Desaceleração chinesa assusta, mas não é grande problema, afirmam especialistas 

PIB abaixo do esperado assusta o mercado, mas não é motivo para preocupação, dizem especialistas.

A divulgação do crescimento chinês, que ficou em 8,1% no último trimestre, abaixo do esperado pelos analistas, assustou os mercados. No entanto, segundo especialistas ouvidos pelo Jornal do Brasil, não há motivos para preocupação em relação a capacidade do gigante asiático.

Esta é a quinta redução consecutiva do PIB (Produto Interno Bruto) do país. O número contribuiu para a forte queda registrada nas bolsas ao redor do planeta nesta sexta-feira, 13.

O economista Pedro Paulo Bastos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que a redução chinesa é fruto de um ajuste econômico promovido pelo governo, que pretende fortalecer ainda mais o mercado interno e realizar novas reformas estruturais na nação. 

"Entre 2010 e 2011, o governo promoveu várias iniciativas para reduzir a inflação, controlar a expansão do crédito, criou mecanismo regulatórios e por isso a economia avançou ainda menos do que eles imaginavam", explicou.

Apesar de ainda manter um crescimento invejável, a China não está imune a crise europeia, que parece durar além do planejado. Com isso, o país também sofre com a queda nas exportações e precisou reavaliar seus investimentos, afirma o especialista.

Além disso, o governo procura controlar as construções nas grandes metrópoles para evitar uma bolha imobiliária. Os altos preços já assustam os habitantes das enormes cidades chinesas.

"Eles estão procurando fortalecer o mercado interno - para se protegerem de oscilações exteriores - ao mesmo tempo que tentam controlar a inflação e evitar a ociosidade de alguns setores, que acabam inutilizados pela falta de demanda", analisa.   

Uma contínua e forte desaceleração chinesa afetaria todo o mundo e, principalmente as exportações brasileiras, explica Bastos. 

"Se este cenário se fortalecesse, o país iria agir de forma agressiva no mercado externo, colocando muitos produtos - de baixo preço - no comércio internacional, prejudicando os manufaturados brasileiros e conseqüentemente a indústria nacional", analisa.  

No entanto, o economista destaca que não há motivos para preocupação e a apesar da queda, a China continuará como grande impulsionador de crescimento mundial, principalmente dos países emergentes.

Relações Políticas

Apesar do cenário pouco favorável para a China, as relações políticas do país não serão afetadas e o gigante continuará como protagonista nesta nova ordem mundial, em que os emergentes equilibram as decisões importantes com os países desenvolvidos. É o que afirma o sociólogo Willians Gonçalves, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). 

"A economia chinesa puxa o desenvolvimento dos demais, principalmente os emergentes. Os chineses quando compram e quando vendem, seja lá o que for, mexem com o mercado internacional de forma definitiva. Estas pequenas oscilações econômicas não mudam o cenário de protagonismo do país", enfatiza.

Os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) têm se organizado para criar uma ordem internacional, em que as regras não são mais determinadas pelos Estados Unidos e pela Europa, afirma Gonçalves. Para ele, o fortalecimento econômico e sustentável dos emergentes determina esta nova configuração que, na sua opinião, é irreversível.

"Estes dados econômicos não afetaram mais esta formação mundial nova. É claro que a convergência política só se tornou possível em virtude do desenvolvimento econômico. Mas, uma vez alcançado este patamar político, isto não tem mais volta, porque estes países representam uma enorme parte da humanidade", conclui. 

Commodities

Carlos Mota, sócio-líder da consultoria Ernst&Young de Fortaleza, concorda que o asiático continuará como impulsionador das economias emergentes - principalmente os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que viram seus mercados internos fortalecidos nos últimos dez anos.

"Estes países aproveitaram o alto preço das commodities, que vieram com a demanda dos países desenvolvidos, da China e dos próprios mercados internos que começaram a investir fortemente em infra-estrutura", analisa.

A previsão de queda nos preços das commodities, anunciadas esta semana pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), também assustou o mercado financeiro, mas o especialista destaca que os países emergentes não sofrerão muito .

"Durante os últimos 15 anos, os emergentes se utilizaram deste alto valor para investir e fortalecer seus mercados internos, promover um ganho de capital e se modernizar e agora estão mais preparados para esta turbulência, pois seu próprio mercado está suprindo a demanda", explica.

As matérias-primas deverão atingir um valor "mais real" nos próximos meses, já que estavam operando três vezes acima da média, avisa o especialista. O ajuste pode, inclusive, trazer alguns benefícios para os países, principalmente a indústria brasileira. 

"Acredito que com uma redução no preço das commodities, os produtos manufaturados, que dependem da matéria-prima, também terão seus valores diminuídos e se tornarão mais competitivos no mercado. Há uma forte na participação da indústria no PIB brasileiro e talvez este fato possa ajudar a fortalecer este aspeto", prevê.

Carolina Mazzi