Milho deve pagar custo da ineficiência portuária

Safra da soja vai prejudicar escoamento do cereal 

O Brasil colhe uma safra recorde de milho. Altos preços de mercado e melhoria do câmbio animaram produtores brasileiros e o resultado foi nos últimos dois anos um salto da produção brasileira em 32%, atingindo 76,0 milhões de toneladas em 2012/13, segundo a CONAB, rivalizando com a produção de soja (83,4 milhões). Além dos preços remuneradores, o domínio da tecnologia tem permitido o crescimento da segunda safra anual, a safrinha, hoje maior do que a safra de verão.

O primeiro semestre de 2013 seria o momento crítico para o escoamento do grande excedente de milho gerado no Brasil. A queda da produção americana em razão da seca no ano passado no Meio-Oeste deprimiu de tal forma o suprimento no principal exportador mundial, que trouxe os estoques do produto a níveis mínimos. Os preços atuais ainda carregam os efeitos da seca e deverão se manter atraentes até a entrada da nova safra americana em agosto próximo, cuja estimativa inicial é de uma produção recorde, suficiente para o pleno abastecimento do mercado e recomposição dos estoques. Se confirmada, o que depende da evolução da safra que está sendo plantada, os preços podem desabar.

Os importadores (China) nesse momento estão ávidos pelas exportações brasileiras. Entretanto, essas não deverão se materializar. A razão é o gargalo portuário. Desde que as exportações brasileiras de grãos passaram a atingir recordes históricos na primeira metade dos anos 2000, muito pouco foi feito em termos de expansão da estrutura portuária para granéis agrícolas.

Um retrospecto das exportações brasileiras de milho mostra que, devido à  falta de competitividade, o produto esteve fora do mercado mundial até o final dos anos 90. A desvalorização cambial de 1999 deu novo alento ao setor, que respondeu com adoção de tecnologia e melhoria de produtividade. A produção saltou de 31,6 para 42,2 milhões de toneladas no intervalo de uma safra (de 1999/2000 para 2000/01) e o milho brasileiro retorna ao mercado mundial em 2001, após 30 anos de ausência, com um volume de inacreditáveis 5,0 milhões de toneladas, comprovando o potencial de competitividade do produto brasileiro.

Desde então, o milho se mantém presente na pauta de exportações.  Em 2007, o volume exportado salta para novo patamar, atingindo nível recorde de quase 11 milhões de toneladas,  volume que se repete em 2010, consolidando a ocupação da fatia do mercado mundial deixada pela destinação para a produção de etanol do milho americano (principal exportador mundial).  Novo recorde é atingido em 2012, com o embarque de 21,7 milhões de toneladas.

No ano passado, só foi atingido esse recorde de exportações de milho, (equivalente a quase 70% do volume embarcado de soja em grão), porque as exportações de soja foram concentradas no primeiro semestre, deixando espaço para o embarque de milho a partir de julho/agosto. Este ano o excedente exportável de milho é ainda maior. 

As exportações de milho somadas às de soja em grão, saltaram de 29 para 54 milhões de toneladas entre 2006 e 2012. Mas desde o início da década já era possível perceber a crescente necessidade de serviços portuários para granéis agrícolas, haja visto o notório congestionamento.

A soja em grão e em farelo, produtos de maior valor por tonelada do que o milho, absorvem toda a capacidade de embarque de graneis agrícolas dos portos de Santos e Paranaguá no primeiro semestre e, em anos de safra abundante de soja, como deverá ocorrer em 2013, essa situação se prolonga por todo o segundo semestre, sem espaço para escoamento do milho.  

Os produtores de milho serão derrotados pela falta de logística de escoamento da safra para o exterior no momento crítico do mercado mundial. Nas condições atuais dos portos, a logística frustra os propósitos da incorporação de tecnologia no milho, produto que responde muito bem à combinação de sementes híbridas com fertilizantes.

Por tudo isso, o mercado estima que as exportações de milho não deverão ultrapassar 10 milhões de toneladas. Esse volume não será suficiente para evitar uma situação de excesso de oferta no mercado interno, elevando o estoque final (de passagem) a nível recorde, da ordem de quase 10 milhões de toneladas. Esse montante tem o potencial de fazer desabar os preços no mercado interno brasileiro, com perdas significativas na renda do produtor. Diferente da soja, o milho é produzido em todas as regiões do país, por pequenos, médios e grandes produtores, portanto a situação que se antecipa terá reflexos em todas as regiões agrícolas do país com impacto nas safras futuras.  

*Pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV/IBRE