Brasil livre do efeito Argentina?

Bradesco e Itaú consideram o país sólido para enfrentar turbulências na área cambial

Longe de esfriar, a tensão no mercado cambial argentino continuou forte ontem, no dia seguinte ao anúncio da negociação de empréstimo até US$ 30 bilhões com o Fundo Monetário Internacional, disse o Ambito Financiero, newsletter especializada em economia. O dólar voltou a romper a barreira dos 23 pesos, (23,13), apesar de três intervenções do Banco Central, que manteve os juros em 40% ao ano. Mas o índice Merval, da Bolsa de Buenos Aires reagiu bem ao apoio do FMI e à aprovação de nova lei do mercado de capital e subiu 4,6%, após cinco pregões de queda. 

As incertezas no mercado internacional, agravadas pela saída dos Estados Unidos do acordo de redução do arsenal nuclear do Irã, provocaram escassez de dólares na praça portenha e tiveram reflexo no Brasil, com o dólar alcançando a máxima de R$ 3,60, numa desvalorização de 0,8% do real. A tensão deve perdurar por mais três semanas, prazo esperado pelo governo Macri para concluir as negociações com o Fundo. 

Os dois maiores bancos privados brasileiros, Itaú e Bradesco,  dedicaram ontem análises econômicas sobre os impactos da crise argentina. O nervosismo no mercado brasileiro ontem foi também atribuído à entrevista do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, sem garantir a queda dos juros semana que vem (como fez em março).  

Ambos chamam a atenção para o fato de que o os fundamentos econômicos do Brasil são sólidos, apesar do déficit fiscal. Mas admitem contágio no comércio exterior, com impacto macroeconômico reduzido. Lembra o Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco (Depec) que “as relações entre Brasil e Argentina são bastante estreitas, sobretudo no comércio exterior. A Argentina é o maior parceiro do Brasil na América Latina e o terceiro destino mais relevante das exportações brasileiras, atrás apenas de China e EUA”. 

Nos últimos 12 meses, as exportações brasileiras à Argentina somaram US$ 18 bilhões e as importações chegaram a US$ 10 bilhões, com superávit comercial de US$ 8 bilhões para o Brasil. Mais relevante que o peso da Argentina nas exportações totais (8%), é a crescente participação da Argentina nas exportações de manufaturados (20%)”. O Bradesco cita que os bens manufaturados representam 93% do fluxo comercial do Brasil para a Argentina. Básicos e semimanufaturados respondem por 7%. 

“Há grande integração entre as indústrias brasileira e argentina, com destaque para a automobilística, que concentra 55% das exportações brasileiras de manufaturados para o vizinho. Em 2017 as exportações de carros para a Argentina cresceram 42%, e tiveram impacto de 0,25% para o PIB do ano, que cresceu 1%”. O Depec estima que uma queda de 1 ponto no PIB da Argentina, resultaria uma queda das exportações brasileiras para o vizinho de aproximadamente 4%. Na linha inversa, como as exportações para Argentina correspondem a 5% do PIB da indústria de transformação brasileira,  para cada redução no crescimento da Argentina de 1 ponto percentual, o impacto nas exportações brasileiras poderia ser de US$ 700 milhões e o impacto sobre o PIB seria de 0,04% (via exportações de manufaturados). “Efeitos praticamente desprezíveis diante do saldo comercial de US$ 70 bilhões do país projetado para 2018 e da expectativa de crescimento da economia brasileira em 2,5%. O que fica claro por essas simulações é que a Argentina tem algum impacto na balança comercial e no crescimento brasileiro, mas com magnitude bastante reduzida”, diz o estudo. 

O Bradesco também considera “bastante baixo” o risco de um contágio financeiro para o Brasil, que possui uma situação muito confortável nas contas externas, com déficit próximo de zero, investimento direto de US$ 65 bilhões, reservas internacionais (US$ 380 bilhões) 5 vezes superiores à dívida externa do governo (US$ 70 bilhões) e ausência de dívida local indexada ao dólar.