Seja qual for o desfecho da crise política que paralisou o governo federal dos EUA com o risco de uma falência histórica, já há um dano irreparável: a imagem de ilegalidade e ansiedade da nação mais poderosa do mundo. A afirmativa é do jornal espanhol El Paìs (Madri), que publica nesta terça-feira (15/10) uma matéria especial sobre a crise fiscal no país. Segundo o veículo, mesmo com um acordo de última hora para minimizar a grande catástrofe, a estabilidade econômica global continuará ameaçada pela constante incerteza sobre a capacidade dos líderes políticos americanos de arcar com seus próprios orçamentos.
Os mais belos monumentos do país, a Estátua da Liberdade, o Grand Canyon e Mount Rushmore, foram reabertos graças ao dinheiro doado pelos estados que os abrigam. Duas leis de emergência asseguraram que 800 mil funcionários desempregados que cobram os salários retroativos e também as famílias de soldados mortos neste período de inatividade, possam receber os seus benefícios a que têm direito. Outras medidas paliativas emergências foram autorizadas, como o retorno ao trabalho dos funcionários do Pentágono e de outros departamentos ligados diretamente à segurança nacional. Porém, serviços básicos como atendimento médico, inspeção de alimentos e as atividades nos tribunais federais continuam paralisadas e, no decorrer desta semana, a coleta de lixo na cidade de Washington pode ficar prejudicada até o seu orçamento ser aprovado no Congresso. A matéria compara esse processo com "o abismo da falência", que representa uma gravidade muito maior e sua evolução é imprevisível, até por ser uma situação inédita. O Departamento do Tesouro advertiu que a partir de meia-noite desta quarta-feira (16/10), vai ficar sem dinheiro para sanar as dívidas e não se deve ter pressa alguma para efetuar pagamentos pendentes.
A reportagem informa que nos últimos dias há um grande movimento no Capitólio, em busca de um acordo, mas sem resultados. Após conversar com os líderes políticos das casas e de intensas negociações na Câmara dos Deputados e no Senado, o presidente Barack Obama ensaiou uma nova convocação dos democratas e republicanos nesta segunda-feira (14), para tentar dar fim à crise, mas resolveu aguardar os esforços dos senadores.
O El Paìs questiona: "o que Obama pode oferecer daquilo que os republicanos argumentam?". A matéria destaca que o presidente norte-americano disse no início que não havia nada para negociar até que os republicanos que controlam a Câmara, administrassem a reabertura do teto da dívida para evitar a inadimplência. Posteriormente, ele concordou com este tipo de contato que a Casa Branca está relutante em chamar negociações. O jornal ressalta ainda que, em cada uma dessas conversas, ficou claro que a oposição quer algo em troca para o fim da crise, esperando que o resultado não seja interpretado como uma derrota republicana completa. O ideal, segundo o El Paìs, "é fazer da necessidade uma virtude", eles exploraram esta situação para alcançar um amplo consenso sobre a incerteza no orçamento, pelo menos por um ano. "Algo nesse sentido estava sendo tratado no Senado, onde os democratas são maioria. Mas um acordo desse tipo exige posições mais próximas sobre impostos e gastos, questões onde os outros já estão em desacordo", destaca o texto do jornal.
A matéria faz uma avaliação de essa solução "não ideal", parece inevitável e uma falsa partida para estender recursos orçamentários e a crise de Ação de Graças até o Natal. "Mesmo esta solução é complicada, sem que uma das duas partes pague preço político elevado. Mas é claro que é uma saída para que, não só abriria o alarme internacional", destaca a reportagem do El Paìs.