Medida para controlar o câmbio ainda não surte efeitos na indústria

As medidas do ministro da fazenda Guido Mantega para controlar a valorização do real frente o dólar começam a surtir efeito no mercado. Nesta quarta-feira, a moeda americana voltou a apresentar alta de 0,37%, e fechou cotada a R$ 1,8070. No entanto, ainda é cedo para se perceber uma reação positiva, ao menos em números, do setor industrial.

A primeira medida do governo foi anunciada no último dia 1º, quando o Banco Central autorizou a expansão de dois para até três anos o prazo de incidência de alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), no valor de 6%, para empréstimos de empresas no exterior. 

Desde então, o câmbio vem diminuindo constantemente. Na última terça, 13, Mantega acusou os países desenvolvidos de desvalorizar suas moedas propositalmente, criando uma "guerra cambial". 0 ministro afirmou ainda que continuará aplicando medidas contra a valorização do real.

Para o economista Paulo Gala, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), o governo tem agido de forma paliativa, e apenas mudanças estruturais resolverão o problema. Além disso, o anúncio constante de medidas tem um efeito psicológico nos investidores, que ficam temerosos de aplicar.

"Os bancos pegam capital no exterior por taxa de juros irrisórias, de 1%, por exemplo, e aqui recebem quase 10% com a Selic. Esse movimento só é lucrativo até o momento que dólar for barato o suficiente para compensar o investimento na taxa de juros brasileiras, que remunera em real", ressalta. 

Outras medidas poderão ser tomadas caso o dólar volte a se desvalorizar, como um aumento ainda maior do IOF, opina Gala. Porém, apenas com a diminuição efetiva da taxa de juros é que o país terá uma taxa de câmbio sustentável. 

"O país está atrelado às metas de inflação, e por isso não pode simplesmente reduzir a taxa Selic. Porém, num cenário ideal, eu acredito que uma das soluções para os juros é a diminuição da taxa na velocidade com que está ocorrendo, cada vez mais baixa", analisa. 

Em uma outra linha, Pedro Rossi, economista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acredita que apenas as medidas de controle de capital, como as já aplicadas pelo governo, são suficientes para controlar o câmbio.

"Há dois níveis onde o governo ainda pode atuar, que é o movimento de estoque de moedas (relativo à posição dos bancos) e o mercado de derivativos. É bom lembrar que os bancos possuem linhas de financiamento em dólar que não passam pelo fluxo cambial e não pagam IOF, ou seja, fogem dessa medida que o governo acabou de aprovar", conjectura. 

No entanto, o especialista concorda com Gala e com Guido Mantega, que a liquidez exagerada dos bancos europeus - que apenas no último mês depositou 500 bilhões de euros na economia local - prejudica o Brasil, já que grande parte desse capital entra no país em investimentos puramente especulativos.

"Não há evidências de que esse capital venha como investimento em produção, que gere riqueza para o país. Por isso, é preciso controlar sua entrada", ressalta Rossi. 

Desindustrialização

Os especialistas concordam que a desindustrialização do país é a pior conseqüência de um câmbio valorizado. Com o alto valor do real, os produtos nacionais perdem a competitividade dentro e fora do país, desestimulando a produção. 

E a indústria nacional ainda não parece sentir os efeitos das mudanças aplicadas pelo Ministério da Fazenda. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou levantamento nesta quarta-feira, 14 que mostra que a atividade do setor desacelerou em 9 regiões metropolitanas do país. O Rio de Janeiro apresentou maior queda, de 5,9%. 

Uma das formas com que o governo vem atuando para ajudar as indústrias nacionais é diminuir a carga de impostos do setor, destaca Gala.

"O IOF já é uma importante receita para o país, que arrecada cerca de R$ 30 bilhões por ano só com esse imposto. O que o governo já tem feiro, e deveria ampliar, é diminuir os impostos das indústrias e compensar esta perda com esse capital que chega com o IOF", explica. 

Além disso, problemas históricos do Brasil dificultam o desenvolvimento do setor, como a infra-estrutura deficitária de ferrovias, portos e aeroportos, além da elevada burocracia e carga tributária.

"O país vive uma competição muito acirrada no mercado nacional e internacional que vem mudando as indústrias. Precisamos modificar estruturalmente os problemas antigos do país", concluiu Gala. 

Calçados

O indústria calçadista, por exemplo, já está sofrendo com a valorização do real. O setor encerrou os doze meses do ano com 11.200 vagas a menos em relação ao mesmo período de 2010. Este desempenho significou uma queda de 2,8%, com o setor empregando 337.503 trabalhadores. 

Para a Associação Brasileira da Indústria de Caçados (ABICalçados), a taxa de câmbio é um dos principais fatores que tem levado empresas nacionais a procurarem outros países para produzir.

"Os produtos asiáticos entram no país muito mais baratos, e acabam eliminando a competitividade dos calçados nacionais. Várias empresas foram para a Nicarágua, por exemplo, que oferece custos mais baixos", afirma Elisabeth Rentz, assessora da ABICalçados.

"As consequências da desindustrialização são devastadoras, pois este é o setor que mais emprega na economia. Ou seja, com esta área fraca, o crescimento econômico do país será afetado como um todo", analisa.

Em 2011, a Azaléia e a Dakota, grandes nomes do setor, fecharam as portas de fábricas no Rio Grande do Sul. A americana Crocs também fechou sua fábrica brasileira, situada em Sorocaba, no interior de São Paulo.

Carolina Mazzi