BNDES deveria mudar critérios de investimento, afirma Sérgio Lazzarini

Os critérios do BNDES (Bando Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e a atuação das grandes empresas brasileiras são alguns assuntos discutidos por Sérgio Lazzarini, pós-doutor em Administração pela Harvard University, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), autor de diversos artigos e do livro "Capitalismo de Laços", em entrevista exclusiva para o Jornal do Brasil. 

O especialista critica as políticas do BNDES para proteger setores industriais "conservadores" e sugere novas formas de atuação do Banco. Confira abaixo. 

Qual o critério do governo para emprestar dinheiro para setores e empresas? O Brasil adota um sistema de “capitalismo de estado”, com forte intervenção do país na economia, muito através de empréstimos pelo BNDES. 

O BNDES e as políticas industriais são bem complexos, de tempos em tempos o governo anuncia novas medidas de investimento. No primeiro mandato do governo Lula, houve um movimento para investimentos nos setores de desenvolvimento de tecnologia.

O BNDES tem muita inconsistência na eleição de setores de investimento, funciona muito mais como um instrumento para tapar buracos, ir preenchendo os problemas conforme surgem. O banco tem um corpo técnico bastante qualificado que direciona bem os investimentos. Mas isso também gera um paradoxo, já que o banco público, ao privilegiar os bons pagadores, acaba pegando o "filet-mignon" do empresariado.

E as políticas deveriam ser direcionadas para indústrias com muitos problemas, grupos industriais que precisam ser resgatados, com outros grandes problemas, como a carga tributária, infra-estrutura, câmbio.

Qual deveria então ser o foco de um banco público?

Acho que existem duas formas que o BNDES poderia agir. Uma seria para destravar bons investimentos, que tem boas perspectivas. Ou eleger setores, se desenvolver em algumas áreas mais estratégicas para a economia. 

Acho que deveria também dar uma ênfase em empreendedores que possam ter bons projetos, e esta potencialidade lhes garantiria investimentos. No Chile, por exemplo, o banco público é focado apenas para as pequenas empresas.

O problema de se investir nas grandes empresas, como faz o BNDES, é que eles só procuram o banco pelos subsídios e os empréstimos, mas agem independente da ajuda. 

Acho que este outro foco atual de incentivo a indústria, de direcionar para os setores que sofrem com competitividade, com problemas estruturais, não é muito positivo também. Acho que isto pode criar um circulo vicioso, de ficar tapando buracos. 

Mas o modelo mental atual é o que acredita que uma economia dinâmica depende de setores conservadores, como a indústria têxtil. Acredito que pode-se estimular a economia do país com outros setores, como o agronegócio. Ou, por exemplo, estimular a melhor do terceiro setor no Brasil, de serviços, que também é de baixa qualificação, muito caro e muito ruim. A chave está no governo promover uma renovação na economia inteligentemente. Por exemplo em Singapura, quando durante uma crise, os desempregados foram trabalhar no ensino básico. 

Recentemente houve a fusão das indústrias farmacêuticas para a criação de um “superlaboratório”. Qual o objetivo dessas criações? Os campeões nacionais podem minar a competição?

É sempre este modelo mental atual que está na cabeça do Luciano Coutinho (presidente do BNDES), de que o Brasil precisa de grandes empresas para competir internacionalmente. Houve muito erro na forma como isto foi implementado no Brasil, que tentou copiar um modelo que foi implementado principalmente na Coréia do Sul na década de 70. Mas aqui no Brasil, estes grandes "campeões nacionais" acabaram aumentando a concentração do setor, o que reduziu a competição, e paradoxalmente reduziu a vontade destas empresas de investir fora, que era o objetivo prioritário do governo. Mas porque ir pro exterior se a competição aqui está fraca e há domínio no mercado?

Na Coréia houve preocupação, durante este processo, de deixar os grupos competirem entre si. Outra falha grave aqui no Brasil foi promover esses campeões nacionais sem contrapartidas de resultados.

É interessante ter campeões nacionais que podem competir, mas tenho a impressão que esta coisa dos campeões nacionais caiu um pouco devido as crises. Acho que em alguns setores vale a pena, como no caso da Embraer, por exemplo. 

Muitas das maiores empresas do mundo são de capital estatal. Como você vê este capitalismo dominado pelos governos? É uma tendência? Quais os aspectos positivos e negativos disto?

O modelo chinês é muito forte, os grandes campeões chineses são estatais. Um braço do governo para implementar suas interferências no setor privado de forma bastante direta. Você cria grandes empresas controladas pelo estado a mando do governo, que decide o que quiser. Se tiver boas intenções, como segurar a inflação, é positivo, mas o que garante isso? Este é o grande problema destas grandes estatais dentro do governo. 

Elas tem um certo papel em setores e ações que os privados não estão muito interessados. Aqui no Brasil, por exemplo, a extração em alta profundidade de petróleo que a Petrobras investiu é um bom exemplo, pois seria algo que as privadas teriam desistido depois de um tempo. A FioCruz também é conhecida como um centro de inteligência. Mas existe um limite, pois a interferência precisa ser apenas em alguns setores. 

E é preciso um corpo técnico para gerir essas empresas que possam tomar as melhores decisões para a empresa, pois os governos vão e vêm, mas estas empresas não, então é preciso sempre ter um corpo técnico competente. 

As empresas estatais estão mais transparentes? Mais eficientes? A nomeação de Graça Foster pode ser um indicativo de uma política mais voltada para a competência e experiência?

Paradoxalmente na época da ditadura existiam menos políticos do que os técnicos dentro das estatais. O governo precisa definir parâmetros, mais ou menos estáveis, e as estatais definirem técnicos subordinados a uma agência reguladora técnica também. É necessária esta complexidade. 

Atualmente, sucateamos a agência reguladora, tirando autonomia dos técnicos, agora temos grandes estatais muito pesadas sobre controle total do governo. É preciso que as estatais sejam mecanismo de Estado e não braços do Governo. 

Apuração: Carolina Mazzi