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Embrapa perde relevância

Ao completar 45 anos, empresa é criticada por produtores rurais, que pedem mais pesquisa e inovação

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A Embrapa comemorou 45 anos, na semana passada, enfrentando as maiores críticas de sua história. A entidade foi duramente criticada, num debate sobre inovação no agronegócio realizado na Fundação FHC, em São Paulo. Nos meses anteriores, já enfrentara vários questionamentos, um dos quais resultou na demissão do pesquisador da instituição Zander Navarro, posteriormente reintegrado ao cargo pela Justiça.

Para os produtores rurais, principais interessados nas pesquisas da empresa, a verdade é que ela vem a cada dia perdendo mais relevância. Oriundos das diferentes e principais regiões rurais do País, produtores de portes e culturas diversas foram unânimes em elogiar o passado da Embrapa (sigla para Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Lamentaram, porém, o distanciamento e a perda de espaço, sobretudo nos grãos.

  “O começo da expansão no cerrado se deu graças à Embrapa: eram os técnicos da entidade que consultávamos sobre variedades de sementes, manejo de solo e formas de plantio, quando ainda não havia qualquer conhecimento sobre a agricultura tropical”, diz José Fava Neto, sócio da Agrofava e grande produtor de soja, milho, feijão e café em Goiás e na Bahia. “É indiscutível o papel e a relevância da Embrapa, mas ela vem perdendo espaço.” Quanto mais próximo o interlocutor é da operação, maior é a mudança percebida. “A Embrapa deixou de ser o grande banco intelectual da agricultura, como foi até os anos 90”, afirma Inácio Modesto Filho, diretor de produção da Bom Futuro, grupo que cultiva 275 mil hectares de soja, 120 mil de algodão e 120 mil de milho, além de ter 120 mil cabeças de gado. “Podia ser em genética, microbiologia, entomologia, fitopatologia, em qualquer campo do conhecimento eles tinham os grandes nomes e a serem consultados.”

Iniciativa privada Hoje, segundo Modesto, 95% da pesquisa em milho, soja e algodão são feitas pela iniciativa privada. “Como a soja movimenta valores altos, muitas empresas vieram para o Brasil para fornecer esse tipo de pesquisa”, afirma Eraí Maggi, fundador do Bom Futuro e maior produtor de soja do Brasil. “As multinacionais ocuparam muito esse espaço.” Segundo Maggi, o papel de vanguarda da Embrapa foi trocado pelo de “regulador de preço” das tecnologias demandadas pelos grandes produtores. “Ela não deixa o filão só para as multinacionais”, diz ele. “Não vira as costas ao nosso mercado.” Nas fazendas do Bom Futuro, porém, de cada 20 pesquisas realizadas pela iniciativa privada, só uma é da Embrapa. Há dez anos, diz Fava Neto, 60% das variedades de soja utilizadas no cerrado haviam sido desenvolvidas pela Embrapa e suas coligadas. Hoje, não chegam a 5%.