Ministro das finanças grego propõe 'discurso de esperança para a Grécia'

Varoufakis diz que seu país precisa de ajuda, como a que foi dada à Alemanha no pós-guerra

O ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, publicou um artigo no Project Syndicate nesta quinta-feira (04/06) onde pede tolerância e ajuda da União Europeia para seu país. A Grécia tem uma parcela de € 300 milhões de dívida que vence nesta sexta-feira e tenta ganhar tempo nas negociações.

"No dia 6 de setembro de 1946 o secretário de estado dos EUA James F. Byrnes viajou até Stuttgart para fazer seu histórico “Discurso da Esperança”. A fala de Byrnes marcou a mudança de intenções dos Estados Unidos em relação à Alemanha e deu a uma nação em ruínas uma chance de imaginar uma recuperação, o crescimento e a volta à normalidade. Sete décadas depois, é o meu país, a Grécia, quem precisa dessa chance.

Até o “Discurso da Esperança” de Byrnes os aliados estavam comprometidos em converter “…a Alemanha em um país que vivia essencialmente da agricultura e da pecuária.” Essa era a intenção expressa do Plano Morgenthau, concebida pelo secretário do tesouro dos EUA Henry Morgenthau Jr. e co-assinado por Estados Unidos e Grã Bretanha dois anos antes, em setembro de 1944.

De fato, quando os EUA, a União Soviética, e o Reino Unido assinaram o Acordo de Potsdam em agosto de 1945, eles concordaram com a “redução ou destruição de toda indústria pesada civil com potencial de guerra” e em “reestruturar a economia alemã na direção da agricultura e da indústria leve”. Em 1946, os aliados reduziram a produção alemã de aço a 75% de seu nível de antes da segunda guerra. A produção de carro despencou para cerca de cerca de 10% da produção pré-guerra. No final da década, 706 fábricas foram destruídas.

O discurso de Byrnes indicou aos alemães um reverso daquela postura punitiva de desindustrialização. É claro, a Alemanha deve sua recuperação pós-guerra e riqueza ao seu povo e seu trabalho duro, inovação, e devoção a uma Europa unida e democrática. Mas os alemães não poderiam ter empreendido seu magnífico renascimento pós-guerra sem o apoio expressado no “Discurso de Esperança”.

Antes do discurso de Byrnes, e durante um tempo depois, os aliados dos Estados Unidos não mostravam disposição em restaurar a esperança aos derrotados alemães. Mas quando o governo do presidente Harry Truman decidiu reabilitar a Alemanha, não houve mais volta. Seu renascimento estava a caminho, facilitado pelo Plano Marshall, uma anulação da dívida pelos EUA em 1953, e pela infusão de trabalhadores migrantes vindos da Itália, Iugoslávia e Grécia.

A Europa não poderia ter se unido em paz e democracia sem essa mudança radical. Alguém deveria deixar de lado objeções moralistas e lançar um olhar não apaixonado a um país preso em uma série de circunstâncias que apenas reproduziria discórdia e fragmentação em todo o continente. Os EUA, tendo emergido da guerra como o único credor, fez exatamente isso.

Hoje é meu país que está preso em tais circunstâncias e precisando de esperança. Objeções moralistas para ajudar a Grécia a se recuperar, negando a seu povo um impulso para que realize seu próprio renascimento. Uma maior austeridade está sendo pedida de uma economia que está de joelhos, devido à maior dose de austeridade que país algum jamais teve que suportar em períodos de paz. Sem oferta de alívio da dívida. Sem plano de impulsionar o investimento. E certamente, pelo menos até agora, sem “Discurso de Esperança” para esse povo sofrido.

Enquanto escrevo estas linhas, o governo grego está apresentando à União Europeia uma lista de propostas para reformas profundas, gerenciamento da dívida, e um plano de investimento para dar início a um reaquecimento da economia. A Grécia está de fato pronta e disposta a entrar em um pacto com a Europa que vai eliminar as distorções que fizeram que ela fosse a primeira peça de dominó a cair em 2010.

Pero, para que a Grécia aplique essas reformas com êxito, seus cidadãos precisam de um ingrediente do qual carecem: a esperança. Um “discurso da esperança” para a Grécia mudaria a situação agora, não só para nós, mas também para nossos credores, pois nosso renascimento acabaria com o risco de suspensão de pagamentos.

O que deveria figurar nessa declaração? Assim como o discurso de Byrnes foi curto em detalhes, mas longo em simbolismo, um “discurso da esperança” para a Grécia não há de ser técnico. Deve assinalar simplesmente uma mudança, um corte com os cinco últimos anos de acúmulo de novos empréstimos sobre a já insustentável dívida, com a condição de suportar mais doses de austeridade punitiva.

Quem deveria fazer esse discurso? Em minha opinião, deveria ser a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e deveria dirigir-se a um auditório em Atenas ou Salônica ou qualquer outra cidade grega escolhida. Poderia aproveitar essa oportunidade para sugerir uma nova abordagem da integração europeia, que comece com o país que mais sofreu, vítima tanto da concepção defeituosa da zona do euro como das falhas de sua própria sociedade.

A esperança foi uma força para o bem na Europa do pós-guerra e agora pode sê-lo para uma transformação positiva. Um discurso de uma dirigente da Alemanha numa cidade grega poderia ser um grande passo para torná-la realidade".