Salários e câmbio dão vantagem à China frente ao Brasil

Não é à toa que a China atrai cada vez mais multinacionais. A gigante asiática se tornou importante personagem no mercado internacional não somente pelo forte investimento em exportações, mas por manter sua alta competitividade. Em estudo publicado pela consultoria KPMG International, o país está no topo do ranking entre os países em desenvolvimento com baixo custo e recomendáveis para fazer negócios. O Brasil aparece em 5º lugar.

A pesquisa chamada de Competitives Alternatives (da tradução, Alternativas Competitivas) mostrou que a China tem custos 25,8% menores do que os Estados Unidos, enquanto o Brasil tem custos apenas 7% mais baixos que os norte-americanos. Índia e Rússia aparecem em segundo e terceiro lugares, com 25,3% e 19,7%, respectivamente. Além da mão de obra mais barata, outros fatores também contribuíram para colocar a China como um dos países mais atrativos para os negócios.

A ida de empresas norte-americanas e europeias para o continente asiático começaram já na década de 1980. O professor do departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), de Marília, Marcos Cordeiro Pires, lembra que a partir dos anos 70, o custo produtivo ficou muito elevado para as multinacionais, devido à forte estrutura sindical e trabalhista. "O lucro disputava muito com os salários", afirma. A solução foi fracionar a produção e migrar para cidades da Ásia. "Os países da América Latina já tinham uma estrutura sindical mais organizada, a renda per capita era maior, então isso privilegiou a ocupação do espaço naquela região", recorda Pires.

Além disso, havia também um grande interesse político por parte do governo norte-americano. "Houve ali uma influência política de deslocamento no sentido de frear o avanço da União Soviética no Oriente", diz o professor da Unesp. Contudo, a flexibilidade das leis trabalhistas que influenciaram a migração de multinacionais para a China não está hoje entre os fatores mais destacados. Segundo Pires, a legislação atual garante muitos direitos aos trabalhadores, que devem ser respeitados pelas empresas que vão para o país.

O que chama a atenção de empresários é o baixo custo de mão de obra no país. Pires alega que o salário é baseado no pouco elevado custo de vida. Quando esteve na China, o professor notou que o preço de alimentação e transporte são bem menos elevados do que no Brasil. Ele lembra que na lancheria de uma universidade, por exemplo, um hambúrguer e um refrigerante custam cerca de R$ 10 no Brasil, enquanto um lanche semelhante na China custa em torno de um ou dois iuans, o que seria R$ 0,33 ou R$ 0,66. Pires lembra que o tíquete de metrô em Pequim também é barato, sendo apenas um iuan, o equivalente a US$ 0,16. "Aqui no Brasil, a passagem de metrô seria mais ou menos US$ 1,5", compara o professor.

A taxa cambial é outro atrativo para as multinacionais. O sócio da área de Tributos Internacionais da KPMG no Brasil, Ericson Amaral, afirma que o governo chinês tem uma política cambial estratégica que visa manter a taxa de câmbio um pouco mais desvalorizada com relação a outras moedas. "Se comparada com a do Brasil, o real está valorizado. Isso cria uma desvantagem para a indústria brasileira", diz Amaral. Segundo Pires, o governo não só segura o câmbio como também o mantém atrelado ao dólar. No entanto, desde a década de 1990, a moeda chinesa sofreu uma valorização diante da norte-americana. "Se tinha uma cotação de 8,4 iuans por dólar, hoje está em 6,2".

Os gastos com logística também desfavorecem o Brasil nessa competição com a China, por serem bem mais elevados do que no país asiático. "A China manda para os Estados Unidos um produto com um terço do custo de logística do Brasil", afirma Marcos Cordeiro Pires. Além dos caros pedágios cobrados nas estradas, Pires aponta também a falta de infraestrutura e a questão do tempo necessário para levar a mercadoria aos portos brasileiros como desmotivadores para as multinacionais. O professor de Ciências Políticas e Econômicas diz ainda que os portos chineses ampliaram sua capacidade de transporte em 2011, favorecendo o comércio com o país. A ampla malha ferroviária é outro ponto que facilita a logística dos produtos de multinacionais.