PIB do 1°trimestre adianta cenário que deve ser visto em 2015

País precisa passar por momento de ajustes para voltar a crescer, dizem economistas

A economia brasileira recuou 0,2% no primeiro trimestre deste ano, na comparação com trimestre anterior, divulgou o IBGE nesta sexta-feira (28). Em relação ao mesmo período do ano passado, o resultado é 1,6% inferior. Em 12 meses, a queda é de 0,9%. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, declarou à imprensa que o resultado veio como o esperado. "O retrato que o IBGE fez foi aquilo que a gente já sabia." Para economistas, o país precisa mesmo passar agora por um momento de ajustes, que deve se refletir em baixo crescimento ao longo do ano, para que o país retome o crescimento em breve, no início do ano que vem, talvez.

“Havia muita incerteza quando o ano começou e isso, evidentemente, afetou a atividade econômica. De lá para cá eu acho que a confiança mudou. Nós vencemos esses desafios mais imediatos: o Brasil manteve o seu investment grade, a Petrobras publicou o seu balanço, está fazendo uma série de ajustes lá, enquanto a produção de petróleo continua crescendo. E na parte de energia a gente vê, inclusive, os reservatórios na Região Sudeste hoje com 35% [de capacidade], até porque, com o realinhamento de preços, também a própria população teve mais indicações para reagir à menor quantidade de água que a gente teve no ano passado”, disse o ministro.

Levy ressaltou que o governo continua empenhado em mudar a dinâmica de incerteza que existia no país no início deste ano. “É importante a gente mudar isso, fazer o ajuste”. Boa parte do ajuste fiscal já foi votada no Congresso Nacional, lembrou. De acordo com ele, passada essa primeira fase, ainda há muito por fazer. “Nós temos visto o desemprego aumentar um pouco e nós temos que, portanto, tomar ações enérgicas para evitar que a economia possa entrar em algum processo mais extenso de recessão."

Mauro Rochlin, professor dos MBAs da FGV, destacou em conversa com o JB por telefone que o segundo trimestre deste ano pode registrar um aprofundamento da recessão e que o terceiro deve depender do sucesso do ajuste fiscal, da efetiva retomada de credibilidade do governo e de alguns fatores externos, como a taxa de juros norte-americana. "A retomada da economia não está até onde a vista alcança", apontou Rochlin.

Para Rochlin, é mais provável que uma retomada venha a partir do ano que vem. A intensidade dela, contudo, também é uma questão a ser resolvida. Várias outras medidas ainda são necessárias, e o ajuste fiscal no ano que vem ainda vai se acentuar, já que a meta fiscal está em 2% do PIB, o dobro deste ano. "Não há futuro sem ajuste fiscal, sem ele nós teríamos as contas deteriorando rapidamente."

Fernando de Holanda, especialista da da FGV/EPGE, em conversa com o JB, indicou que a retomada da atividade econômica deve vir apenas no primeiro ou segundo trimestre do ano que vem. "Esse resultado negativo já era todo esperado, não surpreende em nada", destacou, apontando que a política monetária e a política fiscal restritivas, e ainda a questão da indústria de petróleo, são sinais que apontam para o mau desempenho da atividade econômica neste ano. 

"Este quadro recessivo vai continuar neste ano, vamos ver a mesma coisa nos próximos trimestres", aposta Fernando de Holanda. "Só no começo do ano que vem, no 1° ou no 2° trimestre, vamos começar a ver a luz no final do túnel, porque um programa desses de ajuste fiscal leva no mínimo um ano (para apresentar resultados)."

De acordo com Fernando de Holanda, é importante que o governo e sociedade tenham paciência para aguentar todo essa quadro, caso contrário o país pode ficar estagnado por muito tempo. "É melhor apertar os cintos agora."

José do Egito Frota Lopes Filho, presidente da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (ABAD), criticou em nota os patamares dos juros e a baixa confiança do mercado: "Está na hora de o governo começar a mostrar, para além dos cortes anunciados, as iniciativas que vai adotar para interromper a retração e colocar o país na rota da recuperação, antes que as perdas sociais e econômicas atinjam um patamar insustentável."

O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Martins, também em nota, disse que a entidade recebeu com preocupação a confirmação da queda na atividade econômica, apesar do resultado positivo da indústria de construção, que registrou acréscimo de 1,1% no período. 

"Nossa expectativa é que haja sinais de que os investimentos serão preservados", afirmou José Carlos Martins. "A maior preocupação é restabelecer a plena atividade do setor e estancar a perda de empregos."

Mais tarde, a entidade informou que recebeu com satisfação o conjunto de medidas anunciadas pelo governo federal para alavancar o setor habitacional. Na avaliação da entidade, decisões tomadas na última reunião do Conselho Monetário Nacional, nesta quinta-feira (28), contemplam parte das demandas do segmento e terão impacto positivo sobre a atividade. “O governo nos dá um sinal de compreender a importância do setor para a economia”, afirmou José Carlos Martins.

O ministro Joaquim Levy, quando destacou que o governo está tomando medidas para  manter e reanimar a economia em algumas áreas, citou, entre elas, a liberação de mais de R$ 20 bilhões para a construção civil.

PIB recua 0,2% em relação ao trimestre anterior

O PIB apresentou variação negativa de 0,2% na comparação do primeiro trimestre de 2015 contra o quarto trimestre de 2014, na série com ajuste sazonal. A Agropecuária cresceu 4,7%, a Indústria recuou 0,3% e os Serviços caíram 0,7%. Na Indústria, extrativa mineral e construção civil cresceram, 3,3% e 1,1%, respectivamente. Já o setor de eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana caiu 4,3%, e a indústria de transformação teve 1,6% de queda.

Na área de serviços, a queda foi puxada por transporte, armazenagem e correio (-2,1%), por administração, saúde e educação pública (-1,4%), outros serviços (-1,4%), Intermediação financeira e seguros (-0,8%) e comércio(-0,4%). Já as atividades imobiliárias e serviços de informação cresceram 1,2% e 1,1%.

A Despesa de Consumo das Famílias caiu 1,5%, e a Formação Bruta de Capital Fixo e a Despesa de Consumo do Governo recuaram 1,3%.

No setor externo, as exportações e as Importações de Bens e Serviços aumentaram em 5,7% e 1,2% em relação ao trimestre anterior.

Quando comparado ao mesmo período do ano anterior, o PIB apresentou contração de 1,6% no primeiro trimestre. O Valor Adicionado a preços básicos caiu 1,2% e os Impostos sobre Produtos Líquidos de Subsídios, 3,5%.

A Formação Bruta de Capital Fixo caiu 7,8%, principalmente pela queda das importações e da produção interna de bens de capital e, ainda, pelo desempenho negativo da construção civil. A Despesa de Consumo do Governo, por sua vez, caiu 1,5%.

No setor externo, as Exportações de Bens e Serviços subiram 3,2%, enquanto que as Importações caíram 4,7%. Dentre as exportações de bens, os destaques de crescimento foram petróleo e carvão, siderurgia e têxteis. Na pauta de importações, as maiores quedas foram em veículos automotores e equipamentos eletrônicos.

PIB acumulado nos quatro trimestres recua 0,9%

O PIB acumulado nos quatro trimestres terminados no primeiro trimestre de 2015 recuou 0,9% em relação aos quatro trimestres imediatamente anteriores. Esta taxa resultou da contração de 0,7% do Valor Adicionado a preços básicos e do recuo de 1,9% nos Impostos sobre Produtos Líquidos de Subsídios. O resultado do Valor Adicionado decorreu dos seguintes desempenhos: Agropecuária (0,6%), Indústria (-2,5%) e Serviços (-0,2%).

Dentre as atividades industriais, apenas a Extrativa Mineral (10,3%) cresceu. A atividade de Eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana caiu 7,3%, seguida pela Indústria da Transformação (-5,6%) e pela Construção civil (-4,0%).

Nos Serviços, o destaque foram Serviços de informação (3,6%) e Atividades imobiliárias (3,0%). Outros serviços (-0,1%) manteve-se praticamente estável. Já as demais atividades recuaram: Comércio (-3,8%),Transporte, armazenagem e correio (-0,4%), Intermediação financeira e seguros (-0,3%) e Administração, educação pública e saúde pública (-0,2%).

Na análise da despesa, a Formação Bruta de Capital Fixo caiu 6,9%, mas a Despesa de Consumo das Famílias (0,2%) e a Despesa de Consumo do Governo (0,4%) cresceram. Já no âmbito do setor externo, tanto as Exportações quanto as Importações de Bens e Serviços apresentaram queda: -1,0% e -2,5%, respectivamente.

PIB no primeiro tri de 2015 chega a R$ 1,408 trilhão

O Produto Interno Bruto no primeiro trimestre de 2015 totalizou R$ 1,408 trilhão, sendo R$ 1,199 trilhão referentes ao Valor Adicionado a preços básicos e R$ 209,0 bilhões aos Impostos sobre Produtos líquidos de Subsídios.

A taxa de investimento no primeiro trimestre de 2015 foi de 19,7% do PIB, abaixo do observado no mesmo período do ano anterior (20,3%). A taxa de poupança foi de 16,0% no primeiro trimestre de 2015 (ante 17,0% no mesmo período de 2014).