'The Economist': Uma economia ferida

A Rússia está mais perto da crise do que percebem o ocidente ou Vladimir Putin

A revista britânica The Economist publicou neste sábado (22/11) um artigo em que analisa o atual cenário político e econômico da Rússia. “Vladimir Putin tem vários problemas, muitos criados por ele mesmo. Há o massacre no leste da Ucrânia, onde ele continua a agitar tudo. Há também suas relações conturbadas com o ocidente, onde até mesmo a Alemanha tem se voltado contra ele. Há uma insurreição islâmica em suas fronteiras. E em casa, cada vez mais pessoas se queixam e duvidam do bom senso de sua política na Ucrânia. Mas um problema poderia ainda eclipsar tudo isso: a economia ferida da Russia pode cair numa crise”, diz a matéria.

“Algumas das doenças da Russia são bem conhecidas. Sua economia alimentada a petróleo acelerou com os crescentes preços de energia. Agora que o petróleo caiu, de uma média de quase US$ 110 o barril na primeira metade do ano para abaixo de US$ 80, a Russia está sofrendo. Mais de dois terços das exportações vêm da energia. O rublo caiu 23% em três meses. As sanções do ocidente também causaram dor, já que os banqueiros aplicaram as restrições não só aos companheiros de Putin, mas a uma gama bem maior de negócios russos. De forma mais geral, anos de cleptocracia tiveram um efeito corrosivo na região. Grande parte da riqueza do país foi dividida entre os amigos de Putin.

Todo mundo espera uma estagnação contínua, mas há um senso comum de que Putin é forte o suficiente para suportar isso. O rublo em rota de queda tornou algumas indústrias de exportação, como a agricultura, mais competitivas. Essas exportações combinadas ao bloqueio de importações, como contra-sanção de Putin, significam que a Rússia ainda tem um pequeno superávit comercial. Possui reservas cambiais, de cerca de US$ 370 bilhões segundo números do Banco Central. Somado a isso há a resistência do povo russo, que também está inclinado a botar a culpa nos estrangeiros pela  privação, e a análise de Moscou é a de que Putin tem tempo para manobrar. As pessoas falam abertamente em algo em torno de dois anos”, revela o artigo da revista The Economist

“Na verdade, a crise poderia acontecer bem antes. As defesas russas são mais fracas do que parecem e elas poderiam ser testadas por qualquer uma de uma sucessão de possibilidades— outra queda do preço do petróleo, uma fracassada negociação da dívida por empresas russas, mais sanções dos países ocidentais. Quando economias se encontram num curso insustentável, as finanças internacionais costumam agir como um botão de aceleração, pressionando os países ao limite mais rapidamente do que os políticos ou investidores esperam.

A preocupação imediata é o preço do petróleo. Putin está confiante de que ele vai se recuperar.  Mas o fornecimento parece pronto para aumentar, com a OPEC interessada em defender sua parte no mercado. Agências do governo norte-americano preveem que os preços do petróleo podem atingir uma média de  US$ 83 por barril em 2015, bem abaixo dos US$ 90, nível que a Rússia precisa para evitar a recessão (e para manter o equilíbrio de seu orçamento). Se a demanda global enfraquece — o Japão caiu na recessão desde a última rodada de projeções — o preço do petróleo poderia cair mais tarde. Isso impeliria imediatamente os investidores a reavaliar as perspectivas da Rússia.

E também há os reembolsos da dívida. As empresas russas têm mais de US$ 500 bilhões em dívida externa pendente com US$ 130 bilhões dela pagável antes do final de 2015, num momento em que poucos bancos ocidentais querem aumentar a exposição à Russia. Até firmas que obtêm receitas em dólar podem lutar para pagar suas dívidas. Rosneft, uma gigante do petróleo, pediu recentemente um empréstimo ao Kremlin de US$ 44 bilhões. Putin resistiu até agora, mas ele não pode deixar falir uma empresa que é 70% controlada pelo estado e emprega 160 mil pessoas. Há um alongamento da fila de empresas russas em apuros. Empréstimos improdutivos estavam subindo mesmo antes das taxas de juros terem sido aumentadas a 9.5% para defender o rublo. Entretanto os bancos russos dependem do banco central para substituir depósitos que seus clientes estão compreensivelmente trocando por dólares.

Direta ou indiretamente, muitas dessas contas vão acabar nas mãos do Kremlin, o que torna suas reservas vitais para o futuro. Elas estão evaporando: para abaixo de US$ 100 bilhões no ano passado, seguindo tentativas fracassadas de  defender o rublo. E a contabilidade é suspeita. Dos relatados US$ 370 bilhões de reserva, mais de US$ 170 bilhões estão nos dois fundos soberanos do país. 

Alguns de seus recursos estão hesitantes, incluindo várias participações nos bancos estatais russos e a dívida criada pela Ucrânia que a agressão de Putin está rapidamente tornando inútil. Um dos fundos está marcado para pensões. Na realidade, o governo da Rússia tem talvez US$ 270 bilhões em dinheiro vivo que é acessível e utilizável sem enormes cortes  em outras áreas — menos do que suas obrigações externas  devidas nos próximos dois anos.

Tudo isso significa problema para a Russia, mas a política externa saqueadora de Putin poderia acelerar as coisas. Afinal de contas, é um homem que invadiu outros países e mentiu a respeito disso. Uma incursão mais profunda na Ucrânia levará a sanções mais severas dos países ocidentais. Algumas delas, como excluir os bancos russos da SWIFT, o sistema global de comunicações bancárias, poderiam frear todo o mercado russo. Um bloqueio parcial nas exportações de petróleo provocariam uma queda da economia, como aconteceu com o Irã. E quanto mais problemas ele enfrenta, mais se torna provável que Putin lançará a cartada nacionalista — e isso significa mais incursões em países estrangeiros, e contudo, mais sanções.

“A maior crise recente da Rússia, em 1998, levou a uma moratória decretada pelo governo. Desta vez um string de falências de bancos, inadimplências de empresas e uma profunda recessão parecem mais prováveis. Ainda assim a dor provocada pode se espalhar no exterior rápido, tanto para países que dependem do comércio com a Rússia  (exportações para a Rússia totalizam 5% do PIB dos Bálticos e da Bielorússia) e através de efeito cascata financeiro. Bancos tanto na Áustria quanto na Suécia estão expostos. E se as empresas em um país movido pelas commodities e mal administrado começam a dar calote em suas dívidas em dólar, então os investidores vão começar a se preocupar com outros — como o Brasil.

Se a economia da Rússia parece que vai entrar em colapso, deve haver apelos inevitáveis no ocidente para que as sanções sejam cortadas. Esta semana Putin ressaltou  que 300 mil empregos alemães dependem do comércio com seu país. Mas Angela Merkel corretamente, se manteve firme”, elogia a revista inglesa. 

“Putin deve finalmente aprender que ações têm consequências. Invada outro país que o mundo agirá contra você. E o mesmo acontece com a economia também. Se Putin tivesse gastado mais do seu tempo reforçando a economia da Rússia do que enriquecendo seus amigos, ele não estaria tão vulnerável hoje” conclui o artigo da The Economist.