'WSJ': Investimento saudita na Uber causa desconforto

Matéria publicada nesta quinta-feira (21) no jornal norte-americano The Wall Street Journal conta que em meados de junho, uma delegação da Arábia Saudita ofereceu um jantar no hotel Fairmont, em San Francisco, para cortejar investidores de capital de risco como Marc Andreessen, um dos fundadores do Netscape e da firma de investimentos Andreesen Horowitz, e Michael Moritz, sócio da Sequoia Capital. O príncipe Mohammed bin Salman, segundo na sucessão do trono árabe, sinalizou que os sauditas querem fazer mais negócios com o Vale do Silício como o investimento de US$ 3,5 bilhões na Uber Technologies Inc., anunciado duas semanas antes, segundo uma pessoa que participou do jantar. Enquanto a Arábia Saudita e seu fundo soberano, que investe os vultosos recursos provenientes da exploração de petróleo no país, preparam-se para se tornar grandes participantes nos negócios do setor de tecnologia, o Vale do Silício está analisando as consequências. Investidores em tecnologia gostam de promover os benefícios sociais das empresas que financiam. Mas o setor frequentemente ignora os princípios e crenças dos próprios financiadores, priorizando, em vez disso, seus históricos de investimentos e o tamanho dos cheques. Para alguns investidores e fundadores de empresas de tecnologia, o acordo da Uber com a Arábia Saudita representa uma aprovação tácita do governo do país, o único no mundo onde mulheres não podem dirigir e um dos vários que criminaliza a homossexualidade.

“Não seria uma opção que eu teria feito se eu fosse eles”, diz Wesley Chan, sócio da firma de capital de risco californiana Felicis Ventures, sobre a Uber. Chan, que é gay, diz que ele não aceitaria dinheiro da Arábia Saudita ou de qualquer outro investidor de cujos valores discorda. “Queremos ganhar dinheiro para pessoas que são tolerantes e concordam com nossos princípios de diversidade.”

Segundo a reportagem do Journal, executivos da Uber dizem que a decisão de aceitar o investimento e de incluir um representante saudita em seu conselho de administração não significa uma aprovação das políticas do reino. A Uber e seus aliados dizem que o serviço de carona paga via aplicativos de celular se tornou uma ferramenta valiosa para as mulheres sauditas, que representam 80% dos passageiros do serviço no país. Alguns defensores da Uber também observam que os Estados Unidos e a Arábia Saudita são aliados e que outras empresas americanas também fazem negócios com o governo saudita.

“Claro que eu e todos no conselho da Uber acreditamos que as mulheres têm o direito de dirigir!”, disse, por e-mail, a empresária de mídia e comentarista liberal Arianna Huffington, que se tornou conselheira da Uber no primeiro semestre. “Mas, fora isso, a Uber está pelo menos fornecendo uma mobilidade bastante necessária às mulheres da Arábia Saudita”, disse ela.

O texto do jornal norte-americano fala que embora as mulheres sauditas tenham se beneficiado do aplicativo de carona paga, algumas ficaram ofendidas por a Uber ter aceitado o investimento árabe. Elas acusaram a empresa não apenas de se beneficiar do fato de as mulheres serem proibidas de dirigir, mas também de efetivamente favorecer a proibição. Após o acordo ser fechado, uma “hashtag” em língua árabe pedindo o boicote da Uber ganhou força no Twitter na Arábia Saudita, com algumas mulheres postando fotos para mostrar que haviam deletado o aplicativo da empresa em seus smartphones. Fundos soberanos como o da Arábia Saudita estão cada vez mais investindo em tecnologia porque esta é uma das poucas áreas onde eles podem obter um retorno considerável do investimento, diz Venky Ganesan, investidor de capital de risco da Menlo Ventures, da Califórnia, que investiu incialmente na Uber. Escolher investidores não é uma tarefa fácil. Cingapura, o investidor mais ativo em firmas de tecnologia dos EUA, é descrita pela organização internacional de direitos humanos Human Rights Watch como um Estado que limita a liberdade de expressão de seus habitantes. O fundo soberano de Cingapura, o GIC Pte Ltd., investe em grandes empresas de capital de risco, como as americanas Accel Partners, Battery Ventures e Sequoia Capital. O Catar, cujo fundo soberano financiou a Uber em 2014, está sendo investigado por seu tratamento de trabalhadores imigrantes de baixos salários.

Finalizando, o WSJ fala que o governo saudita planeja transformar seu fundo soberano no maior do mundo, com ativos chegando a quase US$ 3 trilhões. Pressionado pelos preços baixos do petróleo, que corroem o seu caixa, o governo saudita está procurando ativamente investimentos no exterior. O acordo com a Uber representa o maior investimento do país desde que o reino anunciou, em abril, seu plano de reformar a economia, chamado Vision 2030. Além dos investidores de capital de risco, a delegação liderada pelo príncipe árabe também se reuniu com diretores-presidentes como Tim Cook, da Apple Inc., Mark Zuckerberg, do Facebook Inc., e Satya Nadella, da Microsoft Corp. Andreessen e Moritz não quiseram comentar sobre o jantar. Alguns dizem que os acordos dos EUA com o governo saudita criaram um precedente que as empresas americanas podem seguir. Eles também argumentam que todo americano que compra gasolina está apoiando um setor que é a principal fonte de renda da Arábia Saudita. Já outros dizem que, ao aceitar o dinheiro saudita, a Uber perdeu uma oportunidade de ajudar a promover mudanças sociais.

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