Cúpula das Américas não tem objetivos claros, afirmam especialistas

A Cúpula das Américas, que terminou no último Domingo em Cartagena, na Colômbia, deixou clara a divisão política em relação aos temas apresentados e mostrou fragilidades nas razões que justificam a existência do fórum, afirmaram os especialistas ouvidos pelo Jornal do Brasil.

A reunião dos países das Américas não produziu nenhum documento ou acordo oficial. As principais questões discutidas foram o controle do narcotráfico, a soberania das Ilhas Malvinas e a entrada de Cuba na Cúpula. Neste último quesito, as divergências políticas ficaram claras, já que apenas os Estados Unidos e o Canadá se colocaram contra a entrada do nação socialista nas reuniões. 

Com o posicionamento contrário dos dois países também em relação a soberania das Malvinas, os representantes argentinos - inclusive a presidente Cristina Kirchner - se retiraram mais cedo, em protesto. Estas crescentes divergências podem indicar um esvaziamento de sentido para o encontro, afirma o economista Pedro Paulo Bastos, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

O especialista explicou que o objetivo na criação da Cúpula foi o estabelecimento da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), uma ambição principalmente norte-americana, que visava diminuir os impostos e aumentar a circulação comercial entre os países das Américas. 

A falta de flexibilidade dos Estados Unidos acabou minando o projeto, e a Cúpula passou a operar sem uma direção clara, analisou Bastos. 

"Esta cúpula ficou um pouco sem sentido, não tem mais uma agenda clara. Os americanos, em função da falência do projeto ALCA, buscaram avançar um conjunto de acordos bilaterais com a região individualmente, por exemplo, com a Colômbia, Peru, Chile. Estes acordos são feitos em paralelo a Cúpula das Américas", exemplifica. 

Unificação Latino-americana

A posição firme das nações sul-americanas ao contrariar os Estados Unidos pode indicar uma perda de influência do americano, principalmente devido ao crescimento econômico e a menor dependência comercial de vários países. Mas isto não significa uma integração maior dos latinos, afirma o geógrafo Ricardo Luigi, professor de Geografia Política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e vice-diretor do Cenegri (Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais).

"Não vejo uma união, existe uma contestação a hegemonia dos Estados Unidos. Não fica claro se estes países estão unidos. Se compararmos com o passado, é um caminho de unificação maior do que já foi feito, mas o Brasil, principalmente, mantêm relações mais estreitas com a Índia, África do Sul e a China do que com os vizinhos", afirma.

Apesar de questionada por diversos especialistas, a existência da Cúpula é alimentada pelos EUA, cujo objetivo é manter uma presença ativa - mesmo que só em discurso - na América do Sul, afirma Pedro Paulo.

Inclusive, a escolha das cidades-sede na América Central e na Colômbia, regiões de forte laços econômicos com o país, mostra a necessidade dos EUA de manter as discussões dentro do escopo de influência norte-americana, acredita Ricardo Luigi. 

América Central

Uma das regiões preocupantes para os países da Cúpula é a América Central, foco constante de turbulências políticas, naturais e rota importante para o tráfico de drogas, tema bastante discutido durante a reunião. 

Segundo Bastos, existe um movimento de integração política e econômica dos países sulamericanos com estas nações, e a intervenção do Brasil na crise política de Honduras em 2009, além da presença militar no Haiti, deixaram estas ambições claras. Além disto, os países tem tentando criar encontros para discutir questões políticas entres as nações.

"Ficou muito claro, do ponto de vista econômico, em como aumentou a atratividade da América do sul depois da crise na economia global. Estes países viram que os emergentes saíram fortalecidos desta", analisa.

A professora Sabrina Medeiros, de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta que a dependência econômica das nações da América Central em relação aos Estados Unidos impedem uma aproximação maior com as potências do Sul. No entanto, a especialista aponta lados positivos na existência da Cúpula.

"Acho que a efetividade da Cúpula está em estabelecer políticas de fronteiras para o futuro, por exemplo, em relação a refugiados e ao narcotráfico, onde ainda existem pontos de convergência e são questões muito importantes", conclui. 

Apuração: Carolina Mazzi