'WSJ': Juros negativos começam a impulsionar a economia europeia

Matéria publicada nesta sexta-feira (9) pelo jornal norte-americano The Wall Street Journal alerta que o coro de descontentamento com o Banco Central Europeu está crescendo. Poupadores alemães, investidores em títulos de dívida, bancos e um crescente número de economistas estão se queixando que os juros negativos têm elevado a poupança e não têm feito nada pelos investimentos corporativos, ao mesmo tempo em que estão destruindo os planos de aposentadoria. O BCE deve ignorá-los por um tempo. Sim, os poupadores alemães estão perdendo. Sim, as margens de lucro dos bancos diminuem quando as taxas são negativas. Sim, todo mundo que quer um plano de aposentadoria privada decente terá que poupar muito mais. Mas os ganhadores com os juros mais baixos estão fazendo o que deveriam ao ir atrás de mais financiamentos. E parece que isso está silenciosamente ajudando a economia.

Segundo a reportagem o desemprego na zona do euro em agosto recuou para o nível em que estava em novembro de 1998, dois meses antes da criação do euro. Os 7,5 milhões de empregos criados na zona do euro desde o início de 2014, o ano em que o BCE passou a adotar juros negativos, supera os 6,3 milhões criados nos Estados Unidos, que possui uma população mais ou menos similar, até o primeiro trimestre do ano (o dado mais recente disponível na Europa). A geração de empregos coincidiu com o retorno dos pedidos de empréstimos das empresas e, em menor extensão, das famílias, diante da queda dos juros cobrados nessas operações. E está ficando melhor. Nos últimos três trimestres, a economia da zona do euro cresceu mais rápido que a dos EUA. A formação bruta de capital fixo na zona do euro, medida de investimento geral antes da depreciação, tem crescido ano a ano desde o fim de 2013. Embora ele tenha ficado estável no segundo trimestre ante o primeiro na zona do euro, desempenho que decepcionou, nos EUA ele caiu. Obviamente, tudo isso é economia: causalidade e correlação são quase sempre impossíveis de separar, e ninguém sabe o que podia ter acontecido se os juros não tivessem ficado negativos.

O texto do Journal diz que certamente, quando os 25 membros do conselho do BCE decidiram, ontem, manter os juros estáveis, eles não celebraram vitória. O crescimento permanece lento, a inflação está abaixo de 1% mesmo com a exclusão dos preços do petróleo, o desemprego ainda está acima de 10%, o cenário é sombrio e milhares de eleitores insatisfeitos estão migrando para partidos populistas. Crescer um pouco mais rápido do que os EUA quando a taxa de desemprego americana está perto da metade da europeia não é uma maravilha — mas na economia esclerosada da Europa, isso pode ser algo fora do alcance do BCE. Os defensores da política de juros baixos argumentarão que sinais de crescimento fraco e preocupações com a Brexit, a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia, são motivos para mais ação. Os mercados acreditam que o BCE deixará os juros ainda mais negativos. Embora a reunião desta semana não tenha gerado uma nova redução dos juros, o mercado prevê que ela ocorra em meados de 2017, conforme refletem os preços dos ativos, segundo o Barclays. Como resultado, os títulos de dívida alemães de dois anos estão sendo negociados a uma rentabilidade 0,25 ponto percentual abaixo da taxa de -0,4% do BCE.

O jornal norte-americano fala que há boas razões políticas e financeiras para não cortar as taxas ainda mais. Embora os críticos dos juros negativos tenham sido excessivamente estridentes, essas taxas equivalem a impostos para os bancos. Mais demanda por empréstimos pode compensar a menor lucratividade com maiores volumes até um certo limite. Então, taxas negativas demais poderiam ameaçar a estabilidade financeira. Politicamente, os juros negativos são ainda mais tóxicos. A Alemanha é hoje tanto o maior poupador da Europa como sua voz mais forte, e os juros negativos são detestados por lá. A responsabilidade do BCE é para a zona do euro como um todo, então ele não tem como agradar a Alemanha. Mas quando novas reduções nos juros seriam apenas marginalmente úteis para a economia da zona do euro, na melhor das hipóteses, há poucos motivos para piorar o relacionamento ainda mais. Mario Draghi, o presidente do BCE, se tornará ainda mais impopular no país se ele estender e renovar o programa de recompra de títulos, como muitos investidores e economistas esperam. Nada disso significa que mais trabalho não seja necessário. Mas o BCE está certo que para acelerar o crescimento, a Europa precisa de reformas e ajuda da política fiscal, não apenas ações monetárias.

O WSJ afirma que o desemprego estrutural da Europa continental é surpreendente, com a taxa de desemprego acima de 7% tanto no auge da bolha da internet como em 2007; embora Espanha e Itália tenham feito progressos na reforma trabalhista, há muito mais a fazer na região. Enquanto isso, os atuais desequilíbrios gigantescos nas contas correntes entre os países da zona do euro só podem ser ajustados com um maior consumo dos alemães. Como diz o ministro das Finanças da Holanda, Jeroen Dijsselbloem, líder do grupo de ministros das Finanças da zona do euro, a Alemanha precisa gastar mais em sua infraestrutura e educação decadentes. Há também muita margem para subir os salários mais rapidamente na Alemanha, mesmo com o aumento dos gastos públicos decorrentes de certa forma dos custos da imigração em massa. Os alemães não gostam, mas se o país passar um pouco mais rapidamente de poupador para gastador, a demanda cresceria mais rápido por toda a zona do euro e os juros poderiam subir antes do esperado.