A fuga do Fed de Nova York

O Project Syndicate publicou nesta terça-feira (25/11) um artigo sobre o Fed: “O Federal Reserve é o banco central mais importante do mundo. Suas decisões sobre taxas de juros e regulamentação financeira reverberam nos mercados mundiais e afetam milhões de vidas. Ainda assim, sua estrutura de governança parece pertencer a outra época - é antiquada, cada vez mais problemática e precisa urgentemente de uma sensível reforma”, escreve o economista Simon Johnson.

Ele prossegue sua análise: “O Fed cometeu grandes erros no período anterior à crise econômica mundial de 2007 e 2008, mais notavelmente ao adotar uma abordagem complacente na supervisão de instituições financeiras importantes e ao permitir que alguns bancos muito grandes se tornassem extremamente frágeis. Em uma das grandes ironias da política moderna norte-americana, as reformas financeiras Dodd-Frank pós-crise, em 2010, na verdade deram mais poder ao Fed, em grande parte por considerar que as demais agências reguladoras dos Estados Unidos haviam feito um trabalho pior.

Tendo em conta o histórico decididamente ambíguo do Fed desde as reformas Dodd-Frank, algumas autoridades consideraram a decisão do Congresso uma autorização para seguir atuando como sempre. Recentes notícias destacaram lapsos na supervisão, dentro e em torno do Fed regional de Nova York - um dos 12 bancos regionais do Sistema do Fed, que também conta com um Conselho de Governadores, em Washington, capital do país.

Essa estrutura regional é resultado de um compromisso legislativo de 1913, quando o Fed foi criado, e de decisões em meados dos anos 1930, quando sua governança foi reestruturada pela última vez. Enquanto os membros do Conselho de Governadores do Fed, em Washington, são escolhidos pelo presidente dos EUA e sujeitos a confirmação pelo Senado, os presidentes dos Feds regionais são indicados por conselhos locais”.

“Na realidade, o Fed de Nova York sempre teve influência desproporcional; nem todos os presidentes dos Feds regionais são criados da mesma forma. O presidente do Fed de Nova York é membro permanente com direito a voto no Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), que define as taxas de juros, enquanto os demais presidentes dos Feds regionais são membros com direito a voto em caráter rotativo.

O Fed de Nova York também tem um papel particularmente importante na supervisão dos bancos - a maioria dos bancos "grandes demais para falir" dos EUA está sob sua jurisdição (e a maioria dos bancos internacionais tem presença em Nova York). E, há muito, o Fed de Nova York serve como olhos e ouvidos do Sistema do Fed em Wall Street”, escreve o economista.

“Ou, talvez, tenha passado a ser do outro jeito. Nos últimos dez anos, as autoridades do Fed de Nova York se posicionaram ao lado dos interesses dos bancos muito grandes (que fique claro, também conheço muitas autoridades do Fed que são servidores públicos excepcionais). Embora os interesses de Wall Street há muito estivessem bem representados no conselho do Fed de Nova York, sob o comando de Timothy Geithner, seu presidente de 2003 a 2009, os grandes nomes do setor tornaram-se ainda mais poderosos - com consequências infelizes para nós”, diz o artigo do Project Syndicate.

“Em seu recente livro de memórias,  "Stress Test", Geithner diz: "Basicamente, devolvi o conselho do Fed de Nova York a suas raízes históricas, na forma de uma lista de elite do establishment financeiro local". Suas escolhas incluíram Dick Fuld, executivo-chefe do Lehman Brothers, que errou espetacularmente em setembro de 2008, e Stephen Friedman, membro do conselho do Goldman Sachs, que renunciou à presidência do conselho do Fed de Nova York depois de ser acusado de operações inapropriadas com ações do Goldman Sachs durante a crise financeira. Geithner também estabeleceu uma rede intrincada de conexões entre o Fed de Nova York e o JPMorgan Chase, algumas das quais perduram até hoje.

Algumas autoridades do Fed se irritam quando são pressionadas sobre essa situação. Mas a legitimidade do Fed - e sua capacidade para promover políticas sensatas - não é ampliada nem um pouco por ter grandes bancos representados, direta ou indiretamente, em um conselho que escolhe e supervisiona um fundamental decisor de políticas monetárias.

Agora, finalmente, políticos dos EUA tanto de esquerda quanto de direita, concentraram suas atenções na tão necessária reforma de governança do Fed. Uma proposta importante é a do senador Jack Reed, democrata de Rhode Island, que propõe de forma bastante razoável, que o presidente do Fed de Nova York deveria ser indicado pelo presidente e confirmado pelo Senado, assim como os demais membros do Conselho de Governadores - ou qualquer outra autoridade econômica importante. O presidente do Fed de Nova York também teria de falar regularmente em audiências no Senado”, escreve Johnson.

“Os defensores do Fed vão responder que seria perigoso alterar o status quo. Mas é a governança atual do Fed que se tornou perigosa. Os senadores Elizabeth Warren, de Massachusetts, e Joe Manchin, da Virgínia Ocidental, argumentam, de forma plenamente convincente, que a composição do Conselho de Governadores do Fed não deveria inclinar-se a pessoas relacionadas a grandes firmas de Wall Street.

Enquanto isso, os deputados republicanos preparam suas próprias reformas de governança do Fed, que seriam ainda mais radicais - e provavelmente restringiriam a política monetária de maneira imprudente.

De qualquer forma, é hora de mudanças no Fed. E, como costuma ser o caso em finanças, o lugar para se começar é Nova York”, encerra o economista.

Simon Johnson, professor do MIT Sloan, foi economista-chefe do FMI e é cofundador do blog sobre economia www.BaselineScenario.com, membro sênior do Instituto Peterson para Economia Internacional e coautor com James Kwak de "White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You"