Aumento dos alimentos afeta mais à baixa renda

Para esse parte da população, alta foi de 6,9%

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), taxa de inflação oficial, em 2012, registrou aumento de 5,84% no Brasil, conforme anúncio do IBGE nesta quinta-feira (10).

O percentual está acima da expectativa do governo no início do ano, de 4,5%, mas abaixo do teto da meta para o índice, que era 6,5%. Especialistas ouvidos pelo Jornal do Brasil destacaram que as estiagens, no país e em outros locais do mundo, afetaram as safras de grãos e puxaram para cima os preços da alimentação, bastante significativo para a taxa. Para 2013, a projeção é de que o avanço da inflação se mantenha no mesmo patamar. 

Nesta sexta-feira (11), um dos dados que chamou mais atenção foi o aumento da inflação para as famílias cuja renda é de até 2,5 salários mínimos, cerca de R$ 1.700. Para essa parte da população, o índice teve alta de 6,9%, de acordo com o IBGE.

Segundo o pesquisador André Braz, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio), a oscilação dos preços dos alimentos pesa mais no orçamento dessas famílias, chegando a 30% do total de suas despesas. Ele lembrou que os grãos como soja, milho e trigo, e todos os seus derivados, tiveram aumento na tarifa por conta de secas no Brasil, Estados Unidos e Rússia. 

"Esses itens têm pouca substituição. O arroz e o feijão, por exemplo, ficaram 30% mais caros cada um, um prato básico do brasileiro. O óleo de soja subiu 23%, o pão francês 10%, aves e ovos, que se alimentam de grãos que encareceram, aumentaram em até 15%. Todos esses aumentos em torno das commodities refletiram nas cestas de consumo das famílias de renda baixa", explica Braz.

O especialista também ressaltou que o setor de serviços foi preponderante na composição da taxa inflacionária do ano passado. De acordo com ele, os sucessivos reajustes do salário mínimo, que praticamente dobrou desde 2006 quando era R$ 350, influenciaram os preços na área. Atualmente, após o decreto presidencial Nº. 7.872/2012, o valor está em R$ 678,00. Para ele, esse avanço dos preços no setor de serviços, no entanto, não deve continuar, pois pode esbarrar na falta de quem pague por ele. 

"Um prestador de serviço não colocará níveis de salários mais altos se não tiver um conjunto de famílias pagando pelo reajuste desse gasto no preço final. Os serviços hoje estão crescendo em torno de 9% em 12 meses, no mesmo patamar de alta do salário mínimo agora em janeiro. É difícil imaginar que se distanciem disso nos próximos meses e afetem o consumo", destaca.

2013: IPI, gasolina, cigarro e energia elétrica

Para 2013, o economista avalia que o retorno da cobrança do IPI para a linha branca e automóveis (que retorna, mas em níveis menores que os anteriores), o provável reajuste da gasolina e a tributação do cigarro influenciarão o comportamento da inflação. No caso da gasolina, segundo Braz, o insumo compromete em média 3% do orçamento familiar. "O cálculo é de que seu impacto seja de 0,03% em cada 1% de aumento do preço da gasolina. As projeções dão conta de que aumentaria 6%, afetando portanto 0,18% na inflação", analisa.

Em contrapartida, ele adverte que o barateamento das tarifas da energia elétrica, confirmado pelo governo, poderá compensar esses aumentos já esperados. Avalia também que a tendência é de que os preços dos alimentos diminuam. Mas, ainda assim ele acredita que possa haver um aumento da inflação provavelmente pelos aumentos que já estão previstos como os da gasolina, cigarro e a volta do IPI.

"Não temos certeza de como vai ser o barateamento líquido da energia para a indústria e para as famílias. Tem sempre questões pendentes: os reservatórios baixos, a possibilidade do uso de termelétricas e, com isso, o encarecimento da tarifa. O governo falava em 20% mais barato, o que seria uma bela âncora para reduzir a taxa inflacionária. Mas, me parece que essa balança está mais para o lado que vai afetar positivamente (aumentar o índice) do que contê-lo", finaliza Braz. 

Desigualdade e duas visões

Já para Alex Ferreira, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), do campus de Ribeirão Preto, o dado relativo às famílias com menor renda tem um efeito parcial de aumentar a desigualdade de renda. "Isoladamente, tende a aumentá-la, porque o poder de compra dessas pessoas é afetado de forma desigual, cai mais que os outros", diz.

Ele também destaca que, justamente esta porção dos brasileiros com menor acesso ao sistema bancário e que lida diretamente com o papel moeda, fica mais vulneráveis às oscilações dos preços. "Acredito que não será muito grade esse efeito, mas o problema maior é a tendência" (de alta da desigualdade de renda), complementa Ferreira.

Segundo o professor, é possível interpretar os dados do IBGE de forma pessimista e otimista. A pessimista diz que o Banco Central está sendo conivente com a inflação e o resultado do IPCA dentro da meta se deveu às alterações na metodologia do IBGE no cálculo do índice no ano passado. "Esses economistas dizem que a meta só foi atingida porque houve desoneração fiscal e mudança na metodologia. Porque o crescimento do PIB em 2012 foi muito baixo. Isso gera uma apreensão em relação aos próximos anos. Essa tendência pode ser um descontrole dos preços", analisou. 

O pensamento otimista, informa Ferreira, leva em conta que a taxa de desemprego está relativamente baixa. "Ainda assim o BC conseguiu manter o IPCA dentro da meta. Houve pressão externa no preço dos alimentos. Eles pensam que o BC não quer atingir o centro da meta porque haveria um custo muito grande no crescimento do PIB e na taxa do desemprego. Essa é a visão do governo. No próximo ano, há uma tendência de retorno da inflação à meta", conclui.