Empresas do grupo EBX causam alvoroço entre analistas econômicos

Geração de caixa de empresas de Eike é incerta

A situação das empresas do grupo EBX, do bilionário Eike Batista, vem causando alvoroço entre acionistas e bancos que financiaram a capitalização de suas companhias para desenvolver projetos. Especialistas analisam que os investidores estão incertos sobre a geração de caixa das empresas para dar retorno financeiro frente aos recentes desempenhos e aos resultados divulgados. Para eles, por conta da magnitude de tais projetos, a conta pode ainda recair para o governo, por meio de seus braços financeiros.  

Uma reportagem da Bloomberg desta terça-feira (19) aponta que renomadas instituições financeiras do país, que já teriam desembolsado mais de R$ 12 bilhões, estão apertando o cerco para que o mega empresário ofereça garantias de pagamento aos créditos obtidos.

Grandes empréstimos e caixa

Segundo a publicação, que identifica as fontes apenas como pessoas ligadas “diretamente ao assunto”, o Itaú Unibanco Holding AS teria emprestado cerca de R$ 5,5 bilhões, enquanto o Bradesco já teria liberado R$ 4,8 bilhões em financiamentos. O BTG Pactual, liderado pelo banqueiro André Esteves e que firmou um acordo para uma linha de crédito de US$ 1 bilhão com Eike, também já teria emprestado R$ 1,6 bilhão. Os números não foram confirmados pelas empresas.

Recentemente, vem sendo especulado que o empresário carioca venderá participação da participação na MPX Energia AS. Além disso, a OGX Petróleo teve 85% de recuo de seu valor mercado nos últimos 12 meses, enquanto os números da mineradora MMX do último trimestre de 2012 mostram que a companhia teve prejuízo de R$ 348,7 milhões, com geração de caixa medida pelo Ebtida (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) negativa em R$ 16,8 milhões frente ao lucro de R$ 18,4 milhões no mesmo período de 2011. As perdas totais no ano passado chegaram em R$ 795,7 milhões.

Em setembro do ano passado, em nota ao Jornal do Brasil, a EBX afirmou que estava capitalizada, “com cerca de US$ 9 bilhões em caixa, recursos suficientes para garantir a execução dos projetos desenvolvidos no País. Todas as companhias de capital aberto do Grupo EBX vêm cumprindo seus planos de negócios em dia, com funding substancialmente equacionado para os próximos anos”.

Valores questionáveis

Para o professor de finanças do Ibmec Mauro Rochlin  é natural que, quando uma empresa tenha tamanho volume de empréstimo tendo como garantias ações e apresente resultados negativos, os credores procurem mais explicações para reaver o seu investimento.

“Alguns projetos do grupo ainda não estão concluídos, como portos. Ainda não geram receita porque não estão implantados de fato. Mesmo a OGX, com os péssimos resultados nos últimos meses, ainda não é um caso perdido. Pelo contrário, as expectativas são muito boas”, avalia o professor. “No curto prazo ficou pior, mas não há nada que indique que suas reservas não existam ou que ela tenha incapacidade de operar e entregar os resultados prometidos. Para afirmar isso, teríamos que ter acesso a dados que ainda são indisponíveis”. 

No entanto, causa estranhamento ao economista os valores divulgados. Segundo ele, é pouco crível a hipótese de que os bancos estariam tão expostos ao risco tendo como referência uma única empresa, no caso o Grupo EBX.

“Pela própria dimensão, chegam a ser questionáveis estes números. Não acredito que a EBX tenha tamanha exposição bancária. Esses são números de financiamentos do BNDES, e não de bancos privados. Além disso, duvido que os bancos esperassem as ações caírem tanto para pedir a recomposição dessas margens”, ponderou Rochlin.

Impacto político

Ricardo Torres, professor de MBA da BBS Business School e diretor da Norfolks Advisory, destacou a dificuldade das empresas do grupo de Eike Batista em gerar caixa. Segundo ele, mesmo que a companhia afirme ter caixa para garantir suas operações e pagamentos, é preciso verificar a proveniência desse dinheiro, que pode ser oriundo de empréstimos.

“A situação do grupo EBX é bastante crítica, porque ele vem prometendo uma série de resultados que não vêm se concretizando. Todos os projetos têm que gerar recursos para pagar dívidas. A maioria dos projetos que o Eike desenvolveu nos últimos anos são de uma magnitude impressionante. São investimentos bastante consideráveis”, ressaltou Torres, acrescentando que os números da publicação são “condizentes com os projetos que vêm sendo montados”.

O especialista destacou que esse tipo de noticiário gera um impacto político a partir do momento em que muitas empresas do grupo detêm recursos que vieram do BNDES. No entanto, “o ataque direto mira as iniciativas do Eike em salvar essas empresas e, juntamente com isso, muitos bancos estão revisando os valores de empréstimos já considerando essas situações novas”, avaliou.

Torres não descarta uma possível intervenção estatal no assunto para resguardar o investimento e a expectativa que eles geraram na economia nacional. “A situação de caixa precisa ser observada. Se você tira o pé, o castelo de cartas cai. O governo deve, sim, auxiliar (o grupo) para não perder os valores já investidos ali”, projetou.