3.000 offshores usadas supostamente para lavar dinheiro e que serão devassadas na “Câmbio, desligo” e 145 contas de pessoas físicas, a composição eclética, que inclui personagens de casos recentes de corrupção. 

A lista dos clientes do EVG, à qual o jornal “O Estado de S. Paulo” teve acesso teve acesso, foi entregue pelos doleiros Vinicius Claret, o “Juca Bala”, e Cláudio Barboza, o “Tony”, que atuavam para Messer a partir do Uruguai. O MPF quer identificar quais clientes do banco têm relação com casos de corrupção, quais sonegaram recursos e, ainda, aqueles que mantinham valores fora do país de forma regular, mesmo depois. Em relatório ao juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Criminal Federal do Rio - responsável por autorizar a operação da PF -, os procuradores afirmam que “muitas contas” foram abertas na instituição “em nome de familiares ou terceiros”. 

Segundo os investigadores, Messer mantinha sociedade no banco com Enrico Machado. “Em 2012, Messer se desentendeu com Enrico, rompendo a sociedade não só no Uruguai, como também no banco de Antígua”, relatou o Ministério Público Federal. A lista de clientes do banco de Messer reforça a versão dos investigadores de que a instituição financeira era utilizada para mascarar clientes do doleiro e lavar dinheiro. Entre os “correntistas” do EVG estão pelo menos dez doleiros que se valiam de sistemas de movimentação de dólares e reais e tinham a família Messer como garantidora das transações.

Na lista dos que mantinham contas no banco estão os irmãos Chebar, que foram responsáveis por levar a Lava Jato até o grupo de Messer. Renato e Marcelo Chebar aparecem vinculados a pelo menos três offshores: Blue Stream Investments 1, Blue Stream Investments 2 e Matlock Capital Group. Os Chebar foram os primeiros a relatar como Messer atuava como “doleiro dos doleiros”, garantindo moeda para operações transnacionais. Segundo eles, após Sérgio Cabral (MDB) assumir o governo do Rio, em 2007, a movimentação de valores ilegais atingiu uma escala tão grande que foi necessário acionar o esquema de Messer.

A lista da PF inclui doleiros como a família Matalon, Najum Turner, os irmãos Marcelo e Roberto Rezinski, os irmãos Katz, 15 membros da família Messer, conexões com correspondentes em Israel, nos Estados Unidos (Miami e Nova Iorque), Paraguai, Uruguai e Holanda. Também integram a lista um senador brasileiro e um paraguaio, dois deputados federais cariocas, Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney, rabinos (a família Messer professa a fé judaica), o empresário Gonçalo Borges Torrealba, do grupo Libra, envolvido na operação Portos. Da lista constam também algumas massagistas, meio time de ex-jogadores de futebol, o agente de jogadores Eduardo Uram massagistas e até motoboys. A PF investiga se só faziam entrega de dólares. 

Lavagem para fraudes e desvios 

Uma das offshores com conta no VG, a Phoenix C.V. está atrelada a Christian de Almeida Rego e a Roberto de Almeida Rego. Christian foi ouvido em 9 de fevereiro de 2006 na CPI Mista dos Correios, como suspeito de fraudes com fundos de pensão de estatais. O ex-diretor da Previ (fundo de pensão dos Funcionários do Banco do Brasil) João Bosco Madeiro da Costa está na lista de clientes do EVG, ligado à offshore Frodsham SA. Em agosto de 2013, Madeiro da Costa, o ex-diretor do BB Henrique Pizzolato - condenado no mensalão - e quatro investigados foram absolvidos pela Justiça Federal do Rio por crime contra o sistema financeiro. Em dezembro de 2013 a Procuradoria Regional da República da 2ª Região se manifestou contrária à absolvição. Os procuradores atribuem aos ex-dirigentes crime cometido na aplicação de R$ 150 milhões da Previ no fundo CVC/ Opportunity no leilão da Telebras.

Renato Malcotti, acusado em processo oriundo da Operação Caixa da Pandora (o mensalão do DEM) também está na lista ligado às offshores Glasgow LTD, Dudevant Enterprises LLC e Bangkok LTD. A Royal ST George está em nome dos irmãos Affonso e Pedro Henrique Mayrink, primos do doleiro Bernardo Freiburghaus. Ainda na lista Eric Davy Bello, ligado à offshore Terranova Holdings LTD, e filho de Ruy de Mesquita Bello, presidente da Rio Previdência na gestão de Benedita da Silva (PT), e sócio da corretora Turfa. Pai, filho e seis investigados foram denunciados, em 2005, por desvios de R$ 25 milhões do fundo.