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Espionagem aumenta desvantagem de empresas brasileiras no pré-sal

Acesso da NSA a informações da Petrobras reduz ainda competitividade da petrolífera

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O caráter das informações da Petrobras obtidas pela Agência de Segurança Nacional (ANS) americana ainda é incerto, mas especialistas atestam que a ação impacta, sim, o próximo leilão do pré-sal, do campo de Libra, que será realizado em 21 de outubro. Tanto a Petrobras quanto empresas brasileiras que participarão do leilão teriam suas vantagens competitivas comprometidas. A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em nota, confirmou que os planos seguem inalterados, já que o processo é baseado em dados públicos, não exclusivos.

De acordo com Luciano Losekann, chefe do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), fica claro que a espionagem influencia as negociações de exploração do campo de Libra. Ele conta que uma das possibilidades seria o interesse americano sobre aos sócios da Petrobrás no processo e o andamento das negociações, o que, ele reforça, não seria "o fim do mundo" para a empresa brasileira. O mais grave seria o acesso a informações relacionadas ao know how da empresa, já que o Brasil teria sua competitividade no mercado global afetada. 

"O modelo geológico adotado pela Petrobras é um esforço de anos. Se empresas americanas ou multinacionais têm acesso a isso, reduzem a vantagem competitiva da Petrobrás. Seria ruim também para as empresas brasileiras que participarão do leilão. Porque a Petrobrás tem uma vantagem sobre elas de informações acumulada. Se as empresas estrangeira passam a ter essa vantagem, as empresas nacionais ficam ainda mais para trás", afirma Losekann.

O economista reforça que a ANP não voltaria atrás com o leilão agora, a não ser que tivesse uma suspeita bem consolidada sobre o caráter da espionagem. "O governo americano tem que ser cobrado, porque isso pode ter um efeito sobre o leilão. Mas eu não afirmaria que o leilão precisa ser adiado".

Ele reforça que, mesmo que não esteja clara a forma como a agência americana lidou com as informações, fica evidente que existiu um interesse de expansão estratégica do mercado americano. Os Estados Unidos têm o dever, então, de informar que tipo de informação foi retirada do Brasil, para, com base nisso, alguma decisão ser tomada.

"Não se sabe a natureza dos dados que foram interceptados, então muita coisa fica na especulação. Não tem como saber a priori qual o tipo de informações eles estavam captando. Eu imagino e torço que eles não tenham repassado informações estratégicas da Petrobrás às empresas norte-americanas. Isso seria uma grave intervenção na atividade econômica de um país que, em tese, é amigo dos Estados Unidos. Não dá para entender", disse Losekann.

Como declarou a presidente Dilma Rousseff, se confirmada a espionagem, fica claro que o motivo dos EUA é baseado em interesses econômicos e estratégicos. Luiz Fernando Moncau pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio, reforça que, a cada nova informação divulgada sobre a espionagem americana a outros países, novas desculpas são oferecidas pelo governo dos Estados Unidos. O governo americano alegou que coleta informações econômicas apenas para prevenir crises que afetem o mercado internacional.

"A justificativa dos Estados Unidos não convence. O que a gente acaba observando é que a espionagem  vem sendo feita para diversos fins, inclusive para obter vantagens comerciais. O Snowden já havia informado que o programa americano tem essa finalidade também. Esse é um problema sério", alerta Moncau. 

Moncau comenta que uma resposta à espionagem no Brasil é complicada e que é preciso que os países afetados reajam em conjunto.

A Petrobras informou, por meio da assessoria de imprensa, que dispõe de sistemas altamente qualificados e permanentemente atualizados para a proteção de sua Rede Interna de Computadores (RIC). O tráfego na RIC e o fluxo de dados entre a RIC e o ambiente externo (rede mundial de computadores) são monitorados permanentemente pela Petrobras, segundo a nota.