Matéria publicada nesta sexta-feira (16) pelo The Wall Street Journal conta que até agora, a reação dos outros 27 países da União Europeia à decisão do Reino Unido de deixar o bloco tem sido mais branda do que muitas pessoas esperavam, incluindo os próprios britânicos. Isso não deve mudar muito depois da reunião de cúpula sendo realizada hoje na Eslováquia com os representantes desses 27 países-membros. No discurso de seis mil palavras que fez nesta semana, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, não falou muito sobre o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido, a chamada Brexit, em junho. “Nós respeitamos e lamentamos a decisão do Reino Unido, mas a UE em si não está em risco”, disse Juncker.
O Journal analisa que há boas razões para essa resposta moderada. Do ponto de vista dos 27 países, o resultado do referendo foi lamentável, mas são os britânicos que têm mais a perder. A UE é de longe mais importante economicamente do que o Reino Unido. Isso é verdade tanto no aspecto coletivo como no individual: entre todos os países do bloco, só a Irlanda e o Chipre enviam mais de 10% de suas exportações para o Reino Unido. Tirando algumas adaptações na legislação da UE para refletir a saída do Reino Unido, os ajustes no restante do bloco serão modestos. Os britânicos, por outro lado, terão que fazer uma reformulação completa para expurgar a UE de suas leis, tarefa que pode ocupar o governo por décadas. O Reino Unido também tem pela frente torturantes negociações para definir suas novas relações comerciais com o resto do mundo.
O jornal norte-americano relata que as discussões dos termos do divórcio da UE ainda não começaram e não está claro o que o Rio Unido irá buscar no futuro relacionamento com o bloco. Então, não faz sentido para os outros 27 países começar a definir regras. Outra razão é que, para esses 27 membros, a Brexit é meramente o golpe mais recente sofrido pela União Europeia — e pode nem ter sido o pior. A crise migratória e a lenta recuperação da economia da zona do euro desde a crise financeira tornaram os políticos de toda a Europa mais escaldados. Líderes na Alemanha, França e Holanda terão que enfrentar partidos populistas nas eleições nacionais do próximo ano. Itália e Espanha também estão às voltas com a política nacional. “Os 27, falando de modo geral e com algumas exceções, são mal liderados”, diz Andrew Duff, ex-membro do Parlamento Europeu e especialista na constituição da UE.
Segundo reportagem do WSJ as expectativas modestas para a cúpula de hoje em Bratislava — para a qual a primeira-ministra britânica, Theresa May, não foi convidada — também refletem a falta de consenso entre os países-membros sobre como reagir. Para a maioria, a defesa de uma maior integração como prioridade do pós-Brexit simplesmente não seria bem recebida pelos eleitores em seus países. Além disso, como um possível símbolo de males políticos mais amplos, a Brexit apresenta um desafio menos tangível à UE do que ao Reino Unido. Os políticos do Reino Unido, por sua vez, não se constrangeram ao alertar seus pares europeus de que o referendo pode ter sido um prenúncio. “As vozes de descontentamento vão bem além do Canal da Mancha”, disse ontem Syed Kamall, representante do Partido Conservador britânico no Parlamento Europeu, em resposta ao discurso de Juncker. “Em muitos outros países da UE, os sinais de advertência estão lá. E se eles continuarem sendo ignorados, não se surpreenda se outros pedirem para sair.”