A agência norte-americana Bloomberg publicou um editorial onde analisa a atual situação econômica brasileira, afetada pelos escândalos desencadeados pela Operação Lava Jato."A lei anticorrupção proposta pela presidente brasileira Dilma Rousseff vai ajudá-la a conter o estrago causado pela investigação de um esquema de corrupção, mas uma melhor resposta seria a de simplesmente não obstruir o caminho do ministro da Fazenda, Joaquim Levy", diz o texto.
"Isso porque o desafio principal de Rousseff não é simplesmente o escândalo da Petrobras, que implicou uma série de políticos e executivos na empresa estatal. Também está restaurando a confiança pública em sua habilidade para administrar a economia e o orçamento do Brasil".
O editorial destaca os altos e baixos do Brasil: "Espera-se que a economia do Brasil encolha em cerca de 0,8% este ano. A inflação é a mais alta em mais de uma década. A expectativa é de que o desemprego alcance sua maior alta em quatro anos este ano. Os preços do petróleo em queda, entretanto, cortaram os rendimentos do governo, promessas no ano eleitoral elevaram o déficit fiscal, e a dívida pública subiu acima de 60% do produto interno bruto (PIB).
Mesmo antes do escândalo da Petrobras começar a jorrar, Rousseff estava enfrentando problemas políticos. Dilma foi reeleita por uma magra margem de 3% e sua maioria na coalizão na câmara dos deputados está cada vez mais em litígio. Defender medidas de austeridade num ambiente tão tóxico não seria fácil para qualquer líder - especialmente quando essas medidas vão contra as promessas de campanhas e afastam os apoiadores mais fundamentais.
É aí que entra Levy. Um antigo economista do Fundo Monetário Internacional (FMI) com Ph.D. da Universidade de Chicago que serviutrabalhou como secretário do tesouro para o antecessor de Dilma Rousseff, Levy ganhou o apelido “Mãos de Tesoura” pelo seu jeito de cortar gastos. Num esforço para restaurar a confiança do investidor e evitar que as agências de classificação de crédito baixem a dívida do Brasil para o status de ‘especulativo’, ele propôs uma mistura de aumentos de taxas e cortes do orçamento. Ajuda o fato de que as políticas fiscais e monetárias do Brasil estão agora em sincronia, com o Banco Central tendo elevado sua taxa de referência para 12,75% visando uma inflação mais domesticada. E muitas das medidas propostas por Levy podem ser aprovadas sem a o consentimento do congresso.
Porém, não é que Dilma Rousseff tenha se tornado adepta da austeridade e abandonado seu estilo estatizante, ou que os legisladores tenham desistido de gastar. Um iminente voto ameaça estender um ajuste nas políticas de salário-mínimo do Brasil para suas pensões já generosas, um prêmio que poderia afetar os planos de Levy de construir um superávit orçamentário.
Rousseff precisa dar total apoio a Levy. Ela própria também poderia tomar a iniciativa. Por exemplo, seu governo poderia fazer contratos para construir e manter portos, pontes e estradas mais atraentes para investidores privados - um jeito para superar a escassez de financiamento e melhorar estradas que, em certa medida, chegam a ser piores do que as do Bangladesh. E poderia baixar tarifas e expandir a cooperação comercial e econômica com a União Europeia e os EUA - como Levy prometeu fazer em uma reunião com autoridades norte-americanas".
"Alimentados pelo boom das commodities, os sete anos de abundância no Brasil terminaram em uma onda negra de corrupção. Melhores leis e o cumprimento das mesmas podem tornar menos possível outro escândalo da Petrobras. Uma política fiscal mais disciplinada e prudente pode garantir que as repercussões do escândalo na economia não apaguem os ganhos que o Brasil obteve ao longo da última década", conclui o editorial da Bloomberg