Financial Times: a dor de cabeça com a inflação e a missão do BC do Brasil

A missão do Banco Central brasileiro de lidar com o índice de inflação principal do país, que fechou 2015 em 10,7%, o maior nível desde 2002, quando o Brasil estava sob o governo FHC, virou destaque em reportagem do jornal britânico Financial Times nesta semana, que chama atenção para as pressões que estariam dificultando a adoção de políticas monetárias.

Entre críticas à presidente Dilma Rousseff, citando que o processo de impeachment contra ela no Congresso pode estimular a adoção de políticas econômicas heterodoxas, o FT lembra que, na reunião de quarta-feira, o Banco Central brasileiro vai enfrentar uma de suas decisões mais complicadas em relação à taxa Selic, enquanto luta para trazer a inflação para o centro da meta, que é de 4,5%, e enquanto o país enfrenta uma de suas piores recessões econômicas. 

"Enquanto mercados emergentes ao redor do mundo se recuperam da desaceleração na China, alguns economistas alertam que o Brasil está também à beira da 'dominância fiscal' -- um cenário econômico em que preocupações relacionadas a finanças fracas de um país tornam a política monetária ineficaz", diz Samantha Pearson, correspondente do Financial Times no Brasil.

A matéria do jornal britânico chama atenção para o dilema do BC, que se resolver elevar a Selic pode afetar o montante dos juros da dívida que o governo terá que pagar, que já está "pesado". "Como diz a teoria, isso poderia aumentar o medo de um calote da dívida -- uma perspectiva que poderia causar uma depreciação na moeda, deixar importações mais caras e então alimentar a inflação."

A análise alarmante do Barclays sobre o Brasil, divulgada na semana passada, também ganha destaque. Na ocasião, os analistas escreveram: "Nós encontramos evidências de que o Brasil já pode estar sofrendo da dominância fiscal e que o banco de metas do Banco Central com a inflação pode estar sendo comprometido."

Por outro lado, se o Banco Central não fizer nada com a taxa ou então reduzi-la, frisa o jornal britânico, poderia ser acusado se sucumbir a pressões políticas. Para o Financial Times, o banco central é um dos poucos no mundo que não é formalmente independente do governo. "Enquanto a instituição geralmente goza de autonomia operacional, preocupações têm crescido sobre a intromissão do governo desde que Rui Falcão, presidente do Partido dos Trabalhadores, pediu publicamente na semana passada pelo fim de altas taxas de juros."

O processo de impeachment aberto na Câmara dos Deputados poderia influenciar a presidente Dilma a ouvir o pedido de Raul Falcão e dos grupos anti-austeridade, Financial Times. Falcão e grupos anti-austeridade têm um discurso mais alinhado à política desenvolvimentista aplicada nos primeiros anos do governo Dilma. O jornal destaca ainda, citando um analista da Nomura, que a entrada do novo ministro, Nelson Barbosa, "apenas aumentou as preocupações" sobre uma mudança para políticas mais heterodoxas. 

"É um cenário desolador", atesta o jornal europeu, "particularmente para brasileiros mais velhos que ainda são assombrados pela hiperinflação dos nos 1980 e início dos anos 1990 que neutralizou poupanças destruiu os meios de subsistência". 

"Na primeira década deste século, o Brasil parecia ter colocado seu passado negro para trás e entrado em uma nova era de prosperidade e estabilidade baseadas em três políticas sacrossantas: controle da inflação, responsabilidade fiscal e uma moeda flutuante. Contudo, a decisão da Senhora Rousseff de bombear a concessão de empréstimos a partir de 2011 à custa do déficit fiscal, junto com o fim do superciclo de commodities, pavimentou o caminho para a crise atual", sentencia o Financial Times

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