Vitória de Hollande representa fim da austeridade da era "Merkozy"

Socialista muda relações com a Alemanha, que deverá ceder com medidas menos austeras

Em maio de 1995, François Mitterrand deixava o governo da França depois de 14 anos no poder, se tornando o presidente que por mais tempo comandou o país. Exatos 17 anos depois, o Partido Socialista (PR) volta a controlar a política francesa, com a eleição de François Hollande, no último domingo (6).

A vitória contra o atual presidente Nicolas Sarkozy não foi esmagadora (52,62% contra 48,38%), mas mostrou como a crise econômica influenciou o país de maneira fundamental. Durante toda a campanha, Hollande apresentou as medidas de austeridade implementadas como extremamente prejudiciais para a França, que desde 2009 vive momentos conturbados. 

O crescimento quase nulo, o desemprego de cerca de 10% e a dívida de 1,7 trilhão de euros assustaram os eleitores, que parecem cansados da política enxuta do "Merkozy", como foi apelidada a dupla Sarkozy e Angela Merkel (chanceler da Alemanha). Juntos, desejavam economias cada vez mais reprimidas, ao mesmo tempo em que enchiam os bancos com capital.

"Existia uma afinação entre Sarkozy e Merkel. Ambos tem o mesmo perfil liberal-conservador, ambos entendiam que a crise deveria ser resolvida mediante a redução dos gastos públicos, aquela visão clássica do liberalismo", analisa o sociólogo Williams Gonçalvez, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).  

Durante sua campanha, Hollande prometeu forte intervenção do estado, investimentos, gastos públicos e incentivos. Sua eleição reflete um movimento crescente na Europa, de rejeição às políticas ortodoxas dos líderes da Zona do Euro. Na Grécia e na Holanda, por exemplo, partidos do governo também perderam poder e a tendência deve aumentar, já que as medidas austeras parecem aprofundar ainda mais a crise econômica, ao invés de afugentá-la. 

"A eleição de Hollande mostrou que existem outras formas de enfrentar o problema. Antes, o Merkozy colocava como se os problemas fossem puramente administrativos. Existem formas mais heterodoxas de se lidar com a crise", afirma Gonçalvez. 

Depois do "Merkozy"

As relações entre França e Alemanha certamente mudarão com as novas políticas que Hollande pretende implementar no país. De acordo com especialistas, as nações entrarão em uma "queda de braço" na hora de defender suas políticas. O francês, no entanto, leva vantagem na briga. 

"A vitória de Hollande será um "divisor de águas" nas negociações de enfrentamento da crise, ele e Merkel discordam nas medidas e a Alemanha com certeza não vai querer ceder, mas o problema é que as medidas de austeridade tem ficado insustentáveis politicamente, as urnas tem mostrado isso", afirma o economista Fernando Sarti, diretor da Faculdade de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Além disso, a França continua sendo o principal (e quase único) aliado político-econômico da Alemanha, que não pode ver o país latino afundar na crise econômica junto com os seus vizinhos Itália e Espanha, por exemplo.

"Não vai ser simples, mas a Merkel sempre jogou com esta coisa de ficar parada, esperando que os mercados aumentassem a pressão nos países e eles acabavam cedendo ao poder alemão, que impunha condições muito austeras", explica o economista Pedro Paulo Bastos, professor da Unicamp.

Porém, segundo o especialista, "este jogo" está ficando mais complicado politicamente, já que esta "carpada", de jogar os mercados contra os países, não poderá acontecer com a França. 

"Sempre existiu um pacto silencioso, não escrito da Comunidade Europeia, que nenhum dos dois países pode ficar sozinha. Nem no posto de vista politico, mas asmbém econômico. A Alemanha não pode correr o risco de ver a França afundada em uma crise, ela esta intimamente vinculada e articulada com o sistema financeiro e produtivo da Europa, que não existe sem a França", analisa. 

Os economistas acreditam que esta dependência alemã, aliada com a perda de apoio político dos outros países, levará Angela Merkel a afrouxar as políticas austeras na economia e ceder para que os membros possam realizar um pouco mais de investimento. 

E agora, Hollande?

No entanto, apesar da postura agressiva, François Hollande não deverá realizar mudanças tão radicais quanto parece e há uma reação exagerada dos mercados em relação ao novo presidente, afirma Pedro Paulo.

"Ele não é tão radical quanto parece. Por exemplo, afirmou que manteria o compromisso de um redução de deficit de 3% para este ano, e promete equilibrar as contas em 2017. A França não tem superavit há 38 anos e ele afirma que consegue controlar as contas em 5 anos, em um momento não muito favorável economicamente", especula.

Uma das propostas de Hollande que atraiu os franceses foi o aumento de gastos em 20 bilhões de euros. No entanto, Bastos afirma que o número é baixo e que não deve ser guiado para setores fortemente empregadores da economia. 

"É muito pouco, e ele pretende aumentar isso em 5 anos. E isso envolveria basicamente reforçar a indústrias de alta tecnologia e serviços mais qualificados, onde a França já é líder. Não envolve uma política de proteção de setores industriais tradicionais ou fortemente empregadores", afirma.

Sem o poder de aplicar políticas monetárias - já que o Euro não é controlado pelo país - François Hollande pretende aumentar e ampliar as políticas anticíclicas. Uma das medidas seria criar um Fundo Europeu voltado apenas para infra-estrutura, afirma Bastos.

Aprovação, mas em níveis diferentes

Os especialistas consultados pelo Jornal do Brasil aprovaram a escolha dos franceses. Para Pedro Paulo, a opção foi "ótima".

"Não dava pra ficar com o Sarkozy, o Hollande representa um caminho que eventualmente pode levar a Europa a sair deste circulo vicioso de austeridade, de queda de arrecadação, piorando a situação dos consumidores endividados, aprofundando o problema", opina.

Fernando Sarti também aprova o novo presidente, mas faz ressalvas. "A volta dos socialistas era inevitável, mas os quadros se renovaram pouco", conclui. 

Carolina Mazzi