'The Economist': Dilma muda o curso

Indicação de equipe econômica hábil é boa para o Brasil mas sinaliza fragilidade da presidenta

A revista britânica The Economist publicou nesta sexta-feira (28/11) um artigo onde analisa a escolha da nova equipe econômica brasileira. "Em  2005 houve um debate fervoroso entre as duas figuras mais poderosas no governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Antonio Palocci, o ministro da Economia, propôs aproveitar o crescimento econômico acelerado para eliminar o persistente déficit fiscal — e assim baixar suas exorbitantes taxas de juros — ao segurar o aumento nos gastos do governo. Mas Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil de Lula, achou o plano de Palocci “rudimentar” e o vetou. Em 2011, ela se tornou a sucessora de Lula, implementando um “novo modelo econômico” que colocou o emprego pleno e os aumentos salariais à frente do rigor macroeconômico", diz a matéria.

"O rigor orçamental voltou a assombrar Dilma, que ganhou o direito a governar por um segundo mandato no mês passado, com a menor das margens. Ela anunciou Joaquim Levy, um dos representantes de Palocci em 2005, como seu novo ministro da Fazenda. Nelson Barbosa, o economista mais competente no PT assume o Ministério do Planejamento. Levy é um economista que estudou em Chicago e nos últimos tempos era diretor-superintendente do Bradesco Asset Management; sua indicação foi bem recebida pelos investidores. Parece que Dilma finalmente admitiu seu erro cometido até há pouco na escolha dos caminhos econômicos", continua o artigo.

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"Ela ganhou a eleição apontando o emprego pleno no Brasil e o aumento contínuo nos rendimentos reais. Mas essas proezas foram conseguidas ao hipotecar o futuro. Apesar do crescimento medíocre, a maioria dos indicadores econômicos do Brasil se moveram para a direção errada com Dilma. A inflação supera 6%, bem acima da meta de 4,5% do Banco Central, mesmo apesar do governo ter segurado os preços da energia. A confiança do consumidor é a mais baixa dos últimos seis anos. O déficit das contas correntes cresceu a 3,7% do PIB e o real tem se enfraquecido. 

A maior preocupação é a de que a situação fiscal se deteriorou em 3 a 4% do PIB nos últimos três anos. 

Tendo errado por um quilômetro seu alvo para um superávit primário (antes dos pagamentos de juros) de 1,6% do PIB e assim violado a Lei de Responsabilidade Fiscal, o governo estava cinicamente tentando persuadir o Congresso a mudar as regras para fingir que as cumpriu. Agências de classificação se queixam que se o Brasil continuar assim perderá sua classificação de crédito em grau de investimento.

Então a primeira tarefa da nova equipe é a de restaurar a credibilidade da política econômica. Isso significa reafirmar o compromisso do Brasil ao “tripé”  de antes de 2010 — com política monetária independente, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante. Também significa apertar o orçamento. Para minimizar o impacto nos empregos, Barbosa disse que isso deve acontecer gradualmente e deve focar no controle do contínuo aumento  nos gastos sociais.

Mas quanto tempo terá a nova equipe? Observadores do mercado esperam que o Banco Central, cujo presidente, Alexandre Tombini, está inclinado a mostrar sua independência, defenda a meta de inflação aumentando a taxa de juros de referência, que já está em 11.25%. Esse aperto monetário virá quando uma política fiscal se tornar contracionária e o governo restringir empréstimos excessivos dos bancos estatais. O principal trabalho de Barbosa deve ser o de implementar um programa de choque visando atrair investimento privado para a infraestrutura. Ainda assim, o crescimento cairá no início e poderá não se recuperar por um ano ou dois", alerta a The Economist.

"Se a nova equipe terá êxito, Dilma não só terá que deixar que ela faça seu trabalho sem a interferência que houve em seu primeiro mandato. Ela também terá que  defender um programa econômico que será impopular a curto prazo— especialmente em seu próprio partido. De fato, o programa está mais próximo daquele de seu adversário derrotado, Aécio Neves, do que o programa que apresentou em sua campanha. (Aécio comparou a indicação de Levy a um homem da CIA assumindo a KGB.) A  presidenta terá o apoio de uma maioria menor e mais flexível no novo Congresso do que aquela a que foi acostumada. Congressistas brasileiros costumam pedir verbas para gastos com assistencialismo em troca de seus votos, e isso pode dificultar o trabalho da nova equipe econômica.

Há uma nuvem política ainda mais escura em seu horizonte. Promotores brasileiros e reguladores americanos estão apresentando acusações de que propinas de bilhões de dólares foram dadas ao PT e a políticos aliados vindos de contratos estabelecidos pela estatal Petrobras. O que faz isso ser tão nocivo a Dilma Rousseff é que ela presidiu Conselho de Administração da Petrobras durante a maior parte do tempo. Que ninguém acredite que ela seja pessoalmente envolvida em corrupção talvez não impeça que se tente um pedido de impeachment contra ela, apesar disso parecer improvável.

Nenhum presidente moderno brasileiro enfrentou um ponto de partida tão fraco. Ela tentou afastar isso ao escolher a equipe econômica mais forte que os brasileiros poderiam razoavelmente esperar. Já é pelo menos um começo", conclui o artigo.

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