O jornal argentino El Cronista publicou nesta quinta-feira (6/11) um artigo trazendo uma análise dos possíveis cenários para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. O jornalista Jorge Vasconcelos fala sobre como a política econômica brasileira deverá influenciar a Argentina.
“Três cenários se abrem à espera das decisões de Dilma e de sua capacidade de tecer alianças no Congresso, às vésperas de seu segundo mandato. O primeiro é ‘mais do mesmo’, que por momentos tem dominado as expectativas e derrubado as cotações na bolsa. O segundo é o de uma política fiscal mais austera, que daria oxigênio provisório aos mercados, mas seria incompleto como programa econômico. O terceiro cenário inclui o segundo, mas lhe agrega um vetor chave vinculado com a busca de maior inserção na região e na economia mundial, o que implica uma reformulação a fundo do Mercosul e um desafio de maior competitividade para o complexo industrial”, diz o artigo.
Vasconcelos prossegue: “Considerando para os próximos cinco anos um avanço do PIB mundial a um ritmo de 3,5% anual, se o governo brasileiro se inclinar por ‘mais do mesmo’, então poderia se esperar para a economia do país vizinho um crescimento bastante abaixo da média global. Com o segundo cenário, talvez o Brasil possa aspirar, por algum tempo, a atingir o patamar de 3 a 3,5 % anual. Só uma reformulação do caráter extremamente fechado da economia brasileira lhe permitiria aspirar a um crescimento superior à média mundial, com o qual poderia começar a convergir com os países mais desenvolvidos”.
“O PIB brasileiro representa 3,3% do PIB mundial, mas suas exportações respondem somente por 1,3% do mercado global. O que evita que essa lacuna seja ainda maior são as vendas ao exterior de produtos como a soja, carne, aço, celulose, onde o Brasil ocupa o primeiro lugar do ranking.
O problema está na falta de competitividade do setor fabril. As exportações industriais do Brasil somam somente US$ 525 por habitante, enquanto as do México alcançam US$ 2.320 e as da Coréia US$ 9.140, sempre por ano e por habitante”, observa o jornalista do El Cronista.
“O Brasil divide com a Argentina uma expansão antecipada do conglomerado industrial, à luz do fenômeno da substituição de importações. E agora, que o desenvolvimento da indústria transformadora está cada vez mais associado à integração de redes globais de valor, se enfrentam numerosas dificuldades para se integrar. Muitos investimentos foram realizados apontando somente ao mercado interno o que, através de planejamento, tecnologia ou escala, não facilita a saída ao exterior. Não se trata de um destino inevitável. A bem sucedida Embraer é o contra-exemplo mais nítido. Mas seus êxitos se apóiam em um funcionamento mais parecido com o modelo coreano do que com o brasileiro: integra uma cadeia de valor na ponta da tecnologia, e cada avião que exporta contém ao menos 75% de insumos e peças importadas”, escreve Vasconcelos, e indica um caminho:
“Para replicar e multiplicar o caso Embraer, a indústria necessita encarar um processo de reconversão, com uma política econômica que desloque o centro de gravidade a favor de uma conexão mais intensa do mercado interno com a região e com o resto do mundo, ativando acordos comerciais que hoje caminham lentamente (com a União Europeia) ou que foram somente planejados nos papéis (Nafta, Aliança do Pacífico, etc). Obviamente, na medida em que as prioridades avançam nesta direção, a agenda interna de reformas terá de ser construída através do senso comum, já que para obter êxito dentro de una cadeia global se requer uma infra-estrutura à altura, um equilíbrio razoável entre pressão impositiva e serviços prestados pelo estado e maior ênfase na formação dos recursos humanos. São as condições básicas para desatar a inovação e a produtividade que, é claro, como levam tempo, permitem também definir um caminho gradual para as novas regras do jogo”.
O artigo cita que os desafios não são menores, “mas na medida em que se tenha um diagnóstico realista da situação em torno de Dilma, a relação custo-benefício dos três caminhos formulados deve pesar a favor do terceiro. De qualquer forma, faltam sinais para poder apostar nessa direção. O cenário em busca de uma maior inserção internacional, na realidade, já foi testado pelas empresas brasileiras mais dinâmicas. Existem umas 200 empresas que são verdadeiras multinacionais, que expandiram de maneira notável a presença no exterior na última década. O estoque de capital investido por essas multinacionais no resto do mundo alcança atualmente cerca de US$ 300 bilhões, espalhados nos principais países da América Latina, nos Estados Unidos, na África com base na Angola, na Europa com base em Portugal. Neste terreno, o Brasil supera claramente o México, cujas multinacionais somam investimentos no exterior em cerca de US$ 140 bilhões”.
Vasconcelos prossegue: “A implantação dos investimentos contrasta com a escassa penetração dos produtos made in Brasil. Considerando a região e focalizando em bens industriais, são de origem brasileira só 5% dos produtos importados por Peru, Colômbia e Chile, para mencionar três membros da Aliança do Pacífico.
Com o México à espreita no comércio exterior e a China lado a lado nos investimentos, qual haverá de ser a reação brasileira? O cenário ‘mais do mesmo’, com deterioração adicional no âmbito macro e micro, seria um sério obstáculo para o desenvolvimento de suas multinacionais. O segundo teria menos contras, mas ajudaria muito pouco. O terceiro permitiria uma maior sinergia entre investimentos e comércio exterior, na América Latina e no resto das regiões. O momento para estas decisões é agora e é Dilma quem deve enfrentar a bifurcação de caminhos”.
O jornalista conclui: “A Argentina não deveria ser um espectador passivo desses acontecimentos. Com US$ 650 de exportações industriais por habitante, o diagnóstico para nosso país é semelhante ao do vizinho do Mercosul, só que agravado em itens como a inflação, a política mudaria e as restrições ao comércio.
Em outras épocas, nosso país soube estimular a diplomacia brasileira ao tecer alianças com países como México e Chile. As condições internas não são as melhores, dada a mudança de governo prevista para o final do próximo ano. Mas ao menos, as principais bancadas legislativas poderiam enfrentar o problema.
Visto do lado argentino, o cenário de ‘mais do mesmo’ para o Brasil é o que menos promete em termos de exportações ao vizinho e o que mais traria complicações ao macro local. O segundo cenário tem a vantagem de não agregar fatores exógenos de desestabilização, mas é pouco promissor em termos de ampliar e aprofundar cadeias de valor no centro do Mercosul. Além disso, nesse caso é a Argentina quem deveria tomar a iniciativa na busca de novos acordos comerciais. O terceiro cenário é o mais desafiante, porém seria sem dúvidas o mais frutífero e nosso país não deveria ter dúvidas em assumi-lo conjuntamente. As empresas poderiam dispor de tempo para adaptar-se e os governos deixarão de ter saudades dos dias em que a soja valia 650 dólares a tonelada”.