Nesta sexta-feira (9) o jornal Clarín traz uma entrevista com o diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da Industria (CNI), Carlos Abijaodi. Uma semana depois do impeachment de Dilma Rousseff uma comitiva com cinquenta empresários e executivos da construção ao setor de frigoríficos, entre outros, está em Buenos Aires. "O vento mudou, é primavera", diz um dos lideres do grupo.
Em entrevista ao Clarin, no restaurante do hotel onde está hospedado, ele disse que os investidores brasileiros reclamavam da falta de diálogo entre os governos de Dilma e Cristina Kirchner e das barreiras impostas pela então gestão argentina aos produtos brasileiros. Ele disse que as reuniões eram tensas e as medidas combinadas não saiam do papel.
"Os empresários estavam com palito na garganta", disse ao sugerir que estavam engasgados diante da falta de fluidez no diálogo bilateral.
China
O resultado, disse, foi que o Brasil perdeu espaço para a China na Argentina.
"Houve um afastamento. O Brasil foi substituído pela China durante o governo de Cristina Kirchner", disse o diretor da CNI.
Ele citou números com os quais a confederação que reúne mais de 700 empresas trabalha. “Há uma década, nossas exportações para a Argentina abarcavam 34% do mercado (vizinho) e depois caímos para 22%”, disse enquanto tomava um suco de laranja.
No mesmo período, afirmou que a participação da China no mercado argentino passou de 4% para 15%. “Talvez a China tenha sido mais agressiva. Talvez mesmo com as facilidades que temos, como a Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul, a China tenha conseguido oferecer (produtos) mais competitivos”, disse.
Segundo estimativas do governo argentino, contou, o Brasil tem investimentos por um total de US$ 12 bilhões na Argentina (incluindo aqueles que não necessariamente desembarcam diretamente do Brasil, mas passam por outros países antes do desembarque na Argentina).
E agora as diferentes empresas que desembarcaram em Buenos Aires querem retomar investimentos parados, devido a medidas do governo anterior, ampliar ou iniciar empreitadas no país que há nove meses é governado por Mauricio Macri.
Ele disse que aquele ambiente de “hostilidade” na gestão de Cristina, assessorada pelo então polemico secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, mudou.
“O tratamento (no primeiro dia desta viagem) foi outro. E eles têm vários projetos, como de infraestrutura, que interessam aos empresários brasileiros”, disse.
“O ambiente é favorável, aberto, com maior disposição ao dialogo para encontrar soluções”, acrescentou.
Brasil
O Clarín conta que segundo o mineiro Abijaodi, o ambiente de negócios no Brasil começou a mudar no dia doze de maio, quando foi aprovado o processo de impeachment contra Dilma Rousseff e realizadas mudanças ministeriais. Desde então, empresários brasileiros passaram a olhar mais atentamente para a Argentina, que já era governada por Macri desde dezembro de 2015.
Para o diretor da CNI, a atual equipe econômica, com Henrique Meirelles, como ministro da Fazenda, significa uma atmosfera também mais previsível para a expansão de negócios.
Ele acha que existe terreno para os investimentos brasileiros na Argentina crescerem em áreas como automóveis, máquinas agrícolas, frigoríficos (empresas brasileiras que fizeram investimentos neste ramo no país) congelaram empreitadas após “pressões”, contaram na ocasião, de Moreno e medidas do então governo.
Quando lembrado que as duas economias estão em recessão e automóveis se acumulam em pátios, por falta de vendas, ele respondeu: “No setor de investimentos, os planos são de longo prazo. E para nós, 2016 e 2017 serão anos econômicos perdidos mas melhorará a partir de 2018 e temos que estar prontos para isso”, disse.
O diretor da CNI afirmou ainda ao Clarín que a Argentina é hoje um país que oferece uma série de planos de investimentos. E retomou o desejo de empresas brasileiras que no passado buscavam que a Argentina fosse uma plataforma também para a exportação de seus produtos para outros mercados da região ou de outros continentes, como o asiático.
“Em março voltaremos a nos reunir para continuar avançando”, disse.