'Clarín': Os futuros possíveis do preço do petróleo

Mudanças geopolíticas no Oriente Médio e nova política petrolífera saudita vão causar impacto

O jornal argentino Clarín publicou neste domingo (24/05) um artigo do colunista Felipe de la Balze com uma análise do mercado de petróleo no mundo. “O preço internacional do petróleo (que registrou uma média de US$ 100 o barril entre 2011 e 2014) despencou 59% entre junho de 2014 e março deste ano. Os preços insinuaram uma recomposição durante as últimas oito semanas flutuando em uma faixa de entre US$ 60 e 65 por barril”, escreve ele.

Ele prossegue: “A história dos preços do petróleo durante o século XX ajuda a entender os sucessos atuais. Os períodos de abundância (com preços baixos) e os de escassez (com preços altos) se sucederam repetidamente. O petróleo foi caro e escasso durante as duas guerras mundiais e quando países grandes e importantes como os Estados Unidos (na década de 1920) ou a China (na década de 2000) aceleraram seus processos de industrialização e urbanização.

Também foi vivida a escassez e os preços altos quando foi organizado o cartel de produtores de petróleo (Opep) durante a década de 1970 e quando guerras pontuais afetaram a capacidade exportadora de produtores relevantes, como por exemplo, Iraque ou Irã”.

“Os períodos de abundância seguem os períodos de escassez, assim como o dia segue a noite. Os preços altos no curto prazo desencorajam o consumo e podem reduzir a taxa de crescimento da economia mundial. No entanto, em um horizonte mais extenso, a alta de preços atrai investimentos e promove a exploração e as inovações tecnológicas que aumentam a produção e criam as bases para uma posterior queda dos preços. Os preços baixos beneficiam tanto os consumidores como as empresas que usam o petróleo como insumo.

Em um horizonte mais extenso, os preços baixos refletem a capacidade de investimento dos países exportadores que dependem do petróleo para financiar seus orçamentos.Além disso, os preços baixos reduzem a rentabilidade empresarial e comprimem os investimentos em exploração e desenvolvimento dos campos petroleiros.

Estes comportamentos criam as bases para una futura escassez e um posterior aumento dos preços.

O mercado atual está com excesso de oferta, os estoques aumentaram e as empresas petrolíferas reduziram seus investimentos. Nos Estados Unidos, as equipes de perfuração foram reduzidas em quase 1600 em meados do ano passado para menos de 700 atualmente. A preços abaixo dos US$ 60 por barril, o boom do petróleo não convencional (o “shale oil”, petróleo de xisto) poderia perder uma parte substancial de sua vitalidade.

O que ocorreu no ano passado no mercado do petróleo foi o resultado de mudanças previsíveis na demanda e oferta mundial.Os preços altos dos últimos anos geraram aumentos na produção de petróleo, principalmente nos Estados Unidos, que aumentou sua produção diária de 6,5 milhões de barris em 2007 para quase 9,5 milhões nos últimos meses.

Simultaneamente, a redução no crescimento econômico chinês, de 10% em média nas últimas décadas a aproximadamente 7% atualmente (somado ao efeito restritivo dos altos preços sobre o consumo), incrementou os estoques de petróleo e pressionou os preços para baixo.

O comportamento do mercado foi afetado pela decisão política da Arábia Saudita (o maior exportador mundial de petróleo) de manter seus níveis de produção apesar da queda de preços. A Arábia Saudita se propôs a aumentar sua participação no mercado mundial em detrimento de competidores que aumentaram sua produção durante a última década (principalmente as empresas norte-americanas de “petróleo de xisto” e as petrolíferas russas).

A nova política petrolífera da Arábia Saudita se sustenta em duas premissas. A primeira, aproveitar seus baixíssimos custos de produção para sustentar e talvez incrementar sua participação na oferta mundial em detrimento dos produtores de maior custo.

A segunda, colocar um teto à alta excessiva nos preços para impedir que as tendências tecnológicas e regulatórias atuais potencializem um estancamento na demanda petroleira afetando no longo prazo os rendimentos, a fortuna e a relevância estratégica da Arábia Saudita.

As tendências de fundo são claras. O temor em relação às consequências da mudança climática e o aquecimento global impulsionam novas políticas públicas e regulamentações que promovem a redução do consumo de petróleo na matriz econômica mundial. Além disso, muitos países oferecem subsídios para o desenvolvimento das chamadas energias alternativas (solar, eólica e outras) que substituem o petróleo e que são percebidas como uma concorrência desleal pelos países do Golfo.

As mudanças tecnológicas em curso (fundamentalmente as melhorias na eficiência energética do parque automotivo, o lento mas talvez inexorável auge dos carros elétricos e a introdução de tecnologias mais eficientes no uso da energia na geração elétrica, a logística e a calefação e o ar condicionado) estão comprimindo a taxa de crescimento da demanda por petróleo.

A aproximação dos Estados Unidos ao Irã em matéria de negociações sobre o desenvolvimento nuclear iraniano também contribui a modificar o roteiro saudita. A reintrodução do Irã ao sistema mundial cria angústia e mal-estar em Riad e fragiliza as ataduras estratégicas (com os Estados Unidos) que no passado limitaram as margens de manobra do governo saudita no mercado petrolífero mundial.

Para a Arábia Saudita (líder mundial do islamismo sunita), o Irã (líder do islamismo xiita) é o principal adversário regional e seus interesses religiosos, políticos e militares se enfrentam, como o confirmam as guerras civis que devastam a Síria e o Iêmen atualmente e onde as duas potências regionais se enfrentam através das partes interpostas”, escreve o colunista.

“Em relação ao preço futuro do petróleo, me animo a prognosticar com certeza e ironia que ‘haverá altas e haverá baixas’. O que podemos vaticinar é que as mudanças geopolíticas que estão ocorrendo no Oriente Médio e a nova política petrolífera da Arábia Saudita vão causar impacto nos preços futuros do ouro negro”, conclui o artigo do Clarín.